Antes
de enfrentar o futuro, o chamamento de Deus obriga Jacob a
confrontar-se com o seu passado, com as consequências das suas
atitudes deploráveis. É exactamente aquilo que fez Israel na
Babilónia, reconhecendo ter sido deportado por causa da sua
infidelidade e portanto voltando a Jerusalém de coração contrito e
decidido a recomeçar um capítulo novo da sua história. História
querida por Adonai a qual tomará forma concreta na Torah, escrita
exactamente depois do exílio.
Jacob
deve em concreto reconciliar-se com o irmão ao qual ele tinha
usurpado a progenitura. Por isso, para voltar ao pai, o patriarca
decide tomar o caminho mais curto, mas mais perigoso. O caminho que
passava através do território de Edom onde vivia o seu irmão Esaú
que o queria matar (Gn 27,41).
O
autor quer mostrar que
A história da salvação é uma história
de reconciliação
Que
acabará na reconciliação maior entre o céu e a terra, entre Deus e a
humanidade realizada no Filho, o Cristo (Rm 5,10; 2Cor 5,18).
vv. 2-3
Pelo caminho Jacob tem um encontro extraordinário; uns anjos de Deus
que se aproximaram, estando acampados ali perto, nessa zona. O
encontro tem um significado de encontro auspicioso (Sl 34/33,8).
Este relevo na história de Jacob relaciona-se com uma tradição
criada para explicar um topónimo Macanaim, (dual de mahaneh)
que significa acampamento. Por isso, o termo ‘acampamento’ será
repetido seis vezes nos primeiros versículos do capítulo. Este
lugar, não ainda identificado, será importante na história de Israel
no tempo de Saul no século XI a.C. (2Sm 2,8; 2Sm 17,24) e
tornar-se-á um distrito de Salomão no século seguinte (1Re 4,14).
v. 4
Jacob mandou á sua frente alguns mensageiros ao irmão Esaú … na
região de Edom. Jacob está para entrar em território do irmão e
percebe que deve agir com astúcia para reencontrar graça
junto dele (v.6) porque, mesmo tendo já passado vinte anos, a
ferida de Esaú estaria ainda aberta.
v. 5
Dizei ao meu senhor Esaú: o teu servo Jacob disse … Jacob não
se dirigirá mais a Esaú chamando-lhe irmão, mas apenas chamando-o
‘senhor’. Não quer ter uma atitude de superioridade, ainda mais
conhecendo quer a profecia segundo a qual ‘o mais velho servirá o
mais novo” (Gn 25,23) quer a bênção do pai (Gn 27,29). Jacob quer
permanecer humilde, declara-se servo do mais velho.
v. 6
Jacob admite ter
enriquecido e quer ser generoso com o irmão.
v.7
Esaú … vem ao seu encontro e traz com ele quatrocentos homens. Abraão
no máximo do seu poder tinha reunido 318 homens (Gn 14,14), o que
significa que Esaú se tinha tornado rico e poderoso. Isto soa como
ameaça para Jacob, que pensa encontrar pela frente um grande perigo.
vv. 8-9
Jacob … divide em dois acampamentos
a gente que estava com ele.
Jacob assusta-se
mesmo embora saiba que Deus está com ele, e procura enfrentar a
situação com bom senso.
v. 10
Inicia-se o ponto culminante da narrativa: a prece de Jacob.
Alguns exegetas consideram que este texto tardio,
isto é, acrescentado num segundo tempo, porque não se adapta à
profanidade deste capítulo, que não mais nomeia Deus directamente,
nem fala da sua vontade. Na narração tudo é deixado ao arbítrio das
personagens e da lei interna aos acontecimentos. A prece é
estruturada segundo um esquema típico das súplicas bíblicas, onde o
orante reconhece a grandeza de Deus, das suas promessas e das suas
escolhas e em nome das quais pede a salvação e a protecção,
recordando sempre a sua fragilidade e indignidade. (1Re
8,22-30; Dn 9, 15-19; Est 4, 17a-17h e 17l-17z;
Sl 143/142).
v. 10a.
Deus do meu pai Abraão …Vêm elencados os nomes e títulos de
Deus.
v. 10b
Eu farei com que tudo te corra bem - a promessa de protecção.
v. 11
eu sou indigno de toda a benevolência … agora tornei-me possuidor
de dois acampamentos. Vêm elencados os benefícios recebidos de
Adonai de quem, não obstante a sua indignidade, se sente apenas
servo.
v. 12
Salva-me das mãos do meu irmão Esaú … é o centro da súplica.
v. 13
Tornarei a tua descendência tão numerosa como os grãos de areia
da praia … é recordada a promessa de descendência que só
acontecerá se os seus filhos não forem mortos.;
vv.
14-16
Era
costume de cortesia levar presentes a uma pessoa de prestígio.
v. 17
Passai à minha frente e
deixem um certo espaço entre um rebanho e outro. Uma
vez mais Jacob serve-se da astúcia e dispõe à frente os presentes
que vai oferecer ao irmão de forma a criar um efeito ‘surpresa’,
fazendo o irmão acreditar que o dono tem uma dimensão reduzida.
Enquanto Esaú espera encontrar o irmão logo a seguir aos presentes,
outros presentes continuam a chegar.
Isto mostra duas coisas, que Jacob
se tornou rico e que Jacob é generoso.
vv.
18-20
Jacob pára para dizer aos servos as palavras que devem usar porque
quer sublinhar o facto de se sentir ‘servo’ do irmão a quem
considera ‘senhor’.
v. 21
Aplacarei o seu rosto com os presentes … então acolher-me-à com
benevolência. Jacob deseja reconciliar-se com o irmão e faz o
que pode para o conseguir. A continuação da narrativa no capítulo
seguinte demonstrará que a reconciliação acontecerá. De facto o
autor quer dizer que:
Deus acompanha com a sua bênção o
crente que caminha para o bem.