Páscoa

IV domingo da Páscoa

mateus homem arcabas

Act 2,14a.36-41;

Sl 22,1-3a.3b-4.5.6;

1Pe 2,20b-25;

Jo 10,1-10

O IV domingo da Páscoa contempla o Ressuscitado como pastor da Igreja. O pastor indica ao rebanho o caminho a percorrer e o Cristo-Pastor indica à Igreja o caminho que ela deve seguir. Caminho que, segundo a 1.ª leitura, se chama conversão. “Convertei-vos” (Metanoésate: Act 2,38), responde Pedro às gentes de Jerusalém que lhe perguntavam “Que devemos fazer?” (Act 2,37). A actividade pastoral dos apóstolos suscita um itinerário que, a partir da escuta da palavra pregada e da fé, se desenrola em algumas etapas: conversão; baptismo; remissão dos pecados; efusão do Espírito. Tudo isto conduz à agregação à comunidade cristã (cf. Act 2,41). A 2.ª leitura mostra o modelo desse caminho de salvação: Cristo. O Cristo que sofreu a paixão e a morte deixa aos seus seguidores um traçado para que sigam as suas pisadas (cf. 1Pe 2,21). Assim, eles, como ovelhas antes perdidas, podem voltar para o seu pastor e guarda (cf. 1Pe 2,25). O evangelho reitera que Cristo é a porta através da qual deve passar o caminho do discípulo: trata-se de um caminho espiritual de escuta, seguimento e conhecimento do Senhor.
A revelação de Jesus como pastor torna-se também juízo de quem é ladrão, salteador, estranho. Enquanto o pastor Jesus veio para dar a vida e para que os homens tenham a vida em abundância, ladrões e salteadores vêm, pelo contrário, para “roubar, sacrificar [em algumas bíblias está traduzido como ‘matar’] e fazer perecer” (Jo 10,10). Destes Jesus diz “que vieram antes de mim”, mas isso não é tomado em sentido cronológico, quase como se se referisse a personagens da antiga aliança. Inácio de Antioquia compreendeu-o bem: “Cristo é a porta do Pai, através da qual entram Abraão, Isaac e Jacob, os profetas, os apóstolos e a Igreja” (Ai Filadelfesi IX,1). Trata-se, pelo contrário, dos falsos messias que se apresentam aos homens declarando a pretensão  de serem salvadores: mesmo que viessem depois (cronologicamente) em relação a Jesus, eles entrariam no rol dos usurpadores aqui mencionados. O critério distintivo que diz da autenticidade da missão está no subtrair para si ou dar, em levar morte ou levar vida. Em particular, é condenado o sacrificar: ou melhor, tirar vida em nome de Deus, servir-se das pessoas para fins religiosos até as aniquilar, usar o nome de Deus e a religião para praticar violência, tirar a liberdade às pessoas dando uma nova forma aos antigos sacrifícios humanos.
Ladrão e salteador é quem se arvora a dono do rebanho considerando “suas” as pessoas que pertencem a Cristo. O Salmo 99 recita: “Reconhecei que o Senhor é Deus, foi ele que nos fez e não nós, nós somos o seu povo e rebanho da sua pastagem” (Sl 99,3). Não nós, mas tu, Senhor; não eu, mas tu, Senhor. Esta confissão da nossa radical pobreza – não eu, mas tu – é também a condição da oração, o movimento da fé e do amor que nasce da revelação de que Jesus, o Cristo crussificado e ressuscitado, é o pastor das ovelhas.
Jesus define-se a si próprio como porta das ovelhas, isto é, para as ovelhas, não porta do recinto. O termo “recinto” é expresso em grego pelo vocábulo aulé que se refere normalmene não a um redil, mas ao vestíbulo diante do tabernáculo ou do templo (cf. Ex 27,9; 2Cr 6,13; 11,16; Ap 11,12). Ou melhor, a porta que introduz na comunhão com Deus não é o templo de Jerusalém, mas Cristo morto e ressuscitado. Se Cristo é a “porta” que conduz à salvação (Jo 10,9) e se a porta faz parte do edifício a que dá acesso, Jesus é ao mesmo tempo o mediador da salvação e a própria salvação. Jesus é o Caminho para o Pai, mas é igualmente a Vida (Jo 14,6): em Jesus encontramos a vida do Pai.
O pastor “faz sair” as suas ovelhas (Jo 10,3: Vulgata: educit). O pastor introduz num caminho de êxodo, portanto de libertação. Tarefa do pastor é  educar para a  liberdade. Ele chama pelo nome cada uma das suas ovelhas e educa-as conduzindo-as a viver no seu próprio nome. A educação  é o lugar da assumpção da responsabilidade em relação a quem vem depois de nós; é um dos aspectos do ministério pastoral.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas