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Abraão SALVA Lot E É ABENÇOADO PELO REI DE SALÉM

 


Génesis c. 14

 

Nicoletta Crosti

 

As novas descobertas sobre o oriente antigo demonstraram que os relatos deste capítulo fundamentaram-se numa tradição antiquíssima, que demarca este capítulo do resto das tradições patriarcais. Está repleto de elementos fantásticos como a vitória dos 318 homens sobre o exército coligado dos reis do oriente. A localidade de Dan não existia no tempo pré-israelítico. Não se chegou a identificar nem os nomes das cidades da Cananeia nem os reis que são mencionados. Quando muito, o referido facto reporta-se, o mais tardar, ao início do séc. XVII. Parece que mais do que castigar as pequenas cidades da Cananeia, os reis orientais pretendiam abrir uma estrada de acesso ao mar Vermelho e ao Egipto.

vv. 14-16 Quando Abraão soube que os seus parentes tinham sido feitos prisioneiros
… Abraão entra em guerra apenas para salvar o seu sobrinho Lot, e não para participar na guerra contra os reis. Num movimento astucioso Abrãao e os seus três aliados atingem a retaguarda do exército, trazem o espólio e recuperam Lot, a sua família e os seus bens. Abraão tornou-se vencedor porque, apesar do número exíguo de soldados, Deus estava do seu lado (veja-se David e Golias em I Sam 17,32-51).

Abraão é apresentado como o Salvador, o libertador, aquele que se coloca próximo dos oprimidos e que também é uma fonte de bênçãos. (Gen 12,2).

Abraão é chamado aqui o hebreu, nome usado para os não-israelitas que em toda a Bíblia só aparece aqui e em Jn 1,9. Na antiguidade dava-se essa designação a um grupo de baixo nível social, formado por pessoas privadas de todos os direitos, que eram excluídas por motivos políticos ou económicos. Só posteriormente é que a designação é aplicada aos membros do povo de Israel.

vv. 17-18 Quando Abraão retornou... Melquisedec, rei de Salém trouxe pão e vinho: era sacerdote do Deus Altíssimo... Vértice desta narrativa é este encontro de Abraão com Melquisedec por sua vez inscrito no diálogo de Abraão com o rei de Sodoma. O lugar dos dois encontros é o vale dos reis, que se pensa ser vizinho a Jerusalém. Nada se sabe de Melquisedec (= rei de justiça, sinónimo de salvação), nem de onde vem, nem de quem é filho. Não é de casta sacerdotal; é contemporaneamente rei e sacerdote, como era costume no Oriente antigo. Junto da corte de Jerusalém era considerado o percursor do rei David (Sl 110/109). Na tradição hebraica e cristã, Melquisedec é o grande sacerdote de uma religião cósmica que abraça todos os povos e cujo templo é o mundo inteiro.

O horizonte da salvação é aberto a todos e Deus serve-se de todos (Act 17,28).

Melquisedec é uma personagem pagã, mas que se dedica ao “Deus Altíssimo”, considerado o Deus único, transcendente, criador do céu e da terra. Mas este é também o Deus de Israel; de facto Abraão jura à sua frente (v.22).

O sacerdócio de Melquisedec é carismático, vem do alto, não é herdado da descendência de Araão. Por isso, o autor da carta aos Hebreus considera-o a prefiguração do sacerdócio de Cristo da estirpe de David (He 5, 5-6; 7, 1-7 + 15-18). A liturgia cristã na eucaristia do cânone romano recorda este mesmo rei de Salém. O pão e o vinho apresentado por Melquisedec já preconizam o pão partido e o vinho vertido por Jesus na última ceia. Na tradição hebraica Shalem (plenitude, integridade, bem-estar e portanto paz) é Jerusalém (Sl 76,3; Jz 4,4). No tempo de Abraão era um lugar dos gebuzeus, dos gentios, no qual se venerava e se servia o Deus Altíssimo. É o lugar onde aconteceu o encontro entre Abraão, o primeiro hebreu, e um rei-sacerdote pagão descendente de Noé, escapado do dilúvio. A vocação de Jerusalém agora começa a ser vista na relação entre Israel e as outras Nações. É uma vocação de paz estreitamente ligada à bênção/salvação divina: E em ti serão abençoadas todas as famílias da terra (Gn. 12,3).

v. 19 Abençoado seja Abraão por Deus Altíssimo… Quem ora deste modo é um pagão, um externo à genealogia da aliança, que abençoa o homem da escolha e da promessa.

Deus de facto não é apanágio exclusivo de ninguém e propaga a sua bênção até no meio dos pagãos.

v. 20a Bendito seja o Deus Altíssimo... A bênção percorre dois movimentos, um do alto para baixo. É Deus que abençoa; o outro, de baixo para o alto, é o abençoado por Deus que agracia declarando a sua fé. Note-se que Abraão permanece calado e é Melquisedec que dá graças a Deus em seu lugar.
v. 20b Abraão deu-lhe o dízimo de tudo. Abraão reconhece em Melquisedec um sacerdote, a quem sente dever entregar a décima parte de tudo quanto possui, reconhecendo-lhe um direito sobre os bens e o exercício de uma autoridade (Nm 18,20-24).

A abertura de Abraão à figura de Melquisedec, que exercia um culto extra-israelítico cananeu, vem dado como exemplo da abertura à fé dos outros.
(Is 66, 18b-21; Ml 1,11).

vv. 22-24 Abraão diz ao rei de Sodoma… nada tomarei daquilo que é teu… Abraão renuncia ao seu direito de reter o património, enquanto vencedor, e mostra-se mais uma vez generoso, não apegado aos bens.

   
 

Tradução: Ana Luísa Teixeira

   
 

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