Festa

6 de Agosto, Transfiguração do Senhor

mateus homem arcabas

Dn 7,9-10.13-14;

Sl 96,1-2.5-6.9;

2Pt 1,16-19;

Mt 17,1-9

A Transfiguração como síntese da história da salvação: ela retoma e condensa a história de Deus com Israel e a humanidade, anuncia a ressurreição e profetiza  vinda gloriosa do Senhor. A visão apocalíptica de Daniel, o testemunho da 1.ª carta de Pedro e a narração do evangelho convergem para esta revelação.
É sobre um “alto monte” que Jesus é transfigurado. No evangelho segundo Mateus, o “monte” tem um valor simbólico que faz dele o lugar por excelência da revelação de Jesus e o lugar onde se manifesta que a sua pessoa é comunhão com Deus e com os homens. Com Deus, como se vê pelo monte onde Jesus vence a tentação salvaguardando a comunhão com Deus mediante a obediência à Escritura (cf. Mt 4,8-11), pelo monte a que sobe para se retirar a rezar (cf. Mt 14,23), pelo monte onde o Ressuscitado proclama a sua plena comunhão com Aquele que lhe deu todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Com os homens, como se vê pelo monte de onde Jesus prega a palavra do Reino às multidões (cf. Mt 5,1), onde realiza curas e dá pão em solidariedade com as gentes necessitadas (cf. Mt 15,29-39), onde o Ressuscitado afirma a sua comunhão com os discípulos, todos os dias  até ao fim do mundo (cf. Mt 28,20). No monte da Transfiguração os dois aspectos da comunhão vivida por Jesus estão estreitamente ligados: a luminosidade do seu rosto diz da sua intimidade com Deus que “é luz” (1Jo 1,5); e a visão gloriosa de Moisés e Elias por parte dos discípulos, assim como a escuta da Palavra de Deus expressamente dirigida a eles (cf. Mt 17,3.5), exprimem a inclusão dos discípulos naquela experiência de comunhão.
Mas, sobretudo, no monte da Tranfiguração é visível que o lugar onde Jesus mora é a relação com Deus que encontra na assiduidade às Escrituras o seu momento privilegiado. O monte não é lugar de fuga da realidade e das suas fadigas, mas antes lugar que permite atravessar a vida e a realidade de maneira fecunda. No monte da Tranfiguração não há a manifestação de um semideus, de um herói, mas a revelação de que Jesus é um Filho obediente ao Pai através da escuta das Escrituras. Jesus poderá descer do monte e prosseguir o seu caminho para Jerusalém graças à força que lhe vem da relação que ele vive constantemente com o Pai e da esperança e consolação que lhe vêm das Escrituras.
Quando Pedro afirma a sua vontade de erguer três tendas, para Jesus, Moisés e Elias, não compreende que a visão que tem diante de si é para ele e para os outros discípulos e, atrás deles, para todos os crentes de todos os tempos. Conduzindo-os para o cimo do monte, Jesus indicou-lhes, a eles e a nós, o lugar alto e outro em que há que entrar para perseverar no caminho da vida e da fé até ao fim: a relação com o Pai.
A Transfiguração é experiência pessoal de Jesus, mas não é solitária: ele inclui nela Pedro, Tiago e João. Trata-se também de uma esperiência de comunicação. E de comunicação de uma realidade íntima, pessoalíssima, que tem a ver com a identidade de Jesus. Jesus opera uma revelação de si, um despojamento, uma entrega de qualquer  coisa de profundo que lhe diz respeito na unicidade do seu ser. A comunicação que acontece no Tabor requer, por conseguinte, pudor. E assim, ela desenrola-se perante três testemunhas apenas, não diante de todos os discípulos, mas só daqueles com quem Jesus tinha maior intimidade e amizade. Também no Getsémani, único outro momento em que Mateus regista a presença dos três discípulos, Jesus abre o coração à comunicação de experiências profundas e íntimas: medo, tristeza perante a morte, desejo de uma presença próxima e amiga (cf. Mt 26,36-38). Em suma, se a Transfiguração é experiência de comunhão entre o céu e terra, entre Deus e o homem, entre antiga e nova alianças, não se deve esquecer que ela acontece no contexto de uma humaníssima comunhão que tem o nome de amizade.
A palavra que desce do alto, “Escutai-o” (Mt 17,5), não diz respeito apenas a uma mensagem ou a palavras. Trata-se de escutá-lo a Ele, a pessoa de Jesus, “Jesus e mais ninguém” (Mt 17,8), entrando num movimento de comunhão, de conhecimento, de diálogo pessoalíssimo e indescritível.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas