© "Via sacra"  Bill Ross
 

Novembro - 2009

 

A Tua Palavra Ilumina os Meus Passos

 

Génesis

Abraão e Sara não sabem confiar
nos tempos de Deus
Génesis c.16
   
Autora: Nicoletta Crosti
 

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Depois de ter falado das promessas que Deus fez a Abraão, o autor sente a necessidade de explicar por que é que os Ismaelitas, Beduínos nómadas do deserto arábico, tendo também laços de sangue e de raça com os hebreus, não entraram no âmbito das promessas.

Além disso o autor insere a etiologia do santuário de Beer-Lacai-Roi perto do poço de Isaac        (Gn 25,11).

vv 1-2 São apresentadas três figuras: Abraão o chefe, Sara a sua mulher estéril e Agar a escrava egípcia.

O Senhor impediu-me de ter descendência. Segundo a mentalidade bíblica, só Deus pode conceder ou retirar a vida, a fecundação não é apenas um facto biológico (Gn 33,5 e Sl 127,3). Sara é apresentada como estéril, porque a descendência de Abraão deve ser fruto de uma intervenção miraculosa de Deus. Será assim para Rebeca (Gn 25,21) e para Raquel (Gn 30,1).

Abraão escutou. Mas fica passivo e não ajuda a mulher a esperar pela promessa.
Esta atitude desencadeará uma série de violências. De facto, Abraão comporta-se como Adão: Sara oferece-lhe a maçã do pecado e Abraão come-a.

Não seguir a via do Senhor, mas os próprios desejos, conduz à infelicidade.

v. 3 Sara… tomou Agar … e deu-a como mulher a Abraão seu marido. Sara vive a sua esterilidade como uma culpa, que a humilha, e procura remédio para ela segundo o costume do tempo. No caso de esterilidade da mulher legítima, o código de Hamurábi (1700 a.C.) determinava que num contexto monogâmico, como o dos babilónicos, a mulher poderia oferecer ao marido uma escrava.

A escrava dava à luz em cima dos joelhos da sua senhora e assim também a criança, simbolicamente, nascia quase do próprio seio da mulher legítima. (Gn 30,3¬9).

Sara não sabe ser serva do projecto de Adonai, e não espera que seja o próprio Deus a fazê-la sair da sua humilhação, segundo a figura do servo de Isaías que se confia no Senhor (Is 49,1-7). Fá-lo-á Maria de Nazaré aceitando a humilhação de ser tida como adúltera e esperando em Deus a sua libertação.

v. 4 Olhou de alto a baixo a sua senhora. Sara é duplamente humilhada, é uma consequência da sua desobediência aos planos de Deus.

v. 5 A ofensa feita a mim diz-te respeito ... que o Senhor seja o juiz entre ti e mim! É uma profunda e verdadeira querela com pedido de sentença condenatória a fim de reparar a honra ferida. Sublinha-se com veemência a situação de injustiça e pede-se que a ofensa do direito seja reparada. Sara volta-se para o marido porque, segundo o código de Hamurábi, no âmbito familiar é ao pai que cabe restabelecer a justiça que foi infringida.

v. 6 Eis a tua escrava, sob o teu poder. Abraão abdica do seu papel e não restabelece a justiça que dizia: a terra... não poderá suportar... que uma escrava tome o lugar da senhora. (Pr 30,23). Mas, agindo assim, ele acrescenta mais um anel na cadeia das violências.

Sara então maltratou-a... Sara, com a autorização de Abraão, responde à violência com a violência, e a escrava então responde com uma outra violência, fugindo. Deve chegar o anjo para interromper este círculo perverso de opressores e oprimidos.

v. 7 Encontrou-a o anjo do Senhor junto de uma nascente de água no deserto.

Deus olha sempre os oprimidos, está próximo deles e escuta-os.

O anjo (em grego, aggelos ou seja mensageiro) é uma forma através da qual Deus se manifesta, é a própria personificação da ajuda que Deus estende ao seu povo. Por isso, nem sempre existe uma distinção clara entre o anjo do Senhor e o próprio Senhor. (Gn 48,15-16; Es 13,21 retomado em Es 14,19).

v. 8 Agar, escrava de Sara, de onde vens e para onde vais? Agar é chamada pelo nome, como nas teofanias. O diálogo entre Deus e o crente nunca é genérico, mas referido a uma pessoa precisa, que é chamada pelo nome e incluída num projecto que dará um significado especial à sua vida. A pergunta do anjo tem a finalidade de tornar Agar consciente de que, como escrava, está fora do seu lugar. É a mesma pergunta de Deus a Adão (Gn 3,9): onde estás?.

Saber de onde se vem e para onde se vai é saber de si, tudo o que conta .

Afastei-me da minha senhora Sara. Segundo o autor, esta situação é nociva, como aquela do filho que se afasta do pai (Lc 15,11-24).

v. 9 disse-lhe o anjo do Senhor: retorna... e permanece submissa. Adonai não admite a violação de um direito. Agar deve permanecer junto da sua senhora, aceitando a humilhação/submissão, quiçá a prova, enquanto o Senhor a queira. É sempre o tema do servo humilhado que se repete em Sara e em Agar. Jesus recordá-lo-á explicitamente: quem quiser vir ao meu encontro que pegue na sua cruz de todos os dias e siga-me (Lc 9, 23). O filho de Agar terá um futuro na segurança da casa de Abraão, e não no deserto.

v. 10-11 multiplicarei a tua descendência... chamá-lo-ás Ismael... porque o Senhor escutou a tua aflição. A bênção de Abraão, como predito no capítulo 12,3, chegará até Ismael, seu filho. Deus, que é sempre misericordioso (Sl 145/144), vem em auxílio de Agar, e concede-lhe uma bênção futura, em troca da sua submissão a Sara.

A obediência aos projectos de Deus traz sempre uma inesperada plenitude.

O nome Ismael significa Deus escutou. Deus escutou de facto a aflição de Agar, a egípcia, mesmo idólatra, mesmo não pertencendo ao seu povo, mesmo culpada.

vv. 11-12 Estes versículos exprimem o género literário dito o do anúncio do nascimento de um herói, nos seus quatro elementos típicos: 1. Aparição divina; 2. Predição do nascimento; 3. Um nome de augúrio; 4. Predição do futuro da criança. Veja-se Sansão (Gd 13, 2-7; 24-25), Emanuel (Is 7, 10-15), João Baptista (Lc 1, 5-23).

v. 13-14 A tradução literal diz: aqui mesmo vi depois de quem me vê. Agar tem a consciência que Deus vê sempre primeiro o homem antes que este se aperceba dele. Por isso é que o nome do poço será Lacai-Roi, o do vivente que me vê.

v. 15 Agar recebe o direito de paternidade, dará origem como Abraão a um povo (Gn 21,13) que não possuirá terra e segundo o desígnio de Deus permanecerá semi-nómada no deserto, mas será um povo apreciado pelos israelitas pela seu orgulho e capacidade de permanecer livre. Os muçulmanos vêem em Ismael o seu referente.

   

Tradução: Ana Luísa Teixeira

   

   

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