Tempo Comum

XVII Domingo

mateus homem arcabas

1Rs 3,5.7-12;

Sl 118,57.-72.76-77.127-128.129-130;

Rm 8,28-30;

Mt 13,44-52

A sabedoria faz a unidade entre 1.ª leitura e evangelho. Sabedoria de Salomão que se exprime na sua oração, no seu pedido a Deus de um coração capaz de escutar, ou seja, do discernimento para julgar e governar; sabedoria de Jesus que se manifesta no seu falar em parábolas, mas também sabedoria dos protagonistas das parábolas do tesouro e da pérola (cf. Mt 13,44-45), que se manifesta no seu discernimento e na pronta decisão, e por fim, sabedoria do “escriba tornado discípulo do Reino que tira do seu tesouro coisas novas e coisas antigas” (Mt 13,52). A sabedoria não é maniqueísta, não elimina o antigo em exclusivo favor do novo e não fica obstinadamente presa ao antigo por temor do novo, mas faz do novo a reinterpretação do antigo e do antigo o fundamento do novo.
A sabedoria é a arte de orientar-se na vida, a arte de dirigir o leme da barca: “o homem sábio segurará o leme com firmeza” (Pr 1,5 – LXX). É a arte do barqueiro, de quem governa, de quem instrui. Mas é acima de tudo a arte de quem governa a sua própria vida. Arte que se obtém mediante o difícil conhecimento de si: “o verdadeiro início para crescer em virtude é conhecer-se a si próprio. Aquele que se conhece é o único dono de si mesmo e, sem ter um reino, é verdadeiramente rei” (Pierre de Ronsard). É a arte de que, na confusão e desorientação em que vivemos, temos grande necessidade.
“Tu o tesouro, Tu a pérola preciosa; ó Senhor, Tu encontraste-me, não fui eu que Te achei; Tu conquistaste-me e agarraste-me, não fui eu que Te adquiri; ó meu Tu, eu sou teu.” Esta antiga invocação sugere que o verdadeiro sujeito das parábolas de Mt 13,44-46 não é o comerciante que adquiriu a pérola, nem o lavrador que adquiriu o campo que antes tinha lavrado, mas o próprio tesouro, a pérola preciosa: essa é a luz que dá novo sentido e orientação à vida e em nome e à vista da qual se pode vender tudo, abandonar tudo.
Pode-se deixar tudo na alegria. A radicalidade cristã é autêntica se tem o selo da alegria. Mais, a alegria é constitutiva de tal radicalidade, porque esta é vivida como graça e numa renovação quotidiana de gratidão. Estamos gratos por nos sentirmos na alegria.
A experiência de quem encontra o tesouro e vende tudo por ele é na realidade a experiência de quem ouve a Palavra de Deus que lhe diz: “Tu és precioso aos meus olhos e eu amo-te; eu entrego populações e nações em troca de ti” (Is 43,4). É este amor o segredo da alegria da radicalidade de uma vida cristã, é este amor o bem precioso a proteger e salvaguardar, é este amor do Senhor e pelo Senhor que pode renovar vidas tentadas por envelhecimento, cansaço, insensibilidade, cinismo, indiferença. A nós, que na oração dizemos ao Senhor “És tu o meu Senhor, não há nenhum bem para mim além de ti” e “Tu és o meu único bem” (Sl 16,2), e ainda “Em ti, ó Deus, se alegra o meu coração, exulta o meu íntimo (Sl 16,9), é pedido que nos punhamos à prova para saber se Cristo habita em nós (cf. 2Cor 13,5). E isto porque nós habitamos lá, onde está o nosso tesouro: é o tesouro que nos assenta, que nos situa. Se Cristo habita em nós, nós habitamos em Cristo e então podemos gozar de alegria indizível no caminho para o Reino. Trata-se apenas de redescobrir cada dia a preciosidade do dom recebido, combatendo a tentação do banal, do adquirido, do “tudo é devido”.
Tanto o homem que encontrou o tesouro no campo como o negociante que encontrou a pérola de grande valor têm algo em comum, no seu agir corajoso, talvez mesmo louco e pouco prudente (vender tudo para adquirir uma só coisa), de ousarem a sua própria alegria. A preciosidade de uma coisa e de uma pessoa é relativa à alegria que suscita em nós. A escolha dos dois protagonistas das parábolas, tão parecida com a radicalidade cristã (cf. Mt 19,21: “Vende os teus bens e dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos céus, depois vem e segue-me”), acontece na alegria proporcionada pela descoberta, prossegue na alegria de aquirir o bem precioso, e guarda na alegria até o momento da venda de tudo, da privação daquilo que se possuía. Mas, sobretudo, é promessa de alegria também para o futuro. Bem diferente do que aconteceu ao jovem rico que fica na tristeza (cf. Mt 19,22).

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas