Não deixa de ser
surpreendente que certas verdades essenciais nunca – ou
raramente – passem para o discurso político ou ganhem a merecida
visibilidade nos meios de comunicação social. É certo que, por
vezes, atravessam esse discurso, como de raspão, mas de modo
ambíguo e distorcido, segundo a conveniência do momento. O
resultado é que o próprio discurso desvaloriza a ideia e a
arruma na prateleira das utopias.
É o que sucede, por
exemplo, com as múltiplas e frequentes abordagens da crise em
que o mundo ocidental (e o sistema económico e financeiro que
lhe subjaz) presentemente está mergulhado, as quais deixam
completamente na sombra verdades tão nucleares como a busca
subjectiva da felicidade, a qualidade da vida humana ou a
convivialidade harmoniosa no Planeta em que habitamos.
Se estas dimensões
transitassem, como deveria ser, para o enfoque principal do modo
de fazer face à crise, novos caminhos de solução certamente se
abririam. Caminhos, esses sim, portadores de felicidade, talvez
com menos crescimento de produção material, mas com mais tempo
livre, trabalho melhor repartido, consumo mais saudável e
responsável, melhor coesão social e sustentabilidade ecológica.
Caminhos que a todos beneficiariam, tanto aos povos do Norte
como aos do Sul do Planeta. O bem comum de uma Paz justa e
duradoura estaria, então, melhor defendido e a democracia seria
mais verdadeira e consolidada.
Para sair do
impasse a que nos conduziu a crise actual, é cada vez mais
evidente que não basta recorrer apenas às receitas da economia
financeira; há que aprofundar a consciência individual e
desenvolver a dimensão espiritual da vida humana, recentrando-as
em valores fundamentais que encontram eco no coração profundo do
ser humano e, por isso, são indissociáveis da sua própria
felicidade, essa aspiração suprema que sempre desejamos para nós
próprios, para aqueles que amamos, para a Humanidade no seu
todo.
No espaço da
Fundação Betânia, temos vindo a aprofundar o nosso olhar sobre o
mundo em que vivemos e temos procurado perscrutar a tradição da
fé cristã para com ela confrontar o nosso desejo mais fundo
daquilo que consideramos uma matriz de felicidade pessoal e
colectiva.
É com estas
palavras que, por ora, balbuciamos essa busca necessariamente
inacabada e que desejamos aberta a outros contributos: (*)
• Felizes os que reconhecem o
Amor na sua vida e acreditam n’ Ele, porque só o amor é gerador
de vida.
• Felizes os que vivem o dom da confiança, porque possuem, em
permanência, uma fonte de serenidade.
• Felizes os que estão atentos aos sinais portadores de futuro,
porque são construtores do Reino de Verdade, de Justiça e de
Paz.
• Felizes os que cuidam da Criação, porque tomam parte na Obra
criadora de Deus.
• Felizes os que têm um coração compassivo, porque suavizam a
vida.
• Felizes os que se deixam conduzir pelo Espírito, porque
conhecerão a liberdade interior.
• Felizes os que são fiéis a si mesmos e guardam a sua
inteireza, porque neles se revela a presença inefável de Deus.
• Felizes os que semeiam a alegria, porque a alegria é uma
janela aberta para a esperança.
• Felizes os que se empenham na construção da justiça e
da paz, porque estão ao serviço do projecto de Deus e do bem da
Humanidade.
• Felizes os que são capazes
de aceitar as várias situações de morte, porque as vêem como
germens de vida.
• Felizes os que amam o Belo e nele se revêem, porque
transportam consigo o olhar amoroso de Deus sobre a criação.
(*)
- Céu Tostão, Luísa França; Manuela Silva