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O medo é um sentimento
intrínseco do ser humano. Reflexo, por certo, da consciência de vulnerabilidade
que, inevitavelmente, o habita. Não há razão por que negar esta realidade, nem
para pretender não ter medo.
Em certas circunstâncias, o medo pode ter um efeito benéfico, pois incita-nos a
evitar as causas que conduzem a perigos reais ou impede-nos de correr riscos
desmesurados.
O medo, porém, facilmente, nos aprisiona nas suas teias, conduzindo-nos à
passividade e ao desencorajamento e, neste caso, é, sem dúvida, um sentimento a
combater e a superar.
Realidade humana de dimensão pessoal, o medo é também uma categoria social. Nas
sociedades, como nas pessoas, nascem e crescem medos que vão variando consoante
os tempos e os lugares. A fome, a peste e a guerra foram grandes terrores que
atravessaram boa parte da história colectiva da Europa. São medos hoje
ultrapassados nesta parte do mundo. Não porque tais realidades tenham
desaparecido por completo, mas porque, agora, se julga conhecer os caminhos para
as dominar.
Vencidos uns, a nossa época não se livrou, porém, de outros. Ao invés, a nossa
sociedade está, cada vez mais, refém de alguns poderosos medos colectivos.
Inclusive, as novas gerações, que já nasceram no meio da abundância de bens
materiais, que acompanham desde cedo os prodigiosos progressos científicos e
tecnológicos, que vivem em democracia e podem participar no desenho do seu
presente e do seu futuro, mostram-se sobressaltadas pelo espectro de perigos que
sabem ser reais:
- as alterações climáticas e suas consequências para a vida na Terra;
- a poluição e as doenças daí decorrentes;
- a insegurança face ao emprego e aos bens materiais no futuro;
- o terrorismo ou a ameaça nuclear.
Vejo, com preocupação, que, diante destas realidades, se vêm gerando reacções
nem sempre as mais positivas.
De um lado, o carpe die do prazer imediato, da fruição máxima, do
salve-se quem puder, do consumismo intensivo e irresponsável (não raro para além
dos próprios recursos pessoais!); do outro lado, a incubação ou manifestação de
reacções de violência alimentadas num pressuposto de que a culpa do mal-estar
antevisto é sempre dos outros.
A nossa sociedade dá sinais de grande crispação, que por sua vez são reflexo de
medos não racionalizados, a par de uma notória ausência de causas comuns
mobilizadoras e consequente empenhamento colectivo em as prosseguir.
Para sair deste impasse, importa estabelecer, nas várias instâncias da
sociedade, plataformas de confiança onde os perigos reais sejam descodificados,
as suas causas discutidas, as soluções aprofundadas e convertidas em acções
concretas.
Para além da família, onde assentam os alicerces mais fundos da confiança e do
medo, destaco duas outras instâncias: a escola e as comunidades cristãs.
A escola, de que presentemente tanto se fala, apresenta-se como um lugar
emblemático para a aprendizagem desta travessia do medo. Porque é centro de
conhecimento e de aprendizagem dos caminhos da racionalidade, mas também porque
é matriz de desenvolvimento de atitudes e comportamentos responsáveis, bem como
cadinho de aprofundamento e de prática de valores comuns de cidadania.
Por seu turno, as comunidades cristãs são outro dos lugares privilegiados para
um saudável enfrentar dos medos colectivos. Porque são espaços abertos ao
aprofundamento e à celebração da esperança e devem, cada vez mais, servir de
mediação para empenhamentos colectivos em causas comuns que favoreçam a justiça,
o desenvolvimento e a paz.
Que o tempo litúrgico do Advento, que as comunidades cristãs são chamadas a
celebrar nas próximas semanas, nos mova interiormente a içar as velas da
esperança, para atravessarmos, com ousadia, os mares alterosos dos nossos medos
pessoais e colectivos. |