Tríduo Pascal

Sexta-feira Santa

Is 52,13-53,12; Sl 30,2.6.12-13.15-16.17.25; Heb 4,14-16; 5,7-9; Jo 18,1-19,42

Jesus und Simon von Cyrene Sieger Köder

A paixão e a morte de Jesus podem ser entendidas como mistério de obediência.O Servo anunciado por Isaías submete-se às violências daqueles que o condenam à morte, mantendo-se fielmente ligado ao seu Senhor (cf. Is 50,7); segredo desta força e desta obediência é o seu silêncio (1.ª leitura). O acontecimento pascal, fonte de salvação universal, é visto como mistério de obediência do Filho ao Pai que lhe permite afrontar sofrimentos e morte, tornando-se causa de salvação para quantos lhe obedecerem a ele. Essa obediência é sustentada pela oração intensa e dramática do Filho (2.ª leitura). A paixão e morte é lida por João como cumprimento, como obediência às Escrituras que contêm a vontade de Deus, como realização do amor por Deus e pelos homens e da missão recebida do Pai. A obediência de Jesus transparece na sua consciência lúcida dos acontecimentos (Jo 18,4; 19,28), na sua palavra de autoridade (18,8.19-23.37; 19,11), em ficar calado (19,9).

Em Jo 18,1-11 não estamos perante a prisão de Jesus, de quem se fala só a partir do v. 12, mas perante o confronto-encontro entre Jesus (com os seus discípulos), por um lado, e Judas (com os soldados), pelo outro. A cena acontece num jardim (18,1; cf. também 19,41), como o primeiro encontro entre o bem e o mal acontece no jardim do no-princípio. Entrar na paixão é entrar numa luta: Jesus entra  nela com a força do amor (Jo13,1) e da obediência ao Pai (19,11).
Indo para o jardim que Judas também conhecia bem (18,2), Jesus parece facilitar a tarefa do traidor: Jesus submete-se à liberdade de Judas, mas conserva a sua liberdade de amar, de amar também Judas, também o seu inimigo. Jesus ama os seus, todos eles, até ao fim.
A força da obediência de Jesus transparece das suas palavras que aterrorizam os seus adversários e que ecoam a revelação do nome divino : “Sou eu” (18,5.6.8; cf. Ex 3,14; Is 43,10). A comunhão íntima de Jesus com o Pai e o seu obedecer à palavra do Pai, expressa durante todo o quarto Evangelho, são o fundamento da autoridade e da força que emanam da humanidade de Jesus, do temor que ela incute e que os seus adversários não conseguem suportar (18,6).
Frente a Jesus revela-se o realismo cínico do sumo sacerdote Caifás (18,14; cf. 11,49-50), a recusa da responsabilidade da parte de Pilatos que sacrifica a convicção da inocência de Jesus à salvaguarda do seu próprio poder (18,38; 19,4.12), o recurso à chantagem para com Pilatos por parte dos chefes judeus que querem a todo o custo a condenação de Jesus (19,12), o carácter passivo da multidão, da massa, exposta às manipulações e às instrumentalizações de quem tem um poder (político ou religioso) a conservar. Surge a pergunta: quem é verdadeiramente sujeito neste caso? João deixa que a figura de Jesus se perfile com força e autoridade senhoriais.
A proclamação da realeza de Jesus no letreiro sobre a cruz reveste, na teologia joanina, o valor de uma profecia: quaisquer que fossem as intenções com que foi escrito, o que está escrito (e o escrito permanece!) afirma a verdade teológica: Jesus é verdadeiramente rei e a cruz é o trono real. A cruz fala. E proclama que aquele Jesus que provém de Nazaré é o rei dos judeus. Do princípio até ao fim, de Nazaré (“De Nazaré pode acaso vir alguma coisa de bom?”: Jo 1,46) até à cruz (e à dimensão de ignomínia que esta comportava), a vivência de Jesus narra o realizar-se da vontade de Deus e o manifestar-se da sua glória de modos e formas que apanham de surpresa a racionalidade e a sabedoria mundanas e religiosas. É o escândalo da encarnação, do Verbo feito carne. E é o escândalo da cruz, do Messias crucificado.
Contemplar o Elevado na cruz comporta uma dimensão eclesiológica inerente, em particular, o dom e a missão da unidade da Igreja. Escreve Agostinho, comentando Jo 19,23-24: “As vestes de Cristo divididas em quatro partes representam a Igreja disseminada pelos quatro cantos do mundo. A túnica tirada à sorte simboliza a unidade das diversas partes graças ao vínculo da caridade.”

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem:  Jesus und Simon von Cyrene - Sieger Köder © Rottenburger Kunstverlag