Páscoa

VI domingo da Páscoa

mateus homem arcabas

Act 8,5-8.14-17;

Sl 65,1-3a.4-5.6-7a.16.-20;

1Pe 3,15-18;

Jo 14,15-21

Antes de passar deste mundo ao Pai, Jesus promete aos seus discípulos o dom do Espírito, do Paráclito, isto é, do advogado de defesa que protegerá os próprios discípulos na luta que deverão travar num mundo hostil (evangelho); este Espírito guia a presença cristã no mundo pela via da mansidão e do respeito pelos “outros”, os não crentes (2.ª leitura), e acompanha a pregação dos apóstolos que dá vida a novas comunidades cristãs (1.ª leitura).
Do acontecimento pascal brota a esperança como responsabilidade dos cristãos. Por isso, os cristãos devem estar “sempre prontos a responder a quem quer que lhes pergunte a razão dela” (1Pe 3,15). “Sempre”, portanto em todo o âmbito e momento da vida; “a quem quer que”, portanto não a uns sim e a outros não, mas a todos. Além disso, sobre ela os cristãos devem “responder”, ou seja, tornar-se responsáveis: é o testemunho que só eles podem dar ao mundo. Quem pede contas da esperança, pede também que lha contem: ao longo dos tempos, cabe aos cristãos serem narradores de esperança. Ainda antes de ser em relação aos homens, a esperança é responsabilidade do cristão em relação a Deus, é resposta Àquele que o chamou à fé e à esperança: a “esperança do chamamento” (Ef 1,18) é a esperança aberta pelo chamamento divino em Cristo Jesus. A esperança cristã como responsabilidade situa-se, portanto, entre chamamento de Deus e demanda dos homens: é responsabilidade única e dupla ao mesmo tempo, como o mandamento de amar a Deus e ao próximo é duplo e único ao mesmo tempo (cf. Mt 22,34-40; Mc 12,28-34; Lc 10,25-28).
O nascimento da Igreja na Samaria procede do anúncio de Cristo (“Filipe anunciou-lhes Cristo”: Act 8,5) e da descida do Espírito (“Pedro e João impuseram-lhes as mãos e eles receberam o Espírito Santo”: Act 8,17). A relação de colaboração e confiança entre a Igreja-mãe de Jerusalém (cf. Act 8,14) e a comunidade nascente na Samaria diz como a palavra do Evangelho e o Espírito Santo superam as barreiras culturais e as separações étnicas, as divisões religiosas e os ódios atávicos: entre Judeus e Samaritanos, de facto, não havia relações (cf. Jo 4,9), na sequência de uma história já antiga que projectava no tempo os seus efeitos de incomunicabilidade. Os frutos da ressurreição medem-se também nesta capacidade de superar as rivalidade anteriores, encontrando unidade e comunhão em Cristo.
O evangelho apresenta a promessa do dom do Espírito da parte de Jesus, mas também a promessa da sua vinda: “Regressarei para junto de vós” (lit., “voltarei a vós”: Jo 14,18). A oração cristã, que acontece sempre no Espírito e em Cristo, será também sempre invocação do Espírito, epiclesi, e invocação da vinda gloriosa do Senhor, Marana tha. Ou seja, haverá sempre uma conotação escatológica determinante. Cristo, além disso, promete igualmente a sua intercessão, a sua prece ao Pai pelos discípulos (“Eu rogarei ao Pai e ele vos dará um outro Paráclito”: Jo 14,16), e esta prece de Jesus é o espaço dentro do qual acontece toda a oração cristã.
O Espírito que Jesus promete estará no discípulo (cf. Jo 14,17) tornando-se princípio de vida interior e interiorizando nele a presença de Cristo. A sequência de Pentecostes canta o Espírito como dulcis hospes animae [doce hóspede da alma] (e também consolator optime, dulce refrigerium [consolador perfeito, doce alívio]). A doçura e a ternura que foram de Cristo são igualmente do Espírito, que muitas vezes na tradição foi evocado com imagens maternais. A acção do Espírito no crente é criar nele uma fonte de vida para os outros, ou melhor, fazer dele um espaço de vida para os outros, capaz de gerar e dar vida. O Espírito, que é promessa e dom do Ressuscitado, é também ternura maternal. E quando ensina o cristão a rezar, fá-lo tal como uma mãe: “O Espírito Santo ensina-nos a gritar ‘Abbà’, comportando-se como uma mãe que ensina o seu filho a chamar ‘pai’ e repete esse nome com ele até lhe incutir o hábito de chamar o pai mesmo a dormir” (Diadoco di Fotica).

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas