Em louvor da Fraternidade

Manuela Silva

Junho 2017

… a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura..

(Papa Francisco – Fraternidade, fundamento e caminho para a paz, Mensagem para o dia mundial da paz 2014)

Amici WMiller 1944Temos muitas e sólidas razões para reconhecer que somos parte integrante de uma mesma Humanidade sujeita a ameaças e riscos comuns.
Hoje, são frágeis as fronteiras geográficas que pretendem delimitar os territórios e preservar a sua identidade. É cada vez maior a mobilidade de pessoas e de bens a nível mundial e, consequentemente, a interacção entre pessoas e povos com distintos interesses, objectivos e culturas. São, praticamente, inexistentes as barreiras à circulação da informação e do capital. Temos o Mundo como “casa comum” e quanto aí ocorre, directa ou indirectamente, deixa marcas na Humanidade.
Esta nova realidade torna, cada vez mais difícil, a regulação dos vários sistemas que subjazem à sustentação e ao desenvolvimento da Vida, ampliando a sua complexidade e exposição ao stress e ao caos. (Cf Mohamed el-Erian, economista de renome nos mercados financeiros, consultor do Presidente Obama).
 Acontecimentos recentes confirmam esta afirmação. Penso, por exemplo, nos últimos ataques de pirataria informática com consequências de grande magnitude em empresas e sectores-chave de mais de uma centena e meia de países, sem que se vislumbrem soluções para os punir e evitar. Tenho, igualmente, presente, que nos espreita uma persistente ameaça nuclear de proporções incalculáveis. Recordo o recrudescimento dos populismos e o que tais movimentos podem implicar de desestabilidade e de caos na vida das sociedades. Tão pouco ignoro as disfuncionalidades estruturais do sistema financeiro e as suas crises recentes, ainda não inteiramente solucionadas. Importa, por último, não silenciar nunca a pobreza que grassa à escala mundial e a crise ambiental generalizada, considerando-as como armadilhas permanentes a uma desejável ecologia integral.
A globalização abriu caminho a maior progresso material, inovação tecnológica e conhecimento, mas gerou, concomitantemente, uma globalização da indiferença que encontrou terreno fértil num individualismo exacerbado, não raro alimentado no seio das próprias famílias, na escola e nas empresas, quando, nessas várias instâncias de proximidade, era suposto que se aprendesse a viver em comum, no reconhecimento da dignidade da pessoa humana, no respeito pelo outro e pelos seus direitos, na responsabilidade pela prossecução do bem comum. Em suma: A globalização torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos, como bem lembra Bento XVI (Caritas in Veritate).
Face a tal contexto, precisamos de tomar maior consciência do valor intemporal da fraternidade, aprofundá-lo e dar-lhe a devida abrangência tendo em conta a realidade do século XXI.
Importa, igualmente, afirmá-lo no espaço público.
As graves situações de desigualdade, pobreza e injustiça na repartição da riqueza e do rendimento, que hoje não podemos ignorar, exigem que o princípio da fraternidade vá a par com a solidariedade efectiva, plasmável nas instituições e nas políticas públicas, tanto no âmbito nacional como mundial.
É no âmago da tradição cristã fundada no Evangelho que vamos encontrar o alicerce da vocação de fraternidade a que todo o ser humano é convidado. Como escreveu o Papa Francisco, na sua mensagem para o dia mundial da Paz de 2014: A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha activa.
Atenta aos sinais dos tempos, a Igreja, de muitas maneiras e, designadamente, através do seu magistério, vem repetidamente lembrando que a fraternidade é uma premissa para vencer a pobreza e a desigualdade, é geradora da indispensável coesão social, abre caminho ao exercício da liberdade e da harmonia, incentiva a responsabilidade na relação com os outros, com os bens materiais, com as futuras gerações, vence a tendência para o egoísmo individual e predador, é fundamento e caminho para a paz.
Concluo com palavras do Papa Francisco: Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas só o amor dado por Deus é que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.

Fotografia: Amici in Napoli Wayne F. Miller. Itália.1944