Tríduo Pascal

Quinta-feira Santa

Ex 12,1-8.11-14;  Sl 115,12-13.15-16bc.17-18;  1Cor 11,23-26;  Jo 13,1-15

The Last Supper Sieger Koder

Memória da libertação pascal do Egipto, a 1.ª leitura é igualmente profecia da Páscoa messiânica, da salvação que Cristo obterá com o seu sangue para a humanidade; é durante um banquete pascal que Jesus dá sinal do dom da sua vida, antecipando os acontecimentos da sua paixão e morte, e Paulo, na 2.ª leitura, relata a tradição das palavras e dos gestos eucarísticos que também ele recebeu e que os cristãos celebram “até que o Senhor venha” (1Cor 11,26); o gesto com que Jesus, segundo o quarto Evangelho, depõe as suas vestes e se inclina para lavar os pés aos discípulos é anúncio e prefiguração da deposição da vida que Jesus efectuará na cruz.
Todo o episódio do lava-pés é apresentado por João sob o signo do amor de Jesus pelos seus (cf. Jo 13,1), o qual narra o grande amor de Deus pela humanidade. A Eucaristia, de que o lava-pés é realização existencial, é sacramento do ágape, do amor, e esse amor assume a forma muito concreta de fazer-se servo dos outros. O gesto de Jesus que lava os pés aos seus discípulos tem valor de magistério para a Igreja: “Dei-vos o exemplo para que, assim como eu fiz, vós façais também (Jo 13,15). Do Cristo-Servo passa-se à Igreja-serva. A Eucaristia torna a Igreja participante da missão de Cristo, de modo que toda a lógica individualista, todo o egoísmo e todo o espírito de divisão são negação da fraternidade e da partilha que caracteriza a Eucaristia (cf. 1Cor 11,17 ss.). Referindo-se à narração paulina da refeição do Senhor, contida em 1Cor 11, escreveu no seu tempo o cardeal Joseph Ratzinger: “Celebra-se a Eucaristia com o único Cristo e, portanto, com toda a Igreja, ou não se a celebra de todo. Quem na Eucaristia procura apenas o seu grupo, quem nela e através dela não se insere em toda a Igreja e não ultrapassa o seu ponto de vista particular, faz exactamente o que é reprovado aos cristãos de Corinto. Ele senta-se, por assim dizer, de costas voltadas para os outros e destrói assim a Eucaristia para si próprio e perturba-a para os outros. Ele faz então apenas a sua ceia e depreza a Igreja de Deus (cf. 1Cor 11,21-22).”
Jesus, que lava os pés aos seus discípulos, mesmo a Judas, mostra um acolhimento incondicional para com “todos”: não muitos, não qualquer um, mas todos, até os seus inimigos, como Judas Iscariote, que albergava no seu coração o  propósito diabólico de o trair (cf. Jo 13,2). A Eucaristia é sacramento do acolhimento de Deus para com todos os homens. Portanto, as celebrações eucarísticas deveriam exprimir essa humanidade que as faz serem sinais eloquentes de acolhimento seguindo as pisadas de Jesus, que na sua vida terrena se encontrou com todos, fariseus e publicanos, justos e pecadores, pessoas saudáveis e doentes, e a todos expressou as exigências do Reino e narrou a misericórdia de Deus.
Entre as palavras que Jesus profere durante o lava-pés, há as que têm também uma valência judicial: “Nem todos estais limpos” (Jo 13,11). A impureza a que se refere não é de tipo ritual ou moral, mas tem a ver com o amor. A impureza é o não-amor, é trair o amor, abandonar o amor: mas, mesmo em relação a quem entra no não-amor, Jesus mantém o seu amor fiel. Jesus ama também o seu inimigo. As nossas eucaristias, se querem ser fiéis à forma que lhes foi dada pelo Senhor, devem ser escolas de amor, onde se aprende a amar até o inimigo, ou melhor, se aprende a não criar inimigos e a mostrar um rosto de mansidão também a quem se faz nosso inimigo.
A Eucaristia é sacramentum unitatis enquanto celebração da nova aliança no sangue de Cristo: lei desta aliança é o mandamento novo do amor deixado por Jesus depois do lava-pés (cf. Jo 13,34). A forma da celebração, o rito, não pode senão estar ao serviço desta verdade que é constitutiva do mistério eucarístico. Seria negada a Eucaristia como ceia do Senhor, como sacramento de amor e de unidade, se o modo de celebrá-la chegasse a revestir uma importância maior que o seu conteúdo originando contendas e divisões no corpo comunitário.

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem:  A Última Ceia - Sieger Köder © Rottenburger Kunstverlag