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Não sei se alguma vez foi fácil desenvolver e praticar a
virtude da esperança. Nos nossos tempos, certamente, não é.
O conhecimento que temos de nós próprias/os e das pessoas à nossa volta, dos
seus problemas e dificuldades, bem como as notícias que nos chegam sobre o
estado do mundo e o vasto cortejo de sofrimento que o habita conduzem-nos,
compreensivelmente, aos labirintos da dúvida do sentido e ao enfrentamento do
caminho estreito das possibilidades de uma outra situação que se nos afigure
melhor, quaisquer que sejam os critérios de que disponhamos para a aferir.
Na nossa sociedade, em particular, damo-nos conta de que vem crescendo um
perigoso desencanto colectivo, consequência de expectativas frustradas,
inseguranças e temores face ao futuro, passividade auto-imposta na construção da
mudança.
É, precisamente, no quadro deste tempo agónico, que mais importa fazer apelo à
esperança, procurando-a com afinco e determinação, acolhendo-a e fazendo-a
frutificar à nossa volta, valorizando-a como um precioso atributo do ser humano.
A esperança que o move em direcção ao futuro e lhe empresta, mesmo nas situações
mais dramáticas, um renovado vigor capaz de tornar todos os impossíveis
possíveis.
A esperança não é um sentimento vago, ocasional, pontual (hoje sim, amanhã não).
A esperança é, antes, uma postura de vida, um modo de olhar a realidade capaz de
perscrutar o que está para além dela, uma disponibilidade radical de acolhimento
da realidade em devir de par com uma cumplicidade de fazer acontecer o melhor.
A virtude natural da esperança há-de exprimir-se num certo posicionamento face
àquilo que nos é dado conhecer e viver e numa oportunidade de ir afeiçoando o
real segundo critérios de verdade, beleza e bem.
Sendo uma característica intrínseca do ser humano, a esperança não é, porém, uma
qualidade adquirida de uma vez por todas, é como um caminho que se vai
percorrendo e nos faz descobrir paisagens novas. Ou como um edifício que se vai
construindo, colocando pedra sobre pedra, no grande gozo de o ver crescer.
No limite, a esperança é uma sabedoria de vida, que convive com a utopia dos
horizontes largos e a concretude dos limites e fragilidades da condição humana,
numa saudável e fecunda dialética.
Para as discípulas e os discípulos de Jesus, a virtude da esperança alimenta-se,
em primeiro lugar, da Palavra de Deus e das promessas feitas por Deus ao seu
Povo, uma Palavra escutada e celebrada que ilumina situações e acontecimentos e
aponta caminhos de superação.
Em particular, o Povo crente alimenta a sua esperança na Aliança que Deus fez
com Israel e que, em Jesus Cristo, fez (faz) com toda a Humanidade.
A esta luz, a esperança cristã não é mera conquista humana, mas dom do Espírito
Santo que importa pedir, com fé, e acolher, com responsabilidade. |