© "Via sacra"  Bill Ross
 

Julho / Agosto - 2010

 

A Tua Palavra Ilumina os Meus Passos

 

Génesis

ADONAI PEDE PARA SER AMADO SEMPRE
E EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS
Génesis 22, 1-19 [ Parte I ]
   
Autora: Nicoletta Crosti
 

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Este capítulo foi tardiamente inscrito no ciclo de Abraão, segundo a exegese histórico-crítica e a análise narrativa. Era um relato muito querido pelo grupo dos hebreus repatriados da Babilónia. Estes estavam convictos de que a sua duríssima experiência do fim do reino de Judá, do exílio e do retorno através do longo deserto arábico, teria necessariamente adquirido um significado teológico, que devesse estar expresso, não só na narração do Êxodo com todas as suas provas, mas também no ciclo de Abraão, o patriarca, aceite até pelas tradições daqueles que permaneceram na Palestina. Para indicar uma tragédia para lá do pensável, usava-se, naquele tempo, a expressão “a morte do filho único”. Por isso, a narrativa, construída à volta da morte de um filho único e do tormento de Abraão que vê cancelado o futuro contido na promessa, exprime o sofrimento dos exilados depois da destruição de Israel no século VI a.C.  No primeiro pedido feito a Abraão no capítulo 12,1 do Génesis, Deus pede-lhe que ele vá para além da segurança dos seus laços familiares e do seu passado, para uma nova imagem de Deus e uma nova terra e, neste último pedido de Gn 22,2, Deus exige a renúncia à segurança do futuro através do filho; contem todo o caminho de fé de Abraão e a expressão das exigências de uma fé radical, que consiste em confiar só em Deus e nas suas promessas, na convicção de que Deus providenciará. Foi exactamente esta a fé dos exilados na Babilónia, que lá, sem rei e sem templo, amadureceram uma fé mais liberta das contingências terrenas, das imagens redutoras de Deus e, no entanto, capaz de continuar a acreditar nas suas promessas. Veja-se Is. 43,14-21.

v. 1 Deus põe Abraão à prova… o narrador tem a preocupação de esclarecer de imediato que Deus está desafiando a fé de Abraão, coisa que Abraão não sabe. O leitor é assim advertido e não pode pensar que Deus peça que sacrifique o próprio filho. A palavra nasa’ (desafiar, pôr à prova) é a palavra típica do Êxodo (Ex 15, 23-25; 16,4; 20,20) retomada no Deuteronómio(8, 2.16; 13,2-5 ...)e em grego no N.T. (Lc 22,28; He 2,18; 4,15).

“Eis-me aqui.”  É a palavra-chave do texto . Será repetida três vezes, duas relativamente a Deus e uma ao filho Isaac. É o colocar-se ao serviço do outro de forma incondicional, muito antes de saber o que resultará disso. Abraão aparece aqui como o arquétipo do israelita que verdadeiramente teme a Deus e se põe ao seu serviço, tema que é caro ao Deuteronómio. (Dt 4,10; 6, 1-2 e 10-13; 10,12-22; 17,18-20) e que percorre toda a Bíblia.

Toma o teu filho por favor… e vai… oferecê-lo em holocausto sobre um monte que te indicarei.  Esta solicitação de Deus escandaliza, porque contradiz a nossa razão e até a promessa de Deus. Mas o autor advertiu: Deus está a pôr à prova a fé de Abraão. Historicamente, por erros políticos, Jerusalém foi destruída por Nabucodonosor e o reino de Judá acabou para sempre, e foi uma tragédia na época, mas não foi o fim. Jerusalém foi depois reconstruída, sem rei, mas reunida à volta de um novo e simples templo (Ex. 3,1-13).

Deus pede que se experimente a morte para dar uma vida maior.

