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Tempo para Viver

 
Manuela Silva
Julho - Agosto 2010
 
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a
Daniel Faria
 

Um dos riscos desta nossa civilização é o de nos usurpar o direito a dispor do nosso tempo. Ritmos e horários de trabalho stressantes, como os que prevalecem na economia e na sociedade contemporâneas, associados à velocidade vertiginosa da informação, que a cada instante nos chega e queremos acompanhar, e aos sobressaltos das mudanças reais ou anunciadas, são como correntes de ferro que amarram os nossos desejos e aspirações mais pessoais aos desígnios de um modelo sócio-económico que faz do dinheiro, do lucro, da produtividade ou da competitividade os seus deuses. Uma das razões da frustração no meio da abundância que grassa como doença endémica desta sociedade, tem aqui uma das suas raízes.

Na voragem dos acontecimentos, não nos sobra tempo para fruir e viver. Há quem caracterize o nosso tempo como sendo um tempo de consumo (consumo de bens materiais e serviços, mas também de informação, de paisagens, de culturas, de relações pessoais) e não de consumação (fruição! completude! assimilação personalizada!).

Assim sendo, não admira que o tempo de férias (o tempo do não-trabalho obrigatório) seja tão ambicionado e gozosamente antevisto como libertação, como o tempo outro, o tempo do exótico ou, simplesmente, o tempo de descanso.

Chegadas as férias, pode porém suceder, e muitas vezes assim é, que levemos para esses dias a mesma agitação, as mesmas dependências das convenções sociais, que enchamos esses dias com o fazer das mil e uma pequenas coisas que fomos adiando. Em suma, pode acontecer que, afinal, por hábito ou automatismo, por dependência do olhar e juízo dos outros ou das modas, acabemos por não sermos capazes de ser donos e donas deste tempo de férias.

Se assim for, regressaremos ao trabalho presos com as mesmas correntes e dependentes das mesmas alienações e continuaremos a alimentar a engrenagem de um uso do tempo que não deixa viver e por isso é gerador de mal-estar individual e de múltiplas disfuncionalidades sociais. Talvez com o olhar posto na expectativa de novas férias…

Resta afirmar a esperança de que, neste ano, não seja assim e que saibamos fazer das férias um tempo de real paragem, de centramento na essência do nosso ser profundo, de escuta, acolhimento e resposta ao desejo de vida que nos habita, de gratuidade e abertura ao imprevisto, de contemplação das maravilhas que nos rodeiam, de aprendizagem de um outro modo de viver mais sóbrio, humano e convivial, num mundo que é casa comum e tem de ser cuidada.

 

 

 

 

 

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