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Fevereiro - 2009

 

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Génesis

OS PATRIARCAS NA HISTÓRIA DE ISRAEL
Génesis, capítulos 12-36

   
Autora: Nicoletta Crosti
 

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O início da história de Israel remonta aos Patriarcas , isto é, os Pais da pátria (Abraão, Isaac, Jacob), que viveram por volta do século XIX [1850] a.C. As tradições orais, que têm como referentes os Patriarcas, foram registadas por autores sagrados em diversos contextos. Assim:
- Os teólogos da corte real de Jerusalém, no século X a.C., para apresentar a realeza davídica como o cumprimento da promessa de Deus feita aos pais da nação (tornaram grande o teu nome… in Gn 12,2, trecho paralelo a 2 Sm 7,9 e 11). Os autores usaram a técnica literária dita projecção retrospectiva; a qual consiste em fazer anunciar um acontecimento, conhecido pelos contemporâneos do autor, muito tempo antes da sua ocorrência.
- Os teólogos do reino do Norte (reino de Israel) no século. VIII a.C. para recordar a fidelidade e a benevolência do Deus da Aliança (2Re 13,22-25) para quem os hebreus se haveriam de voltar em tempo de idolatria e de corrupção. (Veja-se Am 2, 6-15).
- Os teólogos exilados na Babilónia (da classe sacerdotal), no século VI a.C., para revitalizar a fé dos hebreus deportados e estimulá-los a preparar o retorno a Jerusalém. Na tradição dos Patriarcas, com efeito, a aliança e a posse da terra foram dadas aos Pais da Pátria enquanto dádiva perene (Gn 17, 1-8; Dn 3,34-36), sem pedir nada em troca, nem mesmo a fidelidade. Diferente será a situação no Sinai, onde o pacto da aliança exigirá a fidelidade ao mesmo pacto.
- Os teólogos de Jerusalém depois do exílio (século V-IV a.C.) reelaboraram a tradição patriarcal, conferindo-lhe um cariz orgânico e formando o ciclo dos Patriarcas, inscrito depois no livro do Génesis, e anteposto ao livro do Êxodo.

SERÃO OS RELATOS DOS PATRIARCAS HISTÓRIA VERDADEIRA?

Hoje, a História é uma verdadeira ciência, que se baseia em fontes fidedignas, o que não aconteceu na antiguidade. Naquele tempo, os autores não davam importância à exactidão cronológica ou à fidelidade das fontes, antes escreviam para revelar o sentido profundo da História. O significado, que está para além dos simples acontecimentos, e que no caso específico dos autores da Bíblia era a acção de Deus, o Senhor da História.

No médio oriente, antes da era comum, o mito e a História conviviam.

O mito exprime o real, mas de forma abstracta, relegando-o para um evento primordial já acontecido que se repete e que faz parte do mundo transcendente. O mito não é susceptível de se situar num tempo e num espaço precisos. Não foi assim com os hebreus, que se diferenciaram dos Cananeus e dos outros povos do Médio Oriente, porque não colocaram um mito no princípio da sua história, mas sim factos históricos, realizados por homens da sua própria estirpe. Estes factos foram apresentados segundo o estilo das narrativas que circulavam naquele tempo, como a história da salvação, onde um deus protector prometia aos chefes de um clã a bênção e a prosperidade.
Podemos dizer que as narrativas dos Patriarcas têm um núcleo histórico, no sentido contemporâneo do termo, revestido de uma teologia que quer transmitir uma mensagem importante para a fé e não se preocupa com as eventuais incongruências históricas. Assim, Abraão, Isaac e Jacob, chefes de clãs separados, aparecem de facto apresentados como parentes (pai, filho e neto) e as suas histórias foram fundidas numa única história da salvação.
Mas há outras incongruências: Abraão parte de cidades diferentes (Vd Gn12,4 e Gn15,7); faz-se menção aos Caldeus que ainda não existiam; fala-se dos Filisteus e Aramaicos que não estavam ainda juntos naquela zona e naquele tempo; a citação de Mambré é anacrónica porque, segundo a arqueologia, não existia ainda no tempo dos Patriarcas.

Os relatos dos Patriarcas não podem, pois, ser vistos como uma simples biografia dos antepassados de Israel, nem como uma crónica fiel da sua peregrinação, mas como relatos teológicos.
Por conseguinte, não pode admitir-se uma leitura fundamentalista dos relatos, uma leitura que os interprete literalmente. (Veja-se A Interpretação da Bíblia na Igreja, Comissão Pontifícia Bíblica, 1993). Nestas narrativas, há sempre um núcleo histórico distinto da reflexão teológica do autor, que quer revelar a identidade do Deus de Israel.

Os relatos dos Patriarcas são um modo pelo qual os autores sagrados manifestaram a sua fé na obra de Deus na própria História, confessando a soberania do Senhor sobre tudo quanto aconteceu, acontece e acontecerá.

   

Tradução: Ana Luísa Teixeira

   

   

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