Hospitalidade: convite e dom recíproco

Manuela Silva

Abril 2017

Antes de tudo, manter a porta aberta. A tenda de Abraão não tem chaves para fechá-la, mas portas que abrem.

(Marco Dal Corso)

Vivemos tempoafricas difíceis, em que se misturam e interagem a exaltação e o júbilo próprios das grandes descobertas e inovações e o temor e a insegurança inerentes aos  riscos de uma economia disruptiva, uma globalização e financeirização sem regras que, cada vez mais, comandam a nossa vida, a que acresce uma guerra aos pedaços, como lhe chamou o Papa Francisco.
São tempos de crise ecnómica, social e políitca que exigem que repensemos, pessoal e colectivamente, os fundamentos em que alicerçamos as nossas crenças, os nossos valores, a nossa identidade e cultura, para deles impregnarmos as nossas instituições e os nossos modos de agir e de conviver.
Entre outros desafios, nestes tempos ruins, não podemos ignorar as grandes movimentações de refugiados que procuram encontar na Europa um lugar seguro para as suas vidas. Por razões distintas, mas não menos sérias, existe também grande número de migrantes de diferentes latitudes e culturas que pretendem viver nos países europeus de maior prosperidade. E, mesmo entre os cidadãos de um mesmo País, há pessoas excluidas e marginalizadas que carecem de reconhecimento da sua alteridade e de inclusão social.
É neste contexto que precisamos de revisitar o conceito de hospitalidade e o lugar que esta ocupa na nossa cultura e espiritualidade.
A hospitalidade tem longínquas reminiscências na cultura de muitos povos e, designadamente, na cultura ocidental pela sua matriz grega e judaico-cristã. Prende-se com o reconhecimento da alteridade do outro e, simultaneamente, com a convivialidade, necessária e valorizada, associada à reciprocidade do dar e receber e à construção da paz..
A alteridade do outro traz consigo os medos intrínsecos ao diferente: a ameaça de invasão da minha privacidade, a possível privação material ou imaterial, a expulsão da minha zona de conforto, e, no limite, o medo da morte do eu, pelo risco, real, da sua dissolução no outro.
 Não por acaso, hóspede e hostil são palavras com a mesma raíz semântica.
O gesto primeiro da hospitalidade, tanto por parte do hospedeiro como do hóspede, consiste, pois, em afastar a hostilidade latente face ao estrangeiro e superar os preconceitos ideológicos, étnicos, religiosos e outros que alimentam a desconfiança e o sentimento de ameaça.
Por outro lado, não basta proporcionar alimento e tecto a quem de novo chega, ou mesmo providenciar-lhe trabalho e modo de vida. A verdadeira hospitalidade supõe um interagir, uma reciprocidade, uma aliança baseada no respeito mútuo. Esta, por sua vez, implica não só que seja aceite a diferença de quem é acolhido, mas também que o acolhido respeite os códigos culturais próprios da sociedade que o acolhe.
Nem sempre este princípio básico é tido na devida conta, o que explica, pelo menos  em parte, a  hostilidade contra migrantes e refugiados, um sentimento latente ou manifesto nos países de acolhimento e que, presentemente, tem perigosos reflexos na respectiva política interna.
Ao invés, o bom entendimento do princípio da hospitalidade e a sua adequada concretização no plano pessoal e colectivo abrem a porta à construção de uma outra comunidade global mais capaz de superar as actuais tensões e conflitos nas relações cconómicas, políticas e  religiosas com que hoje nos confrontamos.
Para lograr um bom entendimento da hospitalidade e da sua urgência como vector condutor a uma paz sustentável, Marco Dal Corso remete para o pensamento bíblico (que vai para além da identidade racional do pensamento grego!) porque o mesmo está centrado no ser e no convite a tornarmo-nos na nossa essência (torna-te aquilo que és). O apelo bíblico é de facto um apelo à responsabilidade onde a identidade se constrói no ser para o outro. Assim sendo, a hospitalidade não ficará apenas na dependência de quaisquer jogos de poder ou equlíbrios de geo-estratégia política, mas é uma categoria fundante da fé e da vida do crente.
A terminar, respigo do artigo de Marco Dal Corso alguns corolários importantes que merecem a nossa reflexão e discernimento:
- A hospitalidade não é, segundo a lógica bíblica, uma exortação moral, mas uma característica fundante da crença.
 - A hospitalidade é, em qualquer caso, um imperativo ético, não jurídico,( …) que coloca o amor ao próximo como critério para julgar a lei.
 - O mandamento bíblico para a hospitalidade é um convite e não uma obrigação.
- O dever da hospitalidade não é baseado no estatuto do crente, mas no direito do pobre.
A propósito da hospitalidade e da actualidade de a entender como categoria fundante da nossa cultura e, por conseguinte, do correspondente agir político, vale apena reler a passagem bíblica de Gen 18 e revisitar o exemplo paradigmático de Abraão: A tenda de Abraão não tem chaves para fechá-la, mas portas que abrem.

Imagem: Menino com sede - de: A Bruna em África. 2017