Quaresma

II domingo da Quaresma

mateus homem arcabas

Gn 12,1-4a;

Sl 32,4-5.18-19.20.-22;

2Tm 1,8b-10;

Mt 17,1-9

A história de salvação, que começa com a vocação de Abraão (1.ª leitura), encontra em Jesus o seu ponto culminante, como atestam Moisés e Elias no monte da transfiguração (evangelho), e prossegue nos tempos da Igreja com o santo chamamento revelado pelo Evangelho de Jesus Cristo (2.ª leitura). A obediência de Abraão abre caminho a cumprir-se a promessa de Deus de fazer dele uma bênção para todos os povos; na transfiguração a voz divina pede obediência a Jesus, o Filho: “Escutai-o!” (evangelho); o acontecimento pascal é graça que pede obediência ao crente e o torna testemunha (2.ª leitura).
No centro do episódio da transfiguração está a voz da nuvem que manda escutar Jesus (cf. Mt 17,5). A reacção dos discípulos às palavras celestes liga escuta e temor: “escutando isto, […] os discípulos ficaram muito assustados (Mt 17,6). Está aqui o eco da passagem de Dt 4,32-33 que pergunta: “desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra […] houve jamais coisa tão extraordinária como esta, [… designadamente] algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando do meio do fogo e tenha continuado a viver?”. Hoje, a expressão que fala de “escuta da Palavra de Deus” está na boca de todos e corre o risco de banalização: escutar a Palavra de Deus é experiência temível que não coincide com a leitura e a escuta de páginas da Bíblia e não pode ser confundida com sinais dos tempos definidos por via sociológica mais do que mediante discernimento espiritual. Escutar a Palavra de Deus significa descobrir a presença de Deus e acolhê-la em nós, mas trata-se de uma presença que não pode ser reduzida à ordem da representação, da percepção e do conhecimento. É uma presença outra, é luz. É a presença luminosa que habita Jesus. E que alcança os discípulos graças à voz de Deus que, através das Escrituras, proclama a identidade messiânica de Jesus (“Tu és meu Filho”: Sl 2,7), servo (“que eu preferi”: Is 42,1) e profeta (“Escutai-o!”: Dt 18,15). A escuta da Palavra de Deus é temível também porque conduz à mudança, à conversão, a mudar de vida fazendo da Palavra escutada o centro renovado e inovador da sua própria existência. A escuta da Palavra de Deus é temível porque provoca uma crise, um êxodo (como acontece a Abraão: cf. Gn 12,1-4), um sair da casa das certezas e dos hábitos para iniciar um caminho não assegurado por certezas humanas.   
A experiência da transfiguração de Jesus implica também os sentidos dos discípulos: estes escutam, vêem, são tocados por Jesus (Mt 17,7: “tocou-lhes”, nota apenas de Mateus). O corpo é o sujeito da experiência espiritual e os sentidos corporais intervêm nela. Permitindo-nos abrirmo-nos à alteridade, pormo-nos em contacto com o mundo, eles desempenham uma função incoativamente espiritual. E a transfiguração sugere-nos que encontremos a unidade da espiritualidade cristã saindo dos dualismos que frequentemente a marcaram: interior-exterior, sentidos-espírito, corpo-alma, sensibilidade-nterioridade… A separação entre corpo e espírito ou a sua confusão conduzem à morte de um e do outro e, sobretudo, fazem desaparecer a autêntica experiência espiritual, que é experiência do homem todo. O crente ordena os seus sentidos com a fé, enxerta-os em Cristo, exercita-os na oração, deixa-os guiar pelo Espírito Santo e, assim, a sua experiência de Deus será integral. Como o foi para Agostinho no encontro que mudou a sua existência: “Chamaste-me e o teu grito rompeu a minha surdez; cintilaste e o teu esplendor dissipou a minha cegueira; exalaste a tua fragrância e eu respirei e ansiei por ti; saboreei e tenho fome e sede; tocaste-me e ardo de desejo da tua paz” (Confissões X,27,38). Não estamos perante experiências místicas reservadas a poucos eleitos, mas perante a comum experiência de fé do crente que, escutando a Palavra de Deus através da fé, o rosto de Cristo, toca a sua presença que ele lhe oferece, saboreia a consolação do Espírito, chora de arrependimento, respira o sopro de Deus, ou seja, consegue viver a sua existência quotidiana, que é existência no corpo, sob a luz transfiguradora da graça.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas