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  Deus Salva o Sobrinho de Abraão
 
Génesis c.19, 1-29
 

Nicoletta Crosti

 

O tema da visita do Senhor no relato do capítulo 18 repete-se aqui no capítulo 19, mas com um resultado bem diverso. O relato é retirado de uma lenda antiga, relacionada com a recordação de um cataclismo que realmente aconteceu e que se torna num acontecimento significativo da história da salvação e de forma específica da história de Abraão e Lot.

O acontecimento relatado tornar-se-á arquétipo do julgamento divino sobre o mal moral que a santidade de Deus não pode aceitar e que se empenha em eliminar. A língua semítica é sempre muito concreta, de modo que o mal é aqui personificado nos habitantes de Sodoma que abusaram sexualmente. Este relato será retomado, mais vezes, na Bíblia para mostrar as consequências que derivam do abandono dos caminhos do Senhor, isto é, dos compromissos da Aliança. (Dt 29,21-27; Is 1,8-17; Jr 50,38-40; Ez 16, 46-50; Am 4,10-12; Lam 4,3-8; Lc 17,26-33; II Pe 2,4-10).

É a mesma iniquidade que leva os malvados à ruína e é claro que Deus não se compraz com a morte deles. (Ez 18,23).

Convertei-vos e desisti de toda a vossa iniquidade, e a iniquidade não mais será causa da vossa ruína (Ez 18,30).

vv.1-3 A atitude de acolhimento de Lot é paralela à de Abraão e, tal como este, vai ao seu encontro, insiste , faz com que lhes lavem os pés e prepara um banquete.

vv. 4-5 Todos os que estão… fá-los sair, para que possamos abusá-los. A cena muda de repente, vem-se a saber quem são os habitantes de Sodoma. Trata-se de um exagero deliberado, para dizer que toda a cidade era culpada e perversa, os justos estavam completamente ausentes. Na terra de Canaan eram generalizadas as aberrações sexuais de vários tipos e os hebreus, que tinham costumes muito severos, ficaram escandalizados; de facto, o seu Deus não admitia essas aberrações (Lv 20,10-21 e Dt 23, 18-19).

vv. 6-7 Lot saiu… e disse: “Não, meus irmãos, não façam o mal!” Lot quer convencê-los porque os sente como irmãos mas sabe distinguir claramente entre o bem e o mal. O que querem fazer os habitantes é mal sob dois aspectos: pelo abuso sexual e pela violação da hospitalidade. A hospitalidade era um valor fundamental na ética do Próximo Oriente.

vv 8-9 Eu tenho duas filhas... levai-as! O procedimento de Lot é aqui, explicitamente, significativo; não encontra uma saída digna, não tem a coragem de estar ao lado do bem e encontra uma solução que, embora se julgasse bastante normal naquele tempo (os filhos eram propriedade dos pais e os hóspedes eram mais sagrados do que os filhos), era lamentável porque era uma solução de compromisso. De facto, Lot falhou.

vv. 10-11 Os mensageiros celestes revelam-se potentíssimos contra o mal e salvadores. Por outro lado, com este gesto querem agradecer a Lot que os tinha protegido enquanto hóspedes.

vv. 12-13 Aqueles homens disseram… Quem mais tens agora aqui?… Fá-los sair daqui… porque vamos destruir este lugar. Os mensageiros revelam-se: foram enviados por Adonai em pessoa, justo juiz, para destruir a cidade que quer permanecer pecadora. O autor sugere: é bom que o crente se lembre nas suas escolhas, que o pecado leva à morte (Dt 30,15-20).

Eu pus diante de ti a vida e a morte... escolhe então a vida... amando o Senhor... escutando a sua voz... porque ele é a tua vida (Dt 19-20).

v.14 Lot acredita nos mensageiros e faz o que eles disseram, mas nada consegue. Os seus genros são descritos como estando fechados ao chamamento de Deus; tornaram-se como os habitantes de Sodoma.

vv. 15-16 Lot demorava, mas aqueles homens pegaram-lhe na mão. Lot continua a fazer una figura lamentável. É indeciso, hesitante, não quer perder os bens que possui. Não percebe que está a ser objecto de um acto de misericórdia do Senhor ao qual deve responder com prontidão. Lot é salvo porque é sobrinho de Abraão por quem Deus dá a sua bênção a todos. (Gn 18,18).

vv. 17-22 Este diálogo entre Lot e Deus parece uma inclusão propositada para pôr em evidência o tratamento de favor que Adonai concede a Lot. Este não quer aceitar a vida simples e dura dos nómadas como Abraão, quer antes a vida citadina, mais cómoda. O Senhor lho concederá.

O Deus da Justiça permanece sempre até chegar o Deus da misericórdia, que vem ao encontro das preces dos seus fiéis.

O autor continua a apresentar Lot como uma figura medíocre, que não vive uma fé autêntica, mas antes que continua influenciado pela mentalidade do mundo e vive em ambiguidade. Para ele vale tudo quanto é dito em Ap 3,15-16: tu não és frio nem quente. Se tu fosses frio ou quente! Mas porque és tépido… vou vomitar-te da minha boca.

vv. 24-25 O Senhor fez chover sobre Sodoma... enxofre e fogo... do céu. Provavelmente foi conservada a recordação de um cataclismo que aconteceu realmente. Pode-se pensar num desenvolvimento sísmico que ampliou o Mar Morto na zona e que depois a tornou fértil (veja-se a escolha desta terra por parte de Lot). Toda a zona é agora rica em jazidas de azoto e sulfatos.

v. 26 A mulher de Lot olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal. O autor usa a imagem da estátua de sal, porque este se formava facilmente na zona, causado pela evaporação do lago. A mulher de Lot deixou-se tomar pela nostalgia do passado, o que a bloqueia e não a deixa dar o passo decisivo para a conversão e a salvação. Podem aplicar-se a ela as palavras de Jesus: Quem pôs a mão no arado e depois volta atrás, não é digno do reino de Deus (Lc 9,62).

Pela teologia do narrador, o Deus de Israel é um deus que não pode deixar o mal impune e não pode entrar em compromisso com o mal. Por outro lado, no respeito pela liberdade do homem, Deus não pode salvar quem não quer ser salvo e persiste na imoralidade.

Para poder conservar a criação como espaço vital, a criatura deve seguir os caminhos de Deus, que são caminhos de vida.

   
 

Tradução: Ana Luísa Teixeira

   
 

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