O verbo utilizado, na’af, tem um
significado mais amplo do que a mera traição da fidelidade conjugal;
compreende uma adulteração do comportamento do homem e da
mulher nas suas relações com os outros. Porém, no contexto das
dez palavras, o verbo refere-se especificamente às relações
conjugais.
A mentalidade patriarcal/machista da época considerava o homem como
o senhor, (ba’al), do casal e da família. Por isso, o homem
cometia adultério somente tendo relações com mulheres casadas
e para com o marido da mulher envolvida. A esposa era de facto vista
como um objecto, propriedade do seu marido, e, assim, existindo
relações sexuais de outro homem com ela eram violados os direitos de
propriedade do homem com o qual a mulher estava casada.
A mulher, por seu lado, era adúltera só em relação ao próprio
marido. Era vista primariamente como aquela que gera os filhos e, ao
casar-se, comprometia-se a manter-se dentro da ordem de filiação do
marido.
Ter uma relação sexual com uma mulher solteira não implicava
adultério, quer porque não havia nenhum marido envolvido, quer
porque o homem não era considerado adúltero em relação à sua esposa.
Será Jesus que vem afirmar a paridade entre marido e mulher e a
considerá-los adúlteros em igual medida, quando traem o próprio
parceiro (Mc. 10, 11-12; Mt. 5, 32; Lc. 16, 18).
Em Israel eram os pais dos noivos que decidiam e geriam o casamento.
Através do contrato de casamento, os pais passavam o seu património
aos filhos e estabeleciam alianças com base em interesses económicos
ou políticos.
A poligamia foi permitida pelos judeus até ao século XI, enquanto
que na tradição sefardita foi permitida até mais tarde, ou seja, até
ao séc. XVI.
A Bíblia enfatiza a necessidade de fidelidade absoluta na relação
conjugal, uma fidelidade que é intrínseca à própria criação da
sexualidade.
“o homem deixará o pai e a mãe para se unir à
sua mulher e os dois serão uma só carne.” (Gn. 2, 24) “Aquilo, pois, que Deus uniu não o separe o homem”
(Mt. 19, 6; Mc. 10, 6-9).
Quebrar a fidelidade é o “tão grande pecado”
do Gn. 20, 9 (Gn. 39, 7-10; Lv. 18, 20). Corresponde a
quebrar a aliança (Prov. 2, 16-17). É o grande pecado do rei
David, visto como pecado contra o próprio Deus (2° Sam. 12, 1-14).
A infidelidade conjugal é punida com a morte (Lv. 20, 10),
mesmo no caso de uma noiva prometida (Dt. 22, 23-29). Isto
explica a perturbação de Maria de Nazaré aquando da anunciação do
anjo.
O tema do amor privilegiado de Deus pelo seu povo, que se expressa
na aliança e que se torna um amor esponsal para com os profetas,
afirma-se como modelo do amor conjugal humano, um amor fiel para
sempre.
O povo de Israel, visto como a esposa de Adonai, é muitas vezes
apresentado como adúltero para com Deus, quando venera outros
deuses e exerce a nigromância ou outras práticas semelhantes (Jer.
5, 7-11; Ez. 16, 15-43; 23, 36-45; Lv. 20, 1-6 e 27; Dt.
18, 9-14).
Os livros sapienciais vêem o adúltero como um homem sem sabedoria (Prov.
6, 32-35; 7, 4-27), “Quem comete adultério é um
insensato” Prov. 6, 32.
Na tradição hebraica
Na tradição hebraica o sétimo mandamento é
associado ao segundo: “Não terás outros deuses para além de
mim...”.
Segundo Rashi, os “outros deuses” são aqueles que não respondem
quando os invocamos, ou seja, que se comportam como estranhos. O
termo responder (do latim re-spondere=prometer) evoca
a ideia de responsabilidade. Só Adonai é aquele que responde
à invocação que lhe é dirigida e se sente responsável para com os
homens.
Se os “outros deuses” são aqueles que não respondem, então o
adultério deve ser relacionado com uma não-resposta, uma ausência de
comunicação e, portanto, uma ausência de “responsabilidade”. Se o
silêncio e a não-resposta prevalecem na relação entre marido e
mulher, então estes acabarão por se tornarem alheios um ao outro e
por perder qualquer tipo de “responsabilidade”.
O adultério encontra-se sempre rodeado por um
silêncio espesso, semelhante ao silêncio que prepara um homicídio.
No adultério experimenta-se só o prazer; falta
completamente a responsabilidade relacionada com uma eventual
filiação. Mas a Torah propõe um princípio de vida que se coloca na
ordem da transmissão e da filiação e por isso
viver quer dizer transmitir a vida,
não só biológica mas também social e religiosa
e as leis que regulamentam as relações sexuais (Lv.
capitulo 18) são dadas para que se permaneça dentro deste princípio
bíblico.
O sétimo mandamento preocupa-se com a eliminação do risco de
nascimentos ilegítimos, ou seja com as consequências que o adultério
comporta na medida em que gera um filho ilegítimo o qual, na
sociedade hebraica, não terá qualquer valor e será considerado uma
planta sem raízes e, portanto, incapaz de dar frutos (Sab. 3,
16-19; 4, 3-6; Ecli. 23, 22-26).
Por isso, em Lv. 18, 20, lê-se “não te unirás com a mulher do teu
próximo; ficarias impuro” porque esse acto transmitiria a vida
mas com uma filiação da qual é impossível assumir a
responsabilidade, dado que não é reconhecida pelo pai, pelo que
“puni as suas iniquidades e a terra vomitou os seus habitantes...”
(Lv. 18, 25). Há portanto uma clara correspondência entre o homem e
a terra: se o homem não respeita a vida e a sua transmissão, então
também a terra não produzirá vida.
Em Dt. 23, 3 é dito que o filho ilegítimo, chamado mamzer
(=aquele que vem do astro) não pode vir a ter parte na assembleia de
Deus. Também a sua descendência é excluída do povo de Adonai. O
filho adulterino nunca será inserido na ordem de filiação porque
nunca ouvirá a história do seu próprio nascimento, que ele não pode
contar a si próprio, e este “não-dito” há-de pesar sobre o seu
futuro. Ele é totalmente judeu mas, embora pertença à comunidade,
não se pode casar no seio desta.