Atravessar o mar dos medos
com as velas da esperança

   

 

Sail Brad - G. Swonetz
   

Manuela Silva

   

Dezembro - 2006

     
............  
Sentindo a violência do vento, Pedro teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou:
Salva-me, Senhor!
(Mt. 14, 30)
     
. .

O medo é um sentimento intrínseco do ser humano. Reflexo, por certo, da consciência de vulnerabilidade que, inevitavelmente, o habita. Não há razão por que negar esta realidade, nem para pretender não ter medo.
Em certas circunstâncias, o medo pode ter um efeito benéfico, pois incita-nos a evitar as causas que conduzem a perigos reais ou impede-nos de correr riscos desmesurados.
O medo, porém, facilmente, nos aprisiona nas suas teias, conduzindo-nos à passividade e ao desencorajamento e, neste caso, é, sem dúvida, um sentimento a combater e a superar.
Realidade humana de dimensão pessoal, o medo é também uma categoria social. Nas sociedades, como nas pessoas, nascem e crescem medos que vão variando consoante os tempos e os lugares. A fome, a peste e a guerra foram grandes terrores que atravessaram boa parte da história colectiva da Europa. São medos hoje ultrapassados nesta parte do mundo. Não porque tais realidades tenham desaparecido por completo, mas porque, agora, se julga conhecer os caminhos para as dominar.
Vencidos uns, a nossa época não se livrou, porém, de outros. Ao invés, a nossa sociedade está, cada vez mais, refém de alguns poderosos medos colectivos.
Inclusive, as novas gerações, que já nasceram no meio da abundância de bens materiais, que acompanham desde cedo os prodigiosos progressos científicos e tecnológicos, que vivem em democracia e podem participar no desenho do seu presente e do seu futuro, mostram-se sobressaltadas pelo espectro de perigos que sabem ser reais:
- as alterações climáticas e suas consequências para a vida na Terra;
- a poluição e as doenças daí decorrentes;
- a insegurança face ao emprego e aos bens materiais no futuro;
- o terrorismo ou a ameaça nuclear.
Vejo, com preocupação, que, diante destas realidades, se vêm gerando reacções nem sempre as mais positivas.
De um lado, o carpe die do prazer imediato, da fruição máxima, do salve-se quem puder, do consumismo intensivo e irresponsável (não raro para além dos próprios recursos pessoais!); do outro lado, a incubação ou manifestação de reacções de violência alimentadas num pressuposto de que a culpa do mal-estar antevisto é sempre dos outros.
A nossa sociedade dá sinais de grande crispação, que por sua vez são reflexo de medos não racionalizados, a par de uma notória ausência de causas comuns mobilizadoras e consequente empenhamento colectivo em as prosseguir.
Para sair deste impasse, importa estabelecer, nas várias instâncias da sociedade, plataformas de confiança onde os perigos reais sejam descodificados, as suas causas discutidas, as soluções aprofundadas e convertidas em acções concretas.
Para além da família, onde assentam os alicerces mais fundos da confiança e do medo, destaco duas outras instâncias: a escola e as comunidades cristãs.
A escola, de que presentemente tanto se fala, apresenta-se como um lugar emblemático para a aprendizagem desta travessia do medo. Porque é centro de conhecimento e de aprendizagem dos caminhos da racionalidade, mas também porque é matriz de desenvolvimento de atitudes e comportamentos responsáveis, bem como cadinho de aprofundamento e de prática de valores comuns de cidadania.
Por seu turno, as comunidades cristãs são outro dos lugares privilegiados para um saudável enfrentar dos medos colectivos. Porque são espaços abertos ao aprofundamento e à celebração da esperança e devem, cada vez mais, servir de mediação para empenhamentos colectivos em causas comuns que favoreçam a justiça, o desenvolvimento e a paz.
Que o tempo litúrgico do Advento, que as comunidades cristãs são chamadas a celebrar nas próximas semanas, nos mova interiormente a içar as velas da esperança, para atravessarmos, com ousadia, os mares alterosos dos nossos medos pessoais e colectivos.

..   .
   
 

 

   

Visitas: