Ser feliz: aspiração
e tarefa
de sempre

 

Multiple Paper Cranes Against Sky Backdrop - © Nugene Chiang/AsiaPix/Corbis

 
Manuela Silva
Maio 2011
 
Feliz de quem atravessa a vida inteira, tendo mil razões para viver.

- Dom Hélder Câmara

Instalou-se na sociedade portuguesa uma onda de pessimismo e de desesperança face ao futuro que, como um tsunami, atravessa as diferentes gerações, territórios e estratos sociais. Vive-se, hoje, numa atmosfera depressiva que está omnipresente nas conversas entre amigos e é o eco, mais ou menos remoto, do que se passa nos vários ambientes de trabalho, nos media, nas redes sociais, nas escolhas dos nossos quotidianos.

 Num tal contexto, reafirmar a aspiração de ser feliz hoje, aqui e agora, e apontá-la como tarefa de sempre, pode soar como um despropósito ou um pensamento a ser prontamente remetido para os esconderijos das nossas quimeras infantis.

 Contudo, é, precisamente, nestes tempos de crise que, a meu ver, mais importa recordar verdades essenciais e uma delas é esta: todos os seres humanos buscam a felicidade para si, para os seus próximos e para as comunidades em que estão inseridos. Não pode ser de modo diferente, pois que a felicidade é o outro nome da singularidade da realização própria de cada ser; a felicidade é a razão de viver de cada um, o chão em que semeamos a nossa existência.

 Mesmo que nem todos entendam do mesmo modo o que é a felicidade e, menos ainda, tenham idêntica percepção acerca do caminho para a alcançar, podemos afirmar que todos os seres humanos procuram orientar a sua vida por supostos critérios de busca da felicidade.

 Sucede, porém, que muitas vezes podemos equivocar-nos acerca do que pensamos ser a nossa felicidade e, quando assim é, facilmente, deslizamos por atalhos que nos desviam da nossa realização como pessoas e como membros vivos dos corpos mais vastos a que pertencemos.

 É o que vem sucedendo nas nossas sociedades de cultura e organização económica e social de raiz hedonista e materialista, em que se têm gerado estereótipos de felicidade, produzidos e alimentados pelo marketing ao serviço de interesses económicos e financeiros, que nos afastam de uma felicidade verdadeira e duradoura.

 A dependência das modas, o abuso de sedativos como meio de aliviar a mais pequena frustração ou a dependência das drogas para chegar, pela via rápida, ao prazer, a qualquer preço, são exemplos de curto-circuitos no caminho da busca de uma felicidade autêntica e duradoura.

 Em tempo de crise, é provável que estes desvios se acentuem pela força da dureza das circunstâncias e da insegurança que geram, mas não é inevitável que assim suceda.

As crises não têm apenas efeitos negativos e perniciosos; servem também para nos obrigarem a repensar as razões das nossas escolhas de felicidade e dos traçados das rotas que elegemos para a alcançar. 

Refiro dois exemplos:

  • A diminuição do rendimento disponível, dentro de certos limites, pode levar ao reconhecimento de que a felicidade pessoal não tem uma relação biunívoca com o mais ter, o maior consumo, o maior gasto; ao invés, a menor disponibilidade de recursos materiais talvez favoreça uma outra gestão do tempo, uma vida menos stressada e mais saudável ou permita desenvolver relações humanas de maior qualidade e satisfação.

  • A ocorrência de situações de maior carência de bens materiais pode suscitar novas formas de solidariedade, criar a oportunidade de uma consciência mais aguda do valor da justiça social e favorecer uma postura colectiva menos tolerante com certas manifestações de desigualdade e de ostentação, abrindo caminho a sociedades mais inclusivas e, só por isso, mais felizes.

 Poderia acrescentar outros exemplos. O que importa é que, neste tempo de crise, se reconheça a necessidade de uma tomada de consciência de que a felicidade é um bem irrecusável no plano pessoal e colectivo e como tal deve ser prosseguido, tanto no plano da reflexão cultural e espiritual (o que é a felicidade?) como no das políticas concretas (como gerar condições de vida mais feliz?).

 Colocar a felicidade e o seu corolário de vida boa, no centro das nossas agendas pessoais e políticas, contribuirá para enfrentar a presente crise, de forma mais sadia não confinando o debate em torno dos pacotes de mero equilíbrio financeiro e permitirá encontrar razões de viver e novos estilos de vida mais gratificantes e sustentáveis.

 Para os cristãos e suas comunidades, estes tempos de crise são boas oportunidades para repensarmos onde firmamos os alicerces da nossa felicidade. No Sermão da Montanha, Jesus apontou caminhos: Falou do desprendimento, da paz, da simplicidade, do empenhamento na construção da justiça, na importância do serviço dos outros, no Amor como lei universal na relação entre as pessoas e fundamento da organização da vida em comum. E sempre foi dizendo: assim como Eu fiz, fazei-o vós também.

 

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