As novas descobertas
sobre o oriente antigo demonstraram que os relatos deste capítulo
fundamentaram-se numa tradição antiquíssima, que demarca este
capítulo do resto das tradições patriarcais. Está repleto de
elementos fantásticos como a vitória dos 318 homens sobre o exército
coligado dos reis do oriente. A localidade de Dan não existia no
tempo pré-israelítico. Não se chegou a identificar nem os nomes das
cidades da Cananeia nem os reis que são mencionados. Quando muito, o
referido facto reporta-se, o mais tardar, ao início do séc. XVII.
Parece que mais do que castigar as pequenas cidades da Cananeia, os
reis orientais pretendiam abrir uma estrada de acesso ao mar
Vermelho e ao Egipto.
vv. 14-16 Quando Abraão soube que os seus parentes
tinham sido feitos prisioneiros
… Abraão entra em guerra apenas para salvar o seu sobrinho Lot, e
não para participar na guerra contra os reis. Num movimento
astucioso Abrãao e os seus três aliados atingem a retaguarda do
exército, trazem o espólio e recuperam Lot, a sua família e os seus
bens. Abraão tornou-se vencedor porque, apesar do número exíguo de
soldados, Deus estava do seu lado (veja-se David e Golias em I
Sam 17,32-51).
Abraão é apresentado como o Salvador, o libertador, aquele que se
coloca próximo dos oprimidos e que também é uma fonte de bênçãos.
(Gen 12,2).
Abraão é
chamado aqui o hebreu, nome usado para os não-israelitas que
em toda a Bíblia só aparece aqui e em Jn 1,9. Na antiguidade dava-se
essa designação a um grupo de baixo nível social, formado por
pessoas privadas de todos os direitos, que eram excluídas por
motivos políticos ou económicos. Só posteriormente é que a
designação é aplicada aos membros do povo de Israel.
vv.
17-18 Quando Abraão retornou... Melquisedec, rei de Salém trouxe
pão e vinho: era sacerdote do Deus Altíssimo... Vértice
desta narrativa é este encontro de Abraão com Melquisedec por sua
vez inscrito no diálogo de Abraão com o rei de Sodoma. O lugar dos
dois encontros é o vale dos reis, que se pensa ser vizinho a
Jerusalém. Nada se sabe de Melquisedec (= rei de justiça, sinónimo
de salvação), nem de onde vem, nem de quem é filho. Não é de casta
sacerdotal; é contemporaneamente rei e sacerdote, como era costume
no Oriente antigo. Junto da corte de Jerusalém era considerado o
percursor do rei David (Sl 110/109). Na tradição hebraica e
cristã, Melquisedec é o grande sacerdote de uma religião cósmica que
abraça todos os povos e cujo templo é o mundo inteiro.
O
horizonte da salvação é aberto a todos e Deus serve-se de todos (Act
17,28).
Melquisedec é uma personagem pagã, mas que se dedica ao “Deus
Altíssimo”, considerado o Deus único, transcendente, criador do céu
e da terra. Mas este é também o Deus de Israel; de facto Abraão jura
à sua frente (v.22).
O
sacerdócio de Melquisedec é carismático, vem do alto, não é herdado
da descendência de Araão. Por isso, o autor da carta aos Hebreus
considera-o a prefiguração do sacerdócio de Cristo da estirpe de
David (He 5, 5-6; 7, 1-7 + 15-18). A liturgia cristã na
eucaristia do cânone romano recorda este mesmo rei de Salém. O pão e
o vinho apresentado por Melquisedec já preconizam o pão partido e o
vinho vertido por Jesus na última ceia. Na tradição hebraica Shalem
(plenitude, integridade, bem-estar e portanto paz)
é Jerusalém (Sl 76,3; Jz 4,4). No tempo de Abraão era um lugar dos
gebuzeus, dos gentios, no qual se venerava e se servia o Deus
Altíssimo. É o lugar onde aconteceu o encontro entre Abraão, o
primeiro hebreu, e um rei-sacerdote pagão descendente de Noé,
escapado do dilúvio. A vocação de Jerusalém agora começa a ser vista
na relação entre Israel e as outras Nações. É uma vocação de paz
estreitamente ligada à bênção/salvação divina: E em ti serão
abençoadas todas as famílias da terra (Gn. 12,3).
v. 19
Abençoado seja Abraão por Deus Altíssimo… Quem ora
deste modo é um pagão, um externo à genealogia da aliança, que
abençoa o homem da escolha e da promessa.
Deus de facto não é apanágio
exclusivo de ninguém e propaga a sua bênção até no meio dos pagãos.
v.
20a Bendito seja o Deus Altíssimo... A bênção percorre
dois movimentos, um do alto para baixo. É Deus que abençoa; o outro,
de baixo para o alto, é o abençoado por Deus que agracia declarando
a sua fé. Note-se que Abraão permanece calado e é Melquisedec que dá
graças a Deus em seu lugar.
v. 20b Abraão deu-lhe o dízimo de tudo. Abraão
reconhece em Melquisedec um sacerdote, a quem sente dever entregar a
décima parte de tudo quanto possui, reconhecendo-lhe um direito
sobre os bens e o exercício de uma autoridade (Nm 18,20-24).
A abertura de Abraão à
figura de Melquisedec, que exercia um culto extra-israelítico
cananeu, vem dado como exemplo da abertura à fé dos outros.
(Is 66, 18b-21; Ml 1,11).
vv. 22-24 Abraão diz ao rei de Sodoma… nada tomarei
daquilo que é teu… Abraão renuncia ao seu direito de reter o
património, enquanto vencedor, e mostra-se mais uma vez generoso,
não apegado aos bens.