Páscoa

II domingo da Páscoa

mateus homem arcabas

Act 2,42-47;

Sl 117,2-4.13-15.22-24;

1Pe 1,3-9;

Jo 20,19-31

A fé: este é o tema que une as três leituras. O evangelho, que apresenta a passagem para a fé do incrédulo Tomé, proclama a bem-aventurança de quem acredita sem ver (cf. Jo 20,27-29); a 1.ª leitura fala dos membros da comunidade cristã como “aqueles que tinham acreditado” (Act 2,44); a 2.ª leitura define os cristãos como “aqueles que amam Jesus e acreditam nele sem o ver” (1Pe 1,8).
Fruto da ressurreição de Cristo é a Igreja que é apresentada nos Actos dos Apóstolos nos seus quatro parâmetros fundamentais: o ensinamento dos apóstolos (pregação, catequese, ensino); a comunhão (dos bens materiais, mas também dos espirituais); a fractio panis (a Eucaristia); a oração (Act 2,42). Em particular, os cristãos são aqueles que perseveram nestas práticas constitutivas da Igreja: a vida cristã não é a aventura de uma estação ou de um momento passageiro, mas um itinerário que, através de todas as etapas da vida, acompanha a existência do crente até à sua morte. Na Igreja, a vida espiritual é essencialmente vida de fé, esperança e caridade (cf. 1Pe 1,3.5.7.8), recorda a 2.ª leitura; o evangelho recorda a realidade frequentemente pobre e mísera das comunidades eclesiais: nelas há medos e fechamentos, abrandamentos e deserções, ausências e abandonos, mas são o lugar onde se faz presente o Ressuscitado
Um outro traço que liga as leituras é a alegria, também ela fruto da ressurreição de Cristo: alegria dos discípulos ao ver o Senhor (evangelho: cf. Jo 20,20); alegria dos cristãos que amam o Senhor e o seguem na fé, sem o ver (cf. 1Pe 1,8-9); felicidade que acompanha os crentes na sua vida quotidiana, em particular na partilha das refeições (cf. Act 2,46-47).
Se “o dia depois do sábado” (Jo 20,1) tinha começado com a visita ao sepulcro de MariaMadalena e a seguir com a corrida ao sepulcro dos dois discípulos que encontraram o túmulo vazio, agora é o Ressuscitado que visita o local onde se encontram os discípulos. Foram procurar Jesus onde pensavam que estava, Jesus vai ter com eles aonde eles se encontram.
O grupo dos discípulos reunido no isolamento de um local fechado, por medo, diz da possibilidade de uma vida eclesial dobrada sobre si mesma, dominada pela fobia do mundo externo e, portanto, incapaz de alguma iniciativa vital porque paralisada numa atitude defensiva. Neste caso, trata-se de uma comunidade cristã que deve ela própria ressuscitar. A presença do Ressuscitado cria uma comunidade em que reina a paz em vez do medo, a confiança em vez da desconfiança, a liberdade em vez da escravidão. E daí brota o dinamismo da missão.
Dom do Ressuscitado é a paz (Jo 20,19.21), que se torna dever e responsabilidade da Igreja. Enviado pelo Pai a trazer a paz aos homens (cf. Lc 2,14), Cristo envia agora os discípulos a continuarem a sua missão (cf. Jo 20,21). Confessar o Ressuscitado significa operar a paz, ou seja, praticar uma forma de comunicação na lógica da simpatia (cf. Act 2,47; 4,33) e não na lógica do confronto e da arrogância. Obviamente, para anunciar e operar a paz, é necessário que a Igreja a viva no seu interior, fazendo reinar aí a confiança e o perdão.
Tomé, ausente do grupo dos discípulos numa primeira vez e presente na segunda, tem por alcunha Dídimo, que significa “gémeo”, “duplo”. É um discípulo de Jesus, mas acima da fé faz prevalecer as suas pretensões, as suas condições; acima da confiança nos irmãos, os outros discípulos, faz prevalecer a dureza e a auto-suficiência; acima da objectividade e continuidade de presença no meio dos outros, faz prevalecer uma atitude singular e inconstante. Portanto, é figura representativa de duplicidade. Nele cada crente pode reconhecer as suas próprias ambiguidades e duplicidades na vida de fé, todas as formas com que nos defendemos do movimento de confiança e nos isolamos. Mas a fé cristã não é passível de ser vivida individualmente, como aventura isolada. A Tomé basta estar no meio dos irmãos para conseguir confessar o Ressuscitado (cf. Jo 20,28). De facto, onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, o Senhor está no meio deles (cf. Mt 18,20).

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas