Depois
de ter falado das promessas que Deus fez a Abraão, o autor sente a
necessidade de explicar por que é que os Ismaelitas, Beduínos
nómadas do deserto arábico, tendo também laços de sangue e de raça
com os hebreus, não entraram no âmbito das promessas.
Além
disso o autor insere a etiologia do santuário de Beer-Lacai-Roi
perto do poço de Isaac (Gn
25,11).
vv
1-2 São apresentadas três figuras: Abraão o chefe, Sara a sua
mulher estéril e Agar a escrava egípcia.
O
Senhor impediu-me de ter descendência. Segundo a mentalidade
bíblica, só Deus pode conceder ou retirar a vida, a fecundação não é
apenas um facto biológico (Gn 33,5 e Sl 127,3). Sara é
apresentada como estéril, porque a descendência de Abraão deve ser
fruto de uma intervenção miraculosa de Deus. Será assim para Rebeca
(Gn 25,21) e para Raquel (Gn 30,1).
Abraão escutou. Mas fica passivo e não ajuda a mulher a esperar
pela promessa.
Esta atitude desencadeará uma série de violências. De facto, Abraão
comporta-se como Adão: Sara oferece-lhe a maçã do pecado e Abraão
come-a.
Não seguir
a via do Senhor, mas os próprios desejos, conduz à infelicidade.
v. 3
Sara… tomou Agar … e deu-a como mulher a Abraão seu marido.
Sara vive a sua esterilidade como uma culpa, que a humilha, e
procura remédio para ela segundo o costume do tempo. No caso de
esterilidade da mulher legítima, o código de Hamurábi (1700 a.C.)
determinava que num contexto monogâmico, como o dos babilónicos, a
mulher poderia oferecer ao marido uma escrava.
A
escrava dava à luz em cima dos joelhos da sua senhora e assim
também a criança, simbolicamente, nascia quase do próprio seio da
mulher legítima. (Gn 30,3¬9).
Sara não
sabe ser serva do projecto de Adonai, e não espera que seja o
próprio Deus a fazê-la sair da sua humilhação, segundo a figura do
servo de Isaías que se confia no Senhor (Is 49,1-7). Fá-lo-á
Maria de Nazaré aceitando a humilhação de ser tida como adúltera e
esperando em Deus a sua libertação.
v. 4
Olhou de alto a baixo a sua senhora. Sara é duplamente
humilhada, é uma consequência da sua desobediência aos planos de
Deus.
v. 5
A ofensa feita a mim diz-te respeito ... que o Senhor seja o juiz
entre ti e mim! É uma profunda e verdadeira querela com pedido
de sentença condenatória a fim de reparar a honra ferida.
Sublinha-se com veemência a situação de injustiça e pede-se que a
ofensa do direito seja reparada. Sara volta-se para o marido porque,
segundo o código de Hamurábi, no âmbito familiar é ao pai que cabe
restabelecer a justiça que foi infringida.
v. 6
Eis a tua escrava, sob o teu poder. Abraão abdica do seu
papel e não restabelece a justiça que dizia: a terra... não
poderá suportar... que uma escrava tome o lugar da senhora. (Pr
30,23). Mas, agindo assim, ele acrescenta mais um anel na cadeia das
violências.
Sara
então maltratou-a... Sara, com a autorização de Abraão, responde
à violência com a violência, e a escrava então responde com uma
outra violência, fugindo. Deve chegar o anjo para interromper este
círculo perverso de opressores e oprimidos.
v. 7
Encontrou-a o anjo do Senhor junto de uma nascente de água no
deserto.
Deus olha sempre os
oprimidos, está próximo deles e escuta-os.
O anjo
(em grego, aggelos ou seja mensageiro) é uma forma
através da qual Deus se manifesta, é a própria personificação da
ajuda que Deus estende ao seu povo. Por isso, nem sempre existe uma
distinção clara entre o anjo do Senhor e o próprio Senhor. (Gn
48,15-16; Es 13,21 retomado em Es 14,19).
v. 8
Agar, escrava de Sara, de onde vens e para onde vais? Agar é
chamada pelo nome, como nas teofanias. O diálogo entre Deus e o
crente nunca é genérico, mas referido a uma pessoa precisa, que é
chamada pelo nome e incluída num projecto que dará um significado
especial à sua vida. A pergunta do anjo tem a finalidade de tornar
Agar consciente de que, como escrava, está fora do seu lugar. É a
mesma pergunta de Deus a Adão (Gn 3,9): onde estás?.
Saber de onde se vem e para
onde se vai é saber de si, tudo o que conta .
Afastei-me da minha senhora Sara. Segundo o autor, esta situação
é nociva, como aquela do filho que se afasta do pai (Lc 15,11-24).
v. 9
disse-lhe o anjo do Senhor: retorna... e permanece submissa.
Adonai não admite a violação de um direito. Agar deve permanecer
junto da sua senhora, aceitando a humilhação/submissão, quiçá a
prova, enquanto o Senhor a queira. É sempre o tema do servo
humilhado que se repete em Sara e em Agar. Jesus recordá-lo-á
explicitamente: quem quiser vir ao meu encontro que pegue na sua
cruz de todos os dias e siga-me (Lc 9, 23). O filho de Agar terá
um futuro na segurança da casa de Abraão, e não no deserto.
v.
10-11 multiplicarei a tua descendência... chamá-lo-ás
Ismael... porque o Senhor escutou a tua aflição. A bênção de
Abraão, como predito no capítulo 12,3, chegará até Ismael, seu
filho. Deus, que é sempre misericordioso (Sl 145/144), vem em
auxílio de Agar, e concede-lhe uma bênção futura, em troca da sua
submissão a Sara.
A obediência aos projectos
de Deus traz sempre uma inesperada plenitude.
O nome
Ismael significa Deus escutou. Deus escutou de facto a
aflição de Agar, a egípcia, mesmo idólatra, mesmo não pertencendo ao
seu povo, mesmo culpada.
vv.
11-12 Estes versículos exprimem o género literário dito o do
anúncio do nascimento de um herói, nos seus quatro elementos
típicos: 1. Aparição divina; 2. Predição do
nascimento; 3. Um nome de augúrio; 4. Predição do
futuro da criança. Veja-se Sansão (Gd 13, 2-7; 24-25),
Emanuel (Is 7, 10-15), João Baptista (Lc 1, 5-23).
v.
13-14 A tradução literal diz: aqui mesmo vi depois de quem me
vê. Agar tem a consciência que Deus vê sempre primeiro o homem
antes que este se aperceba dele. Por isso é que o nome do poço será
Lacai-Roi, o do vivente que me vê.
v. 15
Agar recebe o direito de paternidade, dará origem como Abraão a um
povo (Gn 21,13) que não possuirá terra e segundo o desígnio de Deus
permanecerá semi-nómada no deserto, mas será um povo apreciado pelos
israelitas pela seu orgulho e capacidade de permanecer livre. Os
muçulmanos vêem em Ismael o seu referente.