Mambré é um lugar santo
pré-israelítico, situado a três km de Ebron a sul da Palestina. O
mito da origem de Mambré foi adoptado pelo clã de Abraão. O mito
dizia que três figuras celestes tinham aparecido ali a uma
personagem ilustre da região a quem tinham anunciado o nascimento de
um filho como prémio da hospitalidade que tinham recebido.
v. 2 Ele levantou os
olhos e viu... e correu ao seu encontro... Abraão não estava
adormecido mas vigilante; apercebeu-se das personagens e intuiu a
sua importância. Como sempre, quando se trata das visitas do Senhor,
as três personagens apareceram subitamente. Abraão não lhes pergunta
quem são ou de onde vêm; é o máximo da hospitalidade típica da
hospitalidade beduína.
Seja no Antigo ou no
Novo Testamento, a hospitalidade é considerada um grande valor,
uma virtude a praticar. ( 2 Re 4, 8-10; Tb
7,1-6; Lev 19,33-34; Mt 25,35; Rm 12,13
e 15,7; 1 Pedro 4,9).
v. 3 As personagens são
três, mas Abraão dirige-se-lhes no singular. Os Padres viram nesta
anomalia uma referência ao mistério trinitário: o Deus Uno e Trino.
vv. 6-8 ... acorreu...
apressou-se... correu... A celeridade no acolhimento de Abraão,
que não quer fazer esperar os hóspedes, é importante. O autor
enfatiza-o para dizer que Abraão se comporta de maneira exemplar
face aos estrangeiros. É digno do dom que lhe será concedido.
v. 10 Eis que Sara tua
mulher terá um filho. É o filho da promessa, há muito esperado
por Abraão.
vv. 11-12 Para evidenciar o
aspecto milagroso do nascimento de Isaac, aparece sublinhada a
impossibilidade física de Sara conceber, considerando a sua idade.
v. 13 Por que riu Sara?
O comportamento de Sara é reprovado e evidenciada a sua falta de fé,
a que ela, por medo, acrescenta uma mentira (v. 15).
v. 14 Porventura é
alguma coisa impossível ao Senhor? É o ápice da narrativa. A
frase virá retomada pelo arcanjo Gabriel na anunciação a Maria (Lc
1,37) e de Jesus (Mc 10,27).
Se Adonai, o
Omnipotente, é Deus da história, não existem obstáculos
inultrapassáveis para a história da salvação, que veio, vem e
virá.
v. 15 A repetição da
palavra “rir” está ligada à etimologia do nome de Isaac, que deriva
da mesma palavra.
vv. 17-19 É o início de uma
nova péricope, inscrita num outro tempo, para sugerir que a
aliança/promessa unilateral do capítulo precedente, no desígnio de
Deus se torna bilateral, porque Abraão e a sua família são levados
a observar a via do Senhor e a agir com justiça (v. 19). Não
o fazendo, é bom que se recordem da história de Sodoma e Gomorra que
vai ser contada.
Deus chamou Abraão a viver uma
relação de intimidade com ele (veja-se Abraão enquanto amigo de Deus
em Is 41,8 e 2Cr 20,7; Dn 3,35; Tg 2,23), por isso confia-se a ele e
mostra-lhe o seu modo de ajuizar o agir humano. Este juízo
normalmente permanece selado, porque intrínseco à realidade, porque
está na “lógica das coisas”.
v. 21 Quero descer para
ver… Os juízes, nos processos que incluem a pena capital, não podem
emitir o veredicto sem terem tomado primeiro uma visão pessoal dos
factos. Neste caso específico, Deus deve ver se não há um só
inocente em Sodoma.
vv. 23-33 O princípio que
rege a narrativa é o de submeter ao juízo de Deus todo o povo de
Sodoma e Gomorra, contando com o testemunho dos justos e a força
redentora do bem. O Senhor tinha dito (v.18): nele (Abraão)
serão abençoadas todas as nações da terra. Por isso, Abraão,
mostrando-se solidário com o seu clã e com a humanidade, quer tentar
uma operação de intercessão junto de Deus. Abraão sabe que existe
uma inimizade radical entre Deus e o pecado, Deus não o aceita e
quer eliminá-lo (Sl 74/75), Abraão tenta dissuadir a recta justiça
de Deus. Abraão não sabe que em Sodoma não há nem um justo, o que
torna impossível o irromper da graça do perdão.
v. 23 Na verdade
exterminarás o justo com o ímpio? É uma clara recusa da punição
colectiva, cada pessoa deve ser punida apenas como mereça (Ez
18,19-20).
v. 26 Se em Sodoma
encontrar cinquenta justos… perdoarei a toda a cidade. Deus está
disposto a mudar o seu veredicto em nome de um pequeno “resto” que
permaneça fiel.
Em
Deus existe a preponderância da vontade de salvar sobre a
vontade de punir.
Um pequeno remanescente de justos,
queridos por Deus, que leva avante a história da salvação, não
obstante a maldade preponderante, é um tema recorrente em toda a
Bíblia . Is 1,7-9 e 10, 20-23; Esd 9,6-9;
Bar 2,29-35; Zc 8,10-12.
Abraão negociava com Deus, como
costumavam fazer os Beduínos, tentará até dez justos. Está-se
preparando assim a estrada que levará à convicção que um só justo
poderá salvar a humanidade (Jr 5,1; Ez 22, 29-31). Isaías
descrevê-lo-á (53,2-6) e Cristo será esse justo (Act 3,14;
22,14).
v. 27 Eu que sou pó e
cinza... Abraão reconhece não ter nenhum direito de negociar com
Deus.
A prece de Abraão
distingue-se pela insistência, a humildade e a confiança.
Três características que o crente
deve ter presentes em cada oração. Seis vezes intercede Abraão sem
parar. Disto se recordará Jesus (Lc 11,5-8; 18,1-8).
Na tradição hebraica diz-se que a
intercessão é como um tridente na mão do crente, que faz deslocar
Deus do trono da justiça para se sentar no trono da misericórdia.