Este capítulo foi
tardiamente inscrito no ciclo de Abraão, segundo a exegese
histórico-crítica e a análise narrativa. Era um relato muito querido
pelo grupo dos hebreus repatriados da Babilónia. Estes estavam
convictos de que a sua duríssima experiência do fim do reino de Judá,
do exílio e do retorno através do longo deserto arábico, teria
necessariamente adquirido um significado teológico, que devesse
estar expresso, não só na narração do Êxodo com todas as suas
provas, mas também no ciclo de Abraão, o patriarca, aceite até
pelas tradições daqueles que permaneceram na Palestina. Para indicar
uma tragédia para lá do pensável, usava-se, naquele tempo, a
expressão “a morte do filho único”. Por isso, a narrativa,
construída à volta da morte de um filho único e do tormento de
Abraão que vê cancelado o futuro contido na promessa, exprime o
sofrimento dos exilados depois da destruição de Israel no século VI
a.C. No primeiro pedido feito a Abraão no capítulo 12,1 do Génesis,
Deus pede-lhe que ele vá para além da segurança dos seus laços
familiares e do seu passado, para uma nova imagem de Deus e uma nova
terra e, neste último pedido de Gn 22,2, Deus exige a renúncia à
segurança do futuro através do filho; contem todo o caminho de fé de
Abraão e a expressão das exigências de uma fé radical, que consiste
em confiar só em Deus e nas suas promessas, na convicção de que Deus
providenciará. Foi exactamente esta a fé dos exilados na
Babilónia, que lá, sem rei e sem templo, amadureceram uma fé mais
liberta das contingências terrenas, das imagens redutoras de Deus e,
no entanto, capaz de continuar a acreditar nas suas promessas.
Veja-se Is. 43,14-21.
v. 1
Deus põe Abraão à prova… o narrador tem a preocupação de
esclarecer de imediato que Deus está desafiando a fé de Abraão,
coisa que Abraão não sabe. O leitor é assim advertido e não pode
pensar que Deus peça que sacrifique o próprio filho. A palavra
nasa’ (desafiar, pôr à prova) é a palavra típica do Êxodo (Ex
15, 23-25; 16,4; 20,20) retomada no Deuteronómio (8, 2.16;
13,2-5 ...), e em grego no N.T. (Lc 22,28; He 2,18; 4,15).
“Eis-me aqui.”
É a palavra-chave do texto. Será repetida três vezes, duas
relativamente a Deus e uma ao filho Isaac. É o colocar-se ao serviço
do outro de forma incondicional, muito antes de saber o que
resultará disso. Abraão aparece aqui como o arquétipo do israelita
que verdadeiramente teme a Deus e se põe ao seu serviço, tema
que é caro ao Deuteronómio. (Dt 4,10; 6, 1-2 e 10-13;
10,12-22; 17,18-20) e que percorre toda a Bíblia.
Toma o teu
filho por favor… e vai… oferecê-lo em holocausto sobre um monte
que te indicarei. Esta solicitação de Deus escandaliza, porque
contradiz a nossa razão e até a promessa de Deus. Mas o autor
advertiu: Deus está a pôr à prova a fé de Abraão. Historicamente,
por erros políticos, Jerusalém foi destruída por Nabucodonosor e o
reino de Judá acabou para sempre, e foi uma tragédia na época, mas
não foi o fim. Jerusalém foi depois reconstruída, sem rei, mas
reunida à volta de um novo e simples templo (Ex. 3,1-13).
Deus pede que se experimente a morte para dar uma vida maior.
