Um dos riscos desta
nossa civilização é o de nos usurpar o direito a dispor do nosso
tempo. Ritmos e horários de trabalho stressantes, como os que
prevalecem na economia e na sociedade contemporâneas, associados
à velocidade vertiginosa da informação, que a cada instante nos
chega e queremos acompanhar, e aos sobressaltos das mudanças
reais ou anunciadas, são como correntes de ferro que amarram os
nossos desejos e aspirações mais pessoais aos desígnios de um
modelo sócio-económico que faz do dinheiro, do lucro, da
produtividade ou da competitividade os seus deuses. Uma das
razões da frustração no meio da abundância que grassa como
doença endémica desta sociedade, tem aqui uma das suas raízes.
Na voragem dos
acontecimentos, não nos sobra tempo para fruir e viver. Há quem
caracterize o nosso tempo como sendo um tempo de consumo
(consumo de bens materiais e serviços, mas também de informação,
de paisagens, de culturas, de relações pessoais) e não de
consumação (fruição! completude! assimilação personalizada!).
Assim sendo, não
admira que o tempo de férias (o tempo do não-trabalho
obrigatório) seja tão ambicionado e gozosamente antevisto como
libertação, como o tempo outro, o tempo do exótico ou,
simplesmente, o tempo de descanso.
Chegadas as férias,
pode porém suceder, e muitas vezes assim é, que levemos para
esses dias a mesma agitação, as mesmas dependências das
convenções sociais, que enchamos esses dias com o fazer das mil
e uma pequenas coisas que fomos adiando. Em suma, pode acontecer
que, afinal, por hábito ou automatismo, por dependência do olhar
e juízo dos outros ou das modas, acabemos por não sermos capazes
de ser donos e donas deste tempo de férias.
Se assim for,
regressaremos ao trabalho presos com as mesmas correntes e
dependentes das mesmas alienações e continuaremos a alimentar a
engrenagem de um uso do tempo que não deixa viver e por isso é
gerador de mal-estar individual e de múltiplas
disfuncionalidades sociais. Talvez com o olhar posto na
expectativa de novas férias…
Resta afirmar a
esperança de que, neste ano, não seja assim e que saibamos fazer
das férias um tempo de real paragem, de centramento na essência
do nosso ser profundo, de escuta, acolhimento e resposta ao
desejo de vida que nos habita, de gratuidade e abertura ao
imprevisto, de contemplação das maravilhas que nos rodeiam, de
aprendizagem de um outro modo de viver mais sóbrio, humano e
convivial, num mundo que é casa comum e tem de ser cuidada.