As incongruentes narrativas deste
capítulo evidenciam a presença de duas tradições diversas. A
primeira, vv. 1-6, com Abraão como sujeito principal, nasce da
atormentada experiência de fé dos hebreus deportados na Babilónia,
que se cansavam de crer nas promessas do Senhor e que se colocavam
muitas questões. A segunda, vv. 7-19, com Adonai no centro da
narração, reporta-se a uma tradição muito antiga, talvez a mais
arcaica no que diz respeito à aliança. Os dois relatos têm a mesma
estrutura: uma teofania, um dito de salvação, uma dúvida de Abraão,
um sinal do Senhor.
v. 1 Vem a palavra de Adonai a
Abraão na visão. Esta é a tradução literal do texto; é uma fórmula
típica dos profetas que viram a palavra eficaz de Deus vir ao seu
encontro, e são por isso chamados videntes (1Sam 9,1; 2Sam 24,11;
2Re 17,13). Com esta fórmula sublinha-se que é Deus a tomar a
iniciativa e fá-lo em termos que dão segurança. Abraão será chamado
profeta em Gn 20,7.
vv. 2-3 Meu Senhor Deus, que me darás’? Tudo na vida de Abraão
parece não deixar espaço à esperança, e aqui Abraão lamenta-se a
Deus (Sl 13/12; 22/21, 2-3; 88/87), não se comporta como em Gn 12,4,
obedecendo prontamente. Está infeliz porque é um homem sem filhos e
põe em dúvida a promessa de descendência recebida de Adonai.
Na Bíblia a fé é apresentada como uma aventura áspera,
assemelhando-se mais a uma luta do que uma serena quietude.
A fé é feita de questões, e até de obscuridade, espera, mistério.
vv. 4-5 Conduziu-o para fora...olha para o céu... Olhar para o alto
e esperar é o convite que o profeta Isaías fará aos exilados na
Babilónia (Is 40,25-31). Adonai é sempre o Deus do Êxodo que conduz
a saída de uma situação negativa.
Abraão sairá e olhará as estrelas, e perceberá o sinal, entrando
assim na prospectiva de Deus.
v. 6 Ele acreditou no Senhor que o acreditou enquanto justiça. A fé
e a justiça de Abraão manifestam-se na prova. Abraão é o arquétipo
do crente. (Rm 4,13. 16-25). Crer para Abraão é apoiar-se em Deus,
pondo nele a sua própria segurança e deixando que Deus disponha da
sua própria vida (veja-se Is 30,15-17).
Crer não é uma adesão a uma verdade, mas sim confiança numa pessoa.
Abraão é justo porque entrou na lógica de Deus e está sempre à
escuta do seu projecto.
v. 7 Fiz-te sair da Ur dos Caldeus para te dar a posse desta região.
Começa assim o segundo relato que se refere a uma tradição que
remonta à própria época dos patriarcas.
É usada a expressão fazer sair para recordar que quem dá a terra é
quem resgata da escravatura. É a primeira vez que a vocação de
Abraão aparece ligada à posse da terra.
O dom da terra sempre foi visto em Israel unido à vocação de se
constituir como povo de Adonai, que sobre a terra prometida deveria
ser santo como Deus é santo e assim demonstrar ao mundo quem é
Adonai.
v.8 Como posso saber que detenho a
posse? Abraão duvida e pede um sinal. O pedido de um sinal, não é de
per se contra a fé. Veja-se Gedeão (Jz 6, 14-22 e 36-40) e Ezequias
(2Re 20,8-11). Tudo depende da razão pela qual se pede o sinal.
Veja-se Jesus em Mc 8,11-13.
vv. 9-10 O ritual descrito é um ritual que se observou no médio
oriente antigo, como um ritual de juramento ou de aliança. É um acto
de auto-maldição no qual as partes auguram a si mesmas o mesmo fim
dos animais esquartejados, no caso de não permanecerem fieis ao
pacto (Jr 34, 17-20). O ritual pressupõe uma relação pessoal entre
as partes. Abraão obedece em silêncio sem saber o que se passará.
Adonai compromete-se na promessa/ pacto à qual permanecerá fiel para
sempre.
vv. 11-12 As aves de rapina baixavam...um obscuro terror...
Alude-se
quer aos obstáculos que se poderão opor à realização da promessa,
quer ao terror típico das teofanias.
vv. 13-16 É uma interpelação da vontade do autor, para explicar por
que é que Abraão não tinha visto a realização da promessa. O autor
quer sublinhar que toda a história provém da mão de Deus.
Adonai é um juiz paciente que não castiga uma nação até que a culpa
lhe caiba inteiramente. Por causa da sua vida idólatra, os Amorreus
perderam a terra. Deste modo diz-se que na história há um juízo
imanente.
v. 17 ...um forno que fumega, una
chama ardente passaram no meio dos animais cortados em partes...
Talvez seja uma alusão à aliança do Sinai, o monte incandescente de
Deus (Ex 19,16. 18; 20,18; 24,17). O fogo é o símbolo por excelência
de Deus, inatingível e portanto distante e transcendente, mas também
capaz de queimar e iluminar e, por conseguinte próximo e imanente.
Surpreendentemente é Deus que passa sozinho entre os animais e se
empenha num juramento solene, enquanto Abraão apenas olha.
Muitos séculos depois, a certeza que o dom da terra seja um dom
gratuito de Deus não ligado à fidelidade à Aliança, manterá viva a
esperança de um retorno, entre os hebreus deportados na Babilónia.
v. 18 O Senhor estabeleceu esta aliança com Abraão...do rio do
Egipto ... ao rio Eufrates. É uma promessa que nunca será reduzida,
como a história actual demonstra. A extensão da terra é a do reino
de Salomão, no momento da sua máxima extensão. (1Re 5,1).