Há afinidade entre
este versículo e o do Génesis, 12,1; sublinha-se, em ambos, a
intensidade do laço que se deve quebrar para obedecer a Deus, e
sugere-se, vagamente, o ponto final do caminho (que eu te
indicarei ). Nesta frase é projectada a experiência de todas as
vocações e de todos os êxodos.
v. 2
Abraão… põe-se a caminho. Abraão escuta com o coração e, então,
põe em prática a palavra de Deus. O narrador não nos dá a conhecer
os sentimentos de Abraão. É sua prerrogativa proceder em silêncio,
porque o drama é vivido no seu íntimo.
v. 3 No
terceiro dia… viu aquele lugar. O terceiro dia é um tempo que
se repete várias vezes na história da salvação (Ex 19,11. 16; Os
6,2; Mt 20,19; At 10,40…).
v.5 Abraão
não quer olhares indiscretos enquanto experimenta o rosto misterioso
de Deus.
v. 6 Pai e
filho levam tudo quanto é necessário para o holocausto. O pai leva
dois instrumentos, os mais perigosos e importantes, a faca e o fogo.
E é repetido: prosseguiram ambos juntos. Pai e filho estão os
dois igualmente envolvidos na prova. Ambos devem viver a sua
obediência a Deus. Abraão deve renunciar à sua paternidade, ao seu
futuro. Isaac deve estar preparado para perder a vida. Jesus, o
Verbo dirá: quem quiser salvar a vida perdê-la-á e quem a perder
por minha causa salvá-la-á. (Lc 9,24). Veja-se Ap 12,11.
v. 7-8
Meu Pai… eis-me aqui… o próprio Deus fornecerá o cordeiro.
Abraão diz ao filho a frase crucial que deve acompanhar todos os
crentes em provação. De facto Deus está aí presente e
onde Deus
trabalha há sempre um futuro aberto
vv. 9-10
Abraão construiu o altar... ligou o seu filho Isaac... estendeu a
mão e pegou na faca... Abraão caminhou por três dias ao lado do
filho, teve tempo para se conformar à vontade de Deus e agora está
pronto a demonstrar-lhe que o ama acima de tudo, mesmo acima do
filho, não obstante a via obscura para onde o está levando. Este é o
verdadeiro temor a Deus.
vv. 11-12 Mas
o anjo do Senhor... disse-lhe... não estendas a mão contra o menino… agora sei que és temente a Deus. Agora, Abraão sabe que passou
uma prova, que Deus não quer sacrifícios humanos e que as promessas
de Deus não podem ser reduzidas aos interesses pessoais, mas
acolhidas na obediência. Isaac pertence a Deus e aos seus planos
misteriosos. Até os judeus retornados a Jerusalém compreenderam que
o exílio foi uma grande prova e só através da graça de Deus que lhes
enviou os profetas, não perderam a fé.
v. 13
Abraão… viu um carneiro… ofereceu-o em holocausto. Passando pela
prova, Abraão conhece um novo rosto de Deus e agora celebra o
holocausto; o rito que declara a paternidade de Deus sobre todas as
coisas. Fá-lo com um ânimo novo e não só por estar grato por ter
recebido o filho pela segunda vez, mas grato, sobretudo, por ter
compreendido o que é o temor a Deus, que reclama a
misericórdia divina, como o que recorda Maria no seu Magnificat (Lc
1, 50).
Toda a prova vivida na
confiança em Deus
produz uma profunda
conversão do próprio íntimo.
v. 16-18
Por Mim te juro… porque tu não me recusaste o teu filho... serão
abençoadas todas as nações da terra... porque escutaste a minha voz.
Adonai faz promessa da sua bênção para todas as nações porque Abraão
obedeceu (Gn 26,4-5). Está aqui assim declarado o estreito laço
entre a obediência à Palavra e a promessa. A obediência de Abraão é
o fundamento sobre o qual se baseia o futuro de Israel e de todos os
povos.
O cumprimento da Palavra é a condição preliminar para a
realização das promessas.
Por isso, o mundo
da ressurreição, a promessa por excelência, só poderá integrar a
História [(da salvação)] quando houver um homem, Jesus Cristo, capaz
de viver de maneira perfeita a obediência e a confiança em Deus Pai.