Quem quer a verdade tem de entrar na água

Manuela Silva

Setembro 2017

Há uma tendência muito perigosa de aceitar tudo o que se diz, tudo o que se lê, de aceitar sem colocar em discussão. E, ao contrário, só quem está pronto a pôr em discussão, a pensar autonomamente, encontrará a verdade. Para conhecer as correntes do rio, quem quer a verdade tem de entrar na água. (Nisargadatta Maharaj)

paper boatAs recentes calamidades, que nos têm tão duramente atingido nos últimos meses, deixaram, nas pessoas e na nossa sociedade em geral, compreensivas marcas de tristeza, raiva e desânimo, que vêm somar-se ao desconforto de nos sabermos fazendo parte de uma mudança radical em curso no plano tecnológico, antropológico e geo-estratégico, de contornos indefinidos, com consequências imprevisíveis e, aparentemente, fora da nossa capacidade de agir no imediato.
Refiro-me às perdas em vidas humanas, animais e bens materiais irrecuperáveis, devido ao fogo que, durante todo o verão, lavrou em boa parte do território nacional. Tão pouco podemos esquecer que a própria natureza sai ferida por causa destas calamidades: espécies animais e vegetais dizimadas, paisagens que ficarão enegrecidas por muito tempo, antes que a sua regeneração possa acontecer, fumos que se espalharam e contaminaram o ar e a água, espaços habitacionais que ficaram em ruínas…
Lembro também a tragédia ocorrida na Madeira por queda de uma árvore de grande porte e as mortes ocorridas em pleno dia que amanhecera para ser de celebração e festa.
Mais recentemente fomos surpreendidos por um brutal atentado terrorista de grandes dimensões, perpetrado no País vizinho e ficamos a saber que actos de violência análogos estavam em preparação para serem levados a cabo em distintos locais.
Às vítimas deixo uma palavra de solidariedade e compaixão, que brota da minha convicção profunda de que nós, os humanos, somos seres de relação e cada pessoa é, na sua singularidade, parte indissociável de um Nós (os outros humanos, as demais criaturas, o cosmos).
A quantos se empenharam em prestar socorro e minimizar os estragos dirijo o meu reconhecimento e louvor. A sua generosidade e empenho em bem servir a comunidade merecem ser lembrados e enaltecidos como testemunho de vida dada ao serviço da Vida.
E agora?
Diante da evidência da tragédia, ergue-se, por via de regra, a montanha dos porquês e não é, pois, de admirar que assim suceda quando regressamos aos nossos quotidianos.
Por que há fogos intencionalmente provocados por mão humana? Com que móbeis? Com que interesses? Com que consequências para os prevaricadores directos e indirectos? Que medidas para os evitar? Que recursos para os combater?
Por que cai uma árvore de grande porte sem que um raio ou um vendaval a tenha derrubado? Por que foi aquela árvore e não outras de porte e longevidade análogos? Por que não foi prevista e evitada esta ocorrência? Por que se juntam multidões em espaços inseguros?
Por que sucedem estes actos de violência e terror dirigidos a pessoas indefesas?
Por uma via ou outra, a resposta a estes porquês remete-nos, não só mas também, para a necessidade de nos interrogarmos acerca do nosso modo de viver, no plano pessoal e colectivo e, mais profundamente, do sentido que damos à nossa própria vida.
Se há calamidades que temos de atribuir a causas naturais (o cosmos tem suas leis e o planeta Terra não é excepção!), a maior parte das vezes as calamidades resultam, directa ou indirectamente, dos próprios humanos, do sentido que damos à vida, do modo como nos relacionamos com os nossos semelhantes e demais criaturas, do modo como produzimos, consumismos e acumulamos, dos modelos como nos organizamos em sociedade e das opções que vamos fazendo, dos valores que cultivamos e transmitimos às gerações futuras.
Para enfrentar estes porquês, aponto três pistas de reflexão que partilho com quem segue, com a sua leitura, estes escritos mensais, na expectativa de que estas sugestões sirvam para alimentar a salutar prática da conversa que visa a conversão e a mudança.
• Precisamos de cair na conta que deixamos crescer demasiadamente a árvore do individualismo, da solidão, do descaso e da irresponsabilidade e que estes sentimentos abrigam o número dos que, tendo perdido laços com uma família e comunidade, porque não têm afecto, nem emprego, nem reconhecimento, se deixam dominar por adições várias e são presa fácil dos seus distúrbios e de quem deles se aproveita para levar por diante os seus maus intentos, a troco de umas tantas moedas.
• Temos de dar mais atenção aos critérios com que devem ser utilizados os solos e às leis que os regem, à responsabilidade dos seus proprietários pela sua correcta conservação e exploração, às regras de implantação das habitações e seus aglomerados, sua acessibilidade e segurança, à manutenção das estradas principais, incluindo a indispensável limpeza das respectivas bermas, aos recursos humanos, financeiros e de organização que governos e autarquias devem investir na prevenção das causas e na superação das consequências deste tipo de ocorrências, aos programas de educação das novas gerações e à qualidade das nossas escolas como lugares de inclusão, ao combate severo da criminalidade, à promoção do emprego e da inserção social, à qualidade da cultura geral difundida pelos media, ao desenvolvimento de atitudes e comportamentos cívicos e de solidariedade por parte da generalidade da população.
• É imperioso que olhemos atentamente para o sentido de vida que cultivamos e imprimimos nas nossas instituições, nas empresas, nos partidos políticos ou nos clubes, admitir que crescimento e competitividade não significam o mesmo que bem-estar e qualidade de vida, que o consumismo não traz plenitude, que o stress conduz a excessos vários e a dependências múltiplas com os seus correspondentes malefícios, que a ambição do mais ter conflitua com a aspiração profunda da alma humana a mais ser, que o egoísmo exclui e mata a raiz da comunhão, que o materialismo prático abafa a beleza e a alegria da contemplação e faz germinar o vazio no coração humano.
Diante das tragédias que nos assolaram, não devemos passar indiferentes ou resignar-nos a uma pretensa fatalidade. Também não basta que nos indignemos ou critiquemos a inoperância e a irresponsabilidade dos outros. Tão pouco podemos limitar-nos a expressar solidariedade e prestar ajuda pontual, por mais valiosas que estas atitudes sejam. Importa ir mais além, não deixando morrer a oportunidade de reflectir sobre o sucedido e ousar retirar as devidas conclusões para um agir consequente. Isto é com todos, governantes, autarcas, líderes políticos, intelectuais e cidadãos em geral.
A concluir, deixo a pergunta: Estamos disponíveis para procurar e aceitar a verdade e para mudar o que tem de ser corrigido? Aceitamos que para conhecer as correntes do rio, quem quer a verdade tem de entrar na água?

Imagem: Paper Boat - Diana Yang. 2017