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Meditar sobre a esperança

 

A esperança anuncia que vai visitar aquele lugar do futuro, que viaja nua, deixando caídas no chão as roupas que hoje estão na moda. Leva consigo apenas uma boa dose de optimismo e explica que os optimistas podem vir a se enganar mas os pessimistas já se enganaram no ponto de partida.
Rosiska Darcy de Oliveira, A Dama e o Unicórnio, (2000)

 

Não sei se alguma vez foi fácil desenvolver e praticar a virtude da esperança. Nos nossos tempos, certamente, não é.
O conhecimento que temos de nós próprias/os e das pessoas à nossa volta, dos seus problemas e dificuldades, bem como as notícias que nos chegam sobre o estado do mundo e o vasto cortejo de sofrimento que o habita conduzem-nos, compreensivelmente, aos labirintos da dúvida do sentido e ao enfrentamento do caminho estreito das possibilidades de uma outra situação que se nos afigure melhor, quaisquer que sejam os critérios de que disponhamos para a aferir.
Na nossa sociedade, em particular, damo-nos conta de que vem crescendo um perigoso desencanto colectivo, consequência de expectativas frustradas, inseguranças e temores face ao futuro, passividade auto-imposta na construção da mudança.
É, precisamente, no quadro deste tempo agónico, que mais importa fazer apelo à esperança, procurando-a com afinco e determinação, acolhendo-a e fazendo-a frutificar à nossa volta, valorizando-a como um precioso atributo do ser humano. A esperança que o move em direcção ao futuro e lhe empresta, mesmo nas situações mais dramáticas, um renovado vigor capaz de tornar todos os impossíveis possíveis.
A esperança não é um sentimento vago, ocasional, pontual (hoje sim, amanhã não). A esperança é, antes, uma postura de vida, um modo de olhar a realidade capaz de perscrutar o que está para além dela, uma disponibilidade radical de acolhimento da realidade em devir de par com uma cumplicidade de fazer acontecer o melhor.
A virtude natural da esperança há-de exprimir-se num certo posicionamento face àquilo que nos é dado conhecer e viver e numa oportunidade de ir afeiçoando o real segundo critérios de verdade, beleza e bem.
Sendo uma característica intrínseca do ser humano, a esperança não é, porém, uma qualidade adquirida de uma vez por todas, é como um caminho que se vai percorrendo e nos faz descobrir paisagens novas. Ou como um edifício que se vai construindo, colocando pedra sobre pedra, no grande gozo de o ver crescer.
No limite, a esperança é uma sabedoria de vida, que convive com a utopia dos horizontes largos e a concretude dos limites e fragilidades da condição humana, numa saudável e fecunda dialética.
Para as discípulas e os discípulos de Jesus, a virtude da esperança alimenta-se, em primeiro lugar, da Palavra de Deus e das promessas feitas por Deus ao seu Povo, uma Palavra escutada e celebrada que ilumina situações e acontecimentos e aponta caminhos de superação.
Em particular, o Povo crente alimenta a sua esperança na Aliança que Deus fez com Israel e que, em Jesus Cristo, fez (faz) com toda a Humanidade.
A esta luz, a esperança cristã não é mera conquista humana, mas dom do Espírito Santo que importa pedir, com fé, e acolher, com responsabilidade.

 

     Manuela Silva [ Novembro 2006 ]  

 

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