Há afinidade entre este versículo e o do Génesis, 12,1; sublinha-se, em ambos, a intensidade do laço que se deve quebrar para obedecer a Deus, e sugere-se, vagamente,  o ponto final do caminho (que eu te indicarei). Nesta frase é projectada a experiência de todas as vocações e de todos os êxodos.

v. 2 Abraão… põe-se a caminho. Abraão escuta com o coração e, então, põe em prática a palavra de Deus. O narrador não nos dá a conhecer os sentimentos de Abraão. É sua prerrogativa proceder em silêncio, porque o drama é vivido no seu íntimo.

v. 3 No terceiro dia… viu aquele lugar. O terceiro dia é um tempo que se repete várias vezes na história da salvação (Ex 19,11. 16; Os 6,2; Mt 20,19; At 10,40…).

v.5 Abraão não quer olhares indiscretos enquanto experimenta o rosto misterioso de Deus.

v. 6 Pai e filho levam tudo quanto é necessário para o holocausto. O pai leva dois instrumentos, os mais perigosos e importantes, a faca e o fogo. E é repetido: prosseguiram ambos juntos. Pai e filho estão os dois igualmente envolvidos na prova. Ambos devem viver a sua obediência a Deus. Abraão deve renunciar à sua paternidade, ao seu futuro. Isaac deve estar preparado para perder a vida. Jesus, o Verbo dirá: quem quiser salvar a vida perdê-la-á e quem a perder por minha causa salvá-la-á.  (Lc 9,24). Veja-se  Ap 12,11.

v. 7-8 Meu Pai… eis-me aqui… o próprio Deus fornecerá o cordeiro. Abraão diz ao filho a frase crucial que deve acompanhar todos os crentes em provação. De facto Deus está aí presente e

onde Deus trabalha há sempre um futuro aberto

vv. 9-10 Abraão construiu o altar... ligou o seu filho Isaac... estendeu a mão e pegou na faca... Abraão caminhou por três dias ao lado do filho, teve tempo para se conformar à vontade de Deus e agora está pronto a demonstrar-lhe que o ama acima de tudo,  mesmo acima do filho, não obstante a via obscura para onde o está levando. Este é o verdadeiro temor a Deus.

vv. 11-12  Mas o anjo do Senhor... disse-lhe... não estendas a mão contra o menino… agora sei que és temente a Deus. Agora, Abraão sabe que passou uma prova, que Deus não quer sacrifícios humanos e que as promessas de Deus não podem ser reduzidas aos interesses pessoais, mas acolhidas na obediência. Isaac pertence a Deus e aos seus planos misteriosos. Até  os judeus retornados a Jerusalém compreenderam que o exílio foi uma grande prova e só através da graça de Deus que lhes enviou os profetas, não perderam a fé.

  v. 13 Abraão… viu um carneiro… ofereceu-o em holocausto. Passando pela prova, Abraão conhece um novo rosto de Deus e agora celebra o holocausto; o rito que declara a paternidade de Deus sobre todas as coisas. Fá-lo com um ânimo novo e não só por estar grato por ter recebido o filho pela segunda vez, mas grato, sobretudo, por ter compreendido o que é o temor a Deus, que reclama a misericórdia divina, como o que recorda  Maria no seu Magnificat (Lc 1, 50).

Toda a prova vivida na confiança em Deus
 produz uma profunda conversão do próprio íntimo.

v. 16-18 Por Mim te juro… porque tu não me recusaste o teu filho... serão abençoadas todas as nações da terra... porque escutaste a minha voz. Adonai faz promessa da sua bênção para todas as nações porque Abraão obedeceu  (Gn 26,4-5).  Está aqui assim declarado o estreito laço entre a obediência à Palavra e a promessa. A obediência de Abraão é o fundamento sobre o qual se baseia o futuro de Israel e de todos os povos.

O cumprimento da Palavra é a condição preliminar para a realização das promessas.

Por isso, o mundo da ressurreição, a promessa por excelência, só poderá integrar a História [(da salvação)] quando houver um homem, Jesus Cristo, capaz de viver de maneira perfeita a obediência e a confiança em Deus Pai.

   

Tradução: Ana Luísa Teixeira

   

   

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