A solidão é uma epidemia social do nosso tempo

Manuela Silva

Outubro 2017

Há uma epidemia social de solidão que mata mais do que o tabaco e a obesidade. (George Monbiot)

Se às vezes encontrardes alguém que não vos dá o esperado sorriso, sede generosos e dai o vosso, porque ninguém tem tanta necessidade de sorriso como aquele que não sabe dá-lo aos outros. (Cardeal Newman)

wings of desireEstudos recentes vêm mostrando que o individualismo e o neoliberalismo, que vêm informando a sociedade e a economia contemporâneas, têm consequências particularmente nefastas, designadamente no domínio da saúde mental e da anomia social.
O crescimento das dependências (álcool, substâncias várias, bolimia e demais desordens alimentares, etc.), a que assistimos com justificada preocupação, está associado à perda de vínculos afectivos fortes. O mesmo se pode dizer de fenómenos sociais doentios, como sejam: a crescente incidência das depressões, a ansiedade face ao futuro, as fobias sociais e, de modo mais geral, uma certa insatisfação colectiva que, absurdamente, cresce à medida que avança o progresso material e as pessoas conhecem aumento do seu nível de consumo. George Monbiot, entre outros autores, chama a nossa atenção para a gravidade de uma epidemia social de solidão e para as suas consequências. Corremos o risco de nos esquecer que os seres humanos são seres relacionais e que o seu bem-estar (realização, felicidade) está intrinsecamente ligado à vida dos outros, à troca de afectos, ao reconhecimento, ao dom.
O conhecimento que as várias ciências proporcionam demonstra que não é pela via do individualismo e da competitividade que alcançamos maior satisfação pessoal e sedimentamos a coesão social que é uma das bases de sustentação das sociedades democráticas.
Ultrapassado o patamar da satisfação das necessidades consideradas básicas segundo o padrão do meio em que se vive, os seres humanos não se satisfazem com o consumismo a que são instigados, por força do marketing e de publicidade cada vez mais subtil mas não menos agressiva e indutora de dependências várias bem como de maior propensão ao hedonismo e ao individualismo.
As recentes calamidades, por algum breve tempo, servem de alerta de que os seres humanos ainda possuem reservas de compaixão e de solidariedade para com o seu semelhante. Mas, decorridos os dias da crise, a envolvente da cultura dominante e as rotinas dos quotidianos, eivadas de preocupações de índole material, deixam que sobressaia, de novo, o individualismo e o hedonismo de que, por sua vez, se alimentam a economia e a máquina do tempo da cultura contemporânea. E, assim, se propaga a epidemia social da solidão que mata.
Estas são perplexidades que merecem a nossa melhor reflexão e o nosso maior cuidado e que não devemos delegar em mentes e opções alheias.
Que podemos fazer?
Há dias num livro antigo, que folheava ao acaso, encontrei estas palavras do cardeal Newman:
Um sorriso não custa nada e rende muito. Enriquece quem o recebe sem empobrecer quem o dá. Só dura um instante mas a sua recordação é por vezes eterna. Ninguém é tão rico que possa passar sem ele, ninguém é tão pobre que não o possa dar. Um sorriso dá repouso no cansaço; no desânimo renova a coragem; na tristeza é consolação.
Se às vezes encontrardes alguém que não vos dá o esperado sorriso, sede generosos e dai o vosso, porque ninguém tem tanta necessidade de sorriso como aquele que não sabe dá-lo aos outros.
Tomei estas palavras como um bom conselho fundado numa espiritualidade sadia de alguém que se reconhece no outro como parte de um Todo e sabe que partilha o mesmo mistério da Vida.
O cardeal Newman pensava, seguramente, no sorriso bom, que exprime fraternidade, comunhão, encorajamento, alegria e não nas suas variantes maldosas, de sarcasmo, dúvida, desprezo…
Não é meu propósito dar receitas para enfrentar a epidemia social de solidão de que fala George Monbiot, mas ocorre-me lembrar este conselho do cardeal Newman de prática consciente de um sorriso bom.
A prática de um sorriso bom, para com conhecidos e desconhecidos, familiares próximos, colegas de trabalho ou vizinhos, poderá estar ao nosso alcance como antídoto do individualismo que se incrustou na cultura dominante do mundo ocidental que tende a ver o indivíduo como átomo isolado, fechado em si mesmo na ilusão da sua auto-suficiência e superioridade, que passa ao lado do seu semelhante com indiferença e se mantem desatento às suas necessidades e aspirações.
Estas atitudes e comportamentos, infelizmente ainda tão frequentes, não se confinam às relações com estrangeiros e desconhecