Páscoa da Ressurreição do Senhor

Tischgemeinschaft Sieger Köder

Act 10,34a.37-43;  Sl 117,1-2.16ab-17.22-23;  Col 3,1-4;  Jo 20,1-9

O acontecimento da ressurreição de Jesus está presente nas três leituras nas formas de narração (evangelho), de anúncio (1.ª leitura) e de parenese (2.ª leitura). A narração mostra a formação da fé pascal, o seu carácter dinâmico que comporta a entrada no mistério divino através das provas de morte constituídas pelas ligaduras e pelo sudário, que envolviam o cadáver, e pelo sepulcro em que este tinha sido depositado (evangelho). O anúncio revela o carácter dinâmico da história da salvação que na ressurreição de Jesus encontra um ponto culminante, mas não conclusivo: ela não encerra a história, mas orienta-a de modo inteiramente renovado. Agora, ao anúncio profético segue-se o anúncio e o testemunho apostólico nos tempos da Igreja (1.ª leitura). A parenese mostra o carácter dinâmico da vida do baptizado: com o baptismo, o cristão é introduzido na morte e ressurreição de Cristo, pelo que o autor da carta aos Colossenses pode dizer que já ressuscitou com Cristo (cf. Cl 3,1), mas esta afirmação não situa o baptizado num ponto de chegada, antes o lança numa busca incessante, num dinamismo espiritual contínuo e inteiramente posto sob o signo da graça, do dom já recebido. A “procura das coisas do alto” da parte do cristão indica que ele é chamado a tornar-se aquilo que já obteve por graça: a fé no Ressuscitado permitirá ao cristão viver no presente a ressurreição, viver no tempo de ressuscitado com Cristo (2.ª leitura).
O evangelho apresenta, com as três personagens da narração, um itinerário de fé que é também um itinerário do ver: de um ver que tem por objecto a pedra removida do sepulcro, e da qual nasce a suposição de que o corpo tenha sido roubado (vv. 1-2), ao ver que se centra nas ligaduras (v. 5), depois nas ligaduras e no sudário dobrado (20,6-7), até a um ver que vê e basta, que vê sem se focar sobre um objecto preciso (v. 8), que vê e culmina na fé ou, pelo menos, num início de fé que deverá ser completada pela escuta das Escrituras (v. 9). Um ver que vê o invisível. A fé cristã confessa e crê na ressurreição vendo sinais de morte. Mas não são esses sinais que introduzem na fé na ressurreição, e sim apenas a inteligência do amor (o “discípulo amado”) e a fé nas Escrituras. Com efeito, no discípulo amado que “viu e acreditou” (ou “começou a acreditar”), há como que a fé que nasce do amor, fides ex charitate. Mas nesta fé há igualmente um ainda não que pede uma plenitude e inclui o compreender a Escritura (v. 9).
É a fé na Palavra do Senhor e no seu amor que permite começar e continuar a acreditar na ressurreição no meio dos inúmeros sinais de morte que atravessam a nossa vida e o nosso mundo. E, decerto, viver a fé como fé em ser amado pelo Senhor, como fé no seu amor por nós, está na base da fé na nossa ressurreição: o seu amor por nós não termina com a nossa morte. Esta fé, que compreende o vazio do túmulo, pode também socorrer a nossa vida, no momento do terror do vazio de amor e do medo do abandono que nos faz habitar na morte. Atrás do discípulo amado está, de facto, todo o discípulo de Jesus chamado ao longo do tempo a entrar na fé do Deus que o ama
O acto de entrar no sepulcro por parte de Pedro e depois do discípulo amado (vv. 6.8) tem um valor simbólico. Nós entramos, durante a nossa vida, em numerosos lugares de morte (perdas, separações, abandonos, fim de relações e de amizades, incomunicabilidade) e deixamos igualmente entrar a morte em nós, tornando-nos nós um lugar de morte para os outros (fechamento egoísta, arrogância, abuso, violência, manipulações, indiferença). A fé na ressurreição, que está no cerne da fé cristã, não coincide com uma simples confiança na vida, mas acredita na vida que nasce da morte graças à força do amor de Cristo. Ela permite entrar nas situações de morte olhando para além da morte e vivendo a ressurreição, ou melhor, amando ou procurando amar como Cristo amou e, sobretudo, crendo no seu amor por nós.

Missa da Tarde

Lc 24,13-35

Os acontecimentos narrados na nosso texto do evangelho são colocados por Lucas no dia da ressurreição. Isto é, no primeiro dia depois do sábado, o primeiro dia da semana, o “dia do Senhor” (Ap 1,10), esse dia que se tornará na tradição cristã um tempo sacramental, memória da ressurreição de Jesus. A ressurreição, as aparições do Ressuscitado, o dom do Espírito, são situados pelo Novo Testamento nesse dia, o domingo, em que os cristãos se reúnem na assembleia eucarística para celebrar a páscoa semanal. Dia que não pode ser substituído ou trocado com outro (por exemplo, a quinta-feira, em que o Senhor consumou a última ceia), o domingo é memória do acontecimento pascal. Guardar e transmitir a fé significa igualmente, e em particular, santificar o tempo fazendo concretamente do domingo o dia do Senhor.
O encontro com o Ressuscitado manifesta-se, para os dois discípulos de Emaús, como passagem da divisão à comunhão. Divisão antes de mais em relação à comunidade jerosolimitana de que se afastam, mas depois divisão entre eles, como parece pela discussão em que estão acalorados e que quase desemboca em litígio. O verbo usado por Lucas (syzeteîn: v. 15) aparece noutra altura para indicar um litígio, uma discussão acesa (cf. Lc 22,23), uma oposição declarada (cf. At 6,9; 9,29). A pedagogia de Jesus conduz os dois, através da explicação cristológica das Escrituras (v. 27) e da fractio panis (v. 30), a encontrarem unidade em si próprios (o fogo que arde no peito deles), entre si (a sua conversa torna-se uma comunicação da sua experiência espiritual: v. 32) e com a sua comunidade, a que regressam prontamente (vv. 33-35).
A explicação das Escrituras feita por Jesus não é pormenorizada: não sabemos o que Jesus lhes disse. Mas o leitor da obra lucana poderá obter essas explicações da boca dos apóstolos se ler os Actos dos Apóstolos, onde a pregação apostólica outra coisa não é senão exegese espiritual e cristológica das Escrituras, em particular das profecias veterotestamentárias (cf. Act 8,5 ss.). A Igreja é chamada a fazer o que o próprio Jesus fez. A pregação eclesial das Escrituras tem a missão de anunciar o acontecimento pascal e de guiar para Cristo.
A abertura dos olhos dos dois de Emaús parece como que um renascimento, uma iluminação, que se aproxima da abertura do coração operada pelo Senhor em Lídia enquanto escutava a pregação de Paulo (cf. Act 16,14) e da abertura da mente efectuada pelo Ressuscitado sobre os onze em Jerusalém com as explicações das Escrituras à luz do acontecimento pascal (cf. Lc 24,45). Esta abertura do que antes estava fechado é manifestação de ressurreição e deve-se à abertura da Escritura que o próprio Senhor realizou. Diz o salmista: “A abertura das tuas palavras ilumina, dá inteligência aos simples” (Sl 119,130). A explicação das Escrituras no Espírito Santo opera a ressurreição em palavra viva da palavra bíblica e a recriação do coração e da mente de quem escuta. Na Igreja, devia-se ter consciência de que proclamar e explicar as Escrituras significa inserir-se na dinâmica pascal: cada proclamação litúrgica da Palavra deveria ser experiência de ressurreição, graças ao Espírito que guia quem anuncia a proclama a Palavra e que interioriza a presença do Senhor no coração de quem escuta. Assim, a Igreja no seu conjunto é aberta pela Palavra e pelo Espírito para acolher o novum que o Senhor opera na história e faz essa mesma experiência de ressurreição passando dos seus medos e fechamentos à coragem de uma palavra inspirada na sua missão.
O caminho de conversão, isto é, de regresso a Jerusalém dos dois de Emaús contém elementos essenciais para todo o itinerário de conversão. Acima de tudo, o respeito, no sentido etimológico de retro aspicere, olhar para trás vendo o passado de modo renovado; portanto, a coragem de reconhecer os erros; por fim, a humildade de mudar de rota e regressar a Jerusalém, juntando-se novamente à comunidade da qual se tinha afastado.

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem:  Tischgemeinschaft / Comunidade - Sieger Köder © Rottenburger Kunstverlag