Páscoa

V domingo da Páscoa

mateus homem arcabas

Act 6,1-7;

Sl 32,1-2.4-5.18-19;

1Pe 2,4-9;

Jo 14,1-12

O Cristo ressuscitado, que foi para o Pai (evangelho), é o fundamento do edifício espiritual que é a Igreja (2.ª leitura): é com referência a ele, com a oração que guia o discernimento, que os crentes enfrentam os problemas da comunidade cristã, procurando fazê-lo reinar sobre a vida da comunidade (1.ª leitura).
O Cristo que deixa os seus discípulos e sobe para o Pai pede-lhes (cf. Jo 14,1.10.11.12); a Igreja fundada sobre o Crucificado Ressuscitado é o conjunto dos crentes chamados a “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (1Pe 2,5): a referência é, sem dúvida, à liturgia, mas mais alargadamente ao culto na vida quotidiana, a fazer do quotidiano o lugar da adoração de Deus em que o crente oferece o seu próprio corpo em “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1); os problemas de organização da comunidade, que correriam o risco de sufocar o que é essencial na Igreja, devem ser resolvidos de modo a fazer sempre emergir o primado da Palavra de Deus e o seu serviço. A própria pregação deve estar enxertada na oração: “Que utilidade poderia ter uma pregação dissociada da oração? Em primeiro lugar vem a oração, e depois a palavra, como dizem os apóstolos: ‘Nós dedicamo-nos à oração e ao ministério da palavra (Act 6,4)” (João Crisóstomo).
Que o Cristo ressuscitado seja “pedra rejeitada pelos construtores, mas escolhida por Deus e tornada pedra angular” (1Pe 2,7; cf. Sl 118,22) é importante para aqueles que se encontram a viver “vidas de refugo” (Zygmunt Bauman), a ser rejeitados para as margens da sociedade ou do mundo ou do seu grupo ou da Igreja. Deus escolhe o que no mundo é desprezado e insignificante, escolhe “o lixo do mundo” (1Cor 4,12) para confundir os construtores do mundo e as suas construções, que se regem por critérios de eficiência e produtividade, que exigem conformismo e homologação, que querem que as pedras estejam mortas e não vivas. Uma pedra viva, eco fiel do Crucificado Ressuscitado, é um oxímoro intolerável para a racionalidade mundana e precisa de ser descartada.
O evangelho apresenta o adeus de Jesus aos seus. O adeus é a última despedida que acontece entre quem parte para sempre e quem fica. Mas o adeus, e mais ainda o adeus proferido por Jesus, é também uma promessa: ad Deum. Com o a-Deus, o futuro, próprio e dos outros, é posto em Deus. Jesus, que sempre viveu as suas relações no a-Deus, isto é, perante Deus e para Deus, põe aí também o seu futuro. Que é igualmente o futuro de quem é “seu”, de quem “crê nele” (cf. Jo 14,12). De facto, o Filho está no Pai e o Pai está no Filho (cf. Jo 14,10), e o discípulo que permanece no Filho (cf. Jo 15,1-7), permanece também no Pai (cf. 1Jo 2,24). Se o a-Deus for entendido assim, então todas as nossas relações deveriam permanecer sob este signo, isto é, sob o signo da abertura e da invocação ao Outro que salva as relações com os outros dos riscos do absolutismo, da tirania, da violência.
Depois de ter anunciado a sua partida, Jesus deu aos discípulos o mandamento do amor (cf. Jo 13,33-34) e agora pede-lhes para terem e para não se perturbarem (cf. Jo 14,1). Perante uma separação experimenta-se dor pela pessoa que parte, mas também desânimo e ansiedade pelo futuro próprio e da sua comunidade, que tinha uma ligação vital à presença que deixou de existir. A partida de Jesus é crise para a comunidade dos seus discípulos. E a perturbação do coração não respeita apenas à esfera emotiva e dos sentimentos, mas indica igualmente que a vontade e a capacidade de tomar decisões estão paralisadas, a inteligência e o discernimento turvos. Jesus, com as suas palavras, está a fazer da sua partida e do vazio que deixa uma ocasião de renascimento dos seus discípulos. Pedindo fé, instiga-os a transformar o medo da novidade e o terror do abandono em coragem de dar-se, apoiando-se no Senhor; prometendo que vai preparar um lugar para eles, ele vive a sua partida em relação com quem fica e mostra que não está a abandoná-los, mas a inaugurar uma nova fase, diferente, de relação com eles. A separação tem em vista um novo acolhimento (cf. Jo 14,2-3).

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas