Tríduo Pascal

Vigília Pascal

Gn 1,1-2,2;  Gn 22,1-18; Ex 14,15-15,1; Is 54,5-14; Is 55,1-11; Br 3,9-15.32-4,4;  Ez 36,16-17a.18-28;

Rm 6,3-11; Sl 117,1-2.16ab-17.22-23; Mt 28,1-10

Cornerstone Sieger Koder

Esta vigília, “mãe de todas as santas vigílias”, é tão importante “que poderia sozinha tomar como nome próprio o nome comum das outras vigílias” (Agostinho). Os cânticos e gestos litúrgicos, a proclamação e a escuta das leituras bíblicas, a Eucaristia, os baptismos eventualmente celebrados, concorrem para fazer desta noite uma noite radiosa, iluminada como o dia (“nox sicut dies illuminabitur”: Sl 139,12 segundo a Vulgata), porque reflexo da luz pascal. É a “noite verdadeiramente gloriosa” cantada no precónio pascal. O carácter dossológico da vigília é expresso pela abundante selecção de leituras bíblicas, em particular das sete leituras extraídas do Antigo Testamento, as quais permitem meditar respectivamente sobre a criação, tendo no seu centro a criação do homem e a vitória do kosmos sobre o caos; sobre a prefiguração pascal ínsita na narração do “sacrifício” de Isaac; sobre a passagem do mar; sobre a fidelidade misericordiosa do Redentor a Jerusalém; sobre a eternidade da aliança que ele estabelece com o seu povo; sobre a luminosidade e sobre a eficácia da Palavra de Deus que permite ao homem caminhar na sua luz; sobre a promessa do Senhor de derramar águas purificadoras e o seu próprio espírito no coração dos crentes. O evangelho coloca a Páscoa de Jesus Cristo no coração da história da salvação que vai da criação à nova criação, para que a Páscoa seja verdadeiramente universal e cósmica. Memória e espera situam o cristão no hoje em que é chamado, como recorda a carta aos Romanos, a testemunhar o Ressuscitado vivendo o baptismo.
O evangelho afirma que as mulheres, na madrugada do primeiro dia da semana, foram “ver o sepulcro”. Não é a visita a um túmulo, mas uma procura (“Buscais a Jesus”: Mt 28,5) movida por um anseio e guiada por uma intuição. Este anseio humaníssimo é abertura ao acolhimento da manifestação divina que se dá diante dos seus olhos (“Nisto, houve…”: Mt 28,2).
O tremor de terra e a descida do mensageiro celeste são elementos teofânicos que significam que a ressurreição de Jesus é um acontecimento divino. O anjo sentar-se sobre a pedra tumular que selava o sepulcro significa a vitória sobre a morte: com a ressurreição de Cristo a morte é reduzida a escabelo, a banquinho. A ressurreição de Cristo é acontecimento escatológico que profetiza o destino de todos os homens. Podem ressoar as palavras da Escritura: “Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1Cor 15,55).
As mulheres assistem ao acto de o anjo rolar para o lado a pedra do sepulcro, mas o texto não narra a saídade Jesus do túmulo: tudo acontece como se ele já tivesse ressuscitado, já ali não estivesse. O túmulo aberto não é condição da ressurreição, mas é a ressurreição que esvazia o túmulo: “Não está aqui, de facto, ressuscitou” (Mt 28,6).
Mateus, como os outros evangelistas, não conta a ressurreição. A conhecida representação do Cristo que ressuscita saindo, vitorioso, do túmulo não deriva dos evangelhos canónicos, mas dos apócrifos, como mostra o Evangelho de Pedro que narra que os soldados de guarda viram dois anjos descer do céu, rolar para o lado a pedra do sepulcro, e dali sair amparando o Cristo enquanto “uma cruz os seguia”. Acredita-se na ressurreição segundo a palavra de Jesus, não segundo visão de testemunhas oculares que, na realidade, não existiram: “Ressuscitou, como havia dito” (Mt 28,6).
O acontecimento divino da ressurreição aterroriza os guardas que “ficaram como mortos” (Mt 28,4). As mulheres enchem-se de alegria com o anúncio e participam na ressurreição tornando-se evangelizadoras, ao passo que as criaturas fechadas na sua incredulidade e na mentira (cf. Mt 27,62-66; 28,11-15) entram na morte de que eram guardiões e de que agora se tornam presa.
A ressurreição imprime uma aceleração à história: doravante impõe-se anunciar depressa (v. 7), sem demora (v. 28,8), o acontecimento central da história humana: da palavra de Cristo (v. 6) à do anjo (vv. 5-7), passa-se à da Igreja evangelizadora (v. 8). O anúncio que as mulheres levam a correr (v. 8) aos discípulos é, acima de tudo, anúncio intraeclesial, como o que circula na vigília pascal: “Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou!”

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano B de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem:  "A Pedra Angular" - Sieger Köder, in A Loucura de Deus - Sieger Köder © Rottenburger Kunstverlag