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Fevereiro - 2008

 

A Tua Palavra Ilumina os Meus Passos

 

Êxodo

Não cometerás adultério

   

Êxodo 20, 14

   
Autora: Nicoletta Crosti
 

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O verbo utilizado, na’af, tem um significado mais amplo do que a mera traição da fidelidade conjugal; compreende uma adulteração do comportamento do homem e da mulher nas suas relações com os outros. Porém, no contexto das dez palavras, o verbo refere-se especificamente às relações conjugais.
A mentalidade patriarcal/machista da época considerava o homem como o senhor, (ba’al), do casal e da família. Por isso, o homem cometia adultério somente tendo relações com mulheres casadas e para com o marido da mulher envolvida. A esposa era de facto vista como um objecto, propriedade do seu marido, e, assim, existindo relações sexuais de outro homem com ela eram violados os direitos de propriedade do homem com o qual a mulher estava casada.
A mulher, por seu lado, era adúltera só em relação ao próprio marido. Era vista primariamente como aquela que gera os filhos e, ao casar-se, comprometia-se a manter-se dentro da ordem de filiação do marido.
Ter uma relação sexual com uma mulher solteira não implicava adultério, quer porque não havia nenhum marido envolvido, quer porque o homem não era considerado adúltero em relação à sua esposa. Será Jesus que vem afirmar a paridade entre marido e mulher e a considerá-los adúlteros em igual medida, quando traem o próprio parceiro (Mc. 10, 11-12; Mt. 5, 32; Lc. 16, 18).
Em Israel eram os pais dos noivos que decidiam e geriam o casamento. Através do contrato de casamento, os pais passavam o seu património aos filhos e estabeleciam alianças com base em interesses económicos ou políticos.
A poligamia foi permitida pelos judeus até ao século XI, enquanto que na tradição sefardita foi permitida até mais tarde, ou seja, até ao séc. XVI
A Bíblia enfatiza a necessidade de fidelidade absoluta na relação conjugal, uma fidelidade que é intrínseca à própria criação da sexualidade.

“o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher e os dois serão uma só carne.” (Gn. 2, 24) “Aquilo, pois, que Deus uniu não o separe o homem” (Mt. 19, 6; Mc. 10, 6-9).

Quebrar a fidelidade é o “tão grande pecado” do Gn. 20, 9 (Gn. 39, 7-10; Lv. 18, 20). Corresponde a quebrar a aliança (Prov. 2, 16-17). É o grande pecado do rei David, visto como pecado contra o próprio Deus (2° Sam. 12, 1-14).
A infidelidade conjugal é punida com a morte (Lv. 20, 10), mesmo no caso de uma noiva prometida (Dt. 22, 23-29). Isto explica a perturbação de Maria de Nazaré aquando da anunciação do anjo.
O tema do amor privilegiado de Deus pelo seu povo, que se expressa na aliança e que se torna um amor esponsal para com os profetas, afirma-se como modelo do amor conjugal humano, um amor fiel para sempre.
O povo de Israel, visto como a esposa de Adonai, é muitas vezes apresentado como adúltero para com Deus, quando venera outros deuses e exerce a nigromância ou outras práticas semelhantes (Jer. 5, 7-11; Ez. 16, 15-43; 23, 36-45; Lv. 20, 1-6 e 27; Dt. 18, 9-14).
Os livros sapienciais vêem o adúltero como um homem sem sabedoria (Prov. 6, 32-35; 7, 4-27), “Quem comete adultério é um insensato” Prov. 6, 32.

Na tradição hebraica

Na tradição hebraica o sétimo mandamento é associado ao segundo: “Não terás outros deuses para além de mim...”.
Segundo Rashi, os “outros deuses” são aqueles que não respondem quando os invocamos, ou seja, que se comportam como estranhos. O termo responder (do latim re-spondere=prometer) evoca a ideia de responsabilidade. Só Adonai é aquele que responde à invocação que lhe é dirigida e se sente responsável para com os homens.
Se os “outros deuses” são aqueles que não respondem, então o adultério deve ser relacionado com uma não-resposta, uma ausência de comunicação e, portanto, uma ausência de “responsabilidade”. Se o silêncio e a não-resposta prevalecem na relação entre marido e mulher, então estes acabarão por se tornarem alheios um ao outro e por perder qualquer tipo de “responsabilidade”.

O adultério encontra-se sempre rodeado por um silêncio espesso, semelhante ao silêncio que prepara um homicídio.

No adultério experimenta-se só o prazer; falta completamente a responsabilidade relacionada com uma eventual filiação. Mas a Torah propõe um princípio de vida que se coloca na ordem da transmissão e da filiação e por isso

viver quer dizer transmitir a vida, não só biológica mas também social e religiosa

e as leis que regulamentam as relações sexuais (Lv. capitulo 18) são dadas para que se permaneça dentro deste princípio bíblico.
O sétimo mandamento preocupa-se com a eliminação do risco de nascimentos ilegítimos, ou seja com as consequências que o adultério comporta na medida em que gera um filho ilegítimo o qual, na sociedade hebraica, não terá qualquer valor e será considerado uma planta sem raízes e, portanto, incapaz de dar frutos (Sab. 3, 16-19; 4, 3-6; Ecli. 23, 22-26).
Por isso, em Lv. 18, 20, lê-se “não te unirás com a mulher do teu próximo; ficarias impuro” porque esse acto transmitiria a vida mas com uma filiação da qual é impossível assumir a responsabilidade, dado que não é reconhecida pelo pai, pelo que “puni as suas iniquidades e a terra vomitou os seus habitantes...” (Lv. 18, 25). Há portanto uma clara correspondência entre o homem e a terra: se o homem não respeita a vida e a sua transmissão, então também a terra não produzirá vida.
Em Dt. 23, 3 é dito que o filho ilegítimo, chamado mamzer (=aquele que vem do astro) não pode vir a ter parte na assembleia de Deus. Também a sua descendência é excluída do povo de Adonai. O filho adulterino nunca será inserido na ordem de filiação porque nunca ouvirá a história do seu próprio nascimento, que ele não pode contar a si próprio, e este “não-dito” há-de pesar sobre o seu futuro. Ele é totalmente judeu mas, embora pertença à comunidade, não se pode casar no seio desta.

   

Tradução: Andrea Rigatto

     
   

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