Prolongar a alegria pascal

Manuela Silva

Maio 2017

Deixemos que o espanto alegre do Domingo de Páscoa irradie nos pensamentos, nos olhares, nas atitudes, nos gestos e nas palavras.

(Papa Francisco, 2017)

papa francisco risoUma das pobrezas do nosso tempo é o défice de atenção que dedicamos à duração das coisas, dos acontecimentos, dos sentimentos, dos aniversários, dos encontros, etc. Passamos, sem transição, de uma situação a outra, sem que tenhamos, sequer, recolhido os frutos da primeira, seja no caso do sofrimento seja da alegria. Corremos, assim, o grande risco de ver grassar uma apatia generalizada, uma indiferença doentia, uma alienação redutora face à Vida. Ao invés, a liturgia cristã constitui um bom antídoto para este mal social, na medida em que privilegia o tempo longo das celebrações, o antes e o depois.
A alegria pascal, por exemplo, permeia toda a liturgia durante cinquenta dias a seguir à Páscoa, convidando os cristãos a viver nos seus quotidianos a alegria que decorre da fé no Ressuscitado e no seguimento do seu testemunho. Lembram-se acontecimentos passados, mas, sobretudo, procura-se iluminar os desafios do presente com o fogo novo do Espírito, sempre actuante na vida de cada pessoa e da sociedade.
Como prolongar a alegria da Páscoa, se temos, hoje, muitas razões para temer o presente e o futuro próximo?
 Refiro algumas que não podemos ignorar ou subestimar, com a desculpa narcisista de que a elas nos podemos esquivar:
•    São cada vez mais sonoras as ameaças à paz mundial e nada augura de bom a exibição de uma pseudo competitividade que se instalou entre o poder de destruição detido e em prontidão de uso por parte de algumas potências militares. Paira no ar uma ameaça, que deve ser levada a sério, de um conflito mundial de grandes proporções.
•    A revolução tecnológica em curso pode trazer consigo o agravamento de conflitos sociais latentes que sempre emergem quando, como é o caso, as desigualdades se avolumam e o cidadão comum receia, justamente, não vir a ter oportunidade de beneficiar dos aspectos positivos da inovação, mas vai ter de sofrer as suas consequências mais negativas, como sejam o desemprego estrutural ou o seu descarte precoce do sistema produtivo, com o que tal comporta de perda de rendimento, de estatuto social e de participação na sociedade.
•    O avanço da biotecnologia, que prosseguindo a ritmo vertiginoso mas à margem da Ética, comporta riscos incalculáveis em toda a cadeia da vida, incluindo consequências para a espécie humana quanto à duração média da vida e às mutações genéticas, por efeito da manipulação dos mais variados genes que afectam o conhecimento, o metabolismo das emoções e a própria consciência.
•    Também a digitalização galopante que conhecemos e a concentração de dados abre portas a indesejáveis controlos da liberdade individual e propicia o surgimento de quadros políticos autoritários com riscos para a sustentabilidade da democracia.
•    De ter em conta, ainda, outras ameaças conhecidas, como sejam, as alterações climáticas, o terrorismo, a proliferação das armas, a concentração urbana, os gigantescos fluxos migratórios, a corrupção de grande escala, a financeirização da economia e das sociedades, etc.
Face às amplas e profundas mutações em curso, há razões objectivas para que o medo se instale, tome conta dos nossos pensamentos e condicione as nossas opções, dando origem a atitudes e comportamentos tendencialmente mais egoístas, reduzindo a nossa abertura ao outro e às suas necessidades, aspirações e direitos e debilitando a nossa capacidade de compaixão perante o sofrimento alheio e de solidariedade na viabilização do bem comum. O medo paralisa!
Todavia, não tem que ser assim: o medo pode incentivar-nos a que geremos respostas novas que se traduzam em atitudes, comportamentos e actos de libertação de velhas cadeias opressivas, mediante a superação de alguns mitos, a busca de sabedorias mais libertadoras, o reforço dos laços familiares e afectivos, o desenvolvimento de novas redes de solidariedade, a invenção de estilos de vida mais harmoniosos e saudáveis, etc.
A experiência diz-nos que, se o medo paralisa, o medo também liberta novas energias e abre portas à criatividade!
Neste contexto, regresso à proposta: como prolongar a alegria pascal?
Prolongar a alegria pascal é procurar traduzir nos nossos quotidianos a fé no Cristo Ressuscitado, que nos impele a vencer o medo que paralisa e ousar fazer a passagem para uma nova clave: a do medo que liberta.
Hoje, mais do que nunca, precisamos deixar ecoar no nosso coração a recomendação que o Ressuscitado faz a Maria Madalena quando esta, no auge da sua desolação, depara com o vazio do túmulo: Chama-a pelo seu nome familiar (Maria!) e assim lhe restaura a confiança e a alegria, que a libertam do medo, e a tornam capaz da missão de anunciar que o Cristo está vivo.
Prolongar a alegria pascal coloca-nos no caminho certo para nos libertarmos dos medos que nos paralisam e, assim, nos fortalecer o ânimo para, mais ousadamente, participarmos no anúncio da Boa Nova.
Um anúncio por palavras e, sobretudo, com o testemunho das nossas opções e das nossas obras. Talvez um olhar mais contemplativo e menos autocentrado, um conselho oportuno, uma manifestação de interesse e de reconhecimento do colega de trabalho, um travão no hábito do mal-dizer e no queixume vicioso, uma ajuda discreta, uma prática mais responsável pelo ambiente, um amor mais vigilante e construtivo, a prática da evidência do bem e da virtude, o empenho na luta pela justiça e a paz.

Imagem: Papa Francisco - Roma 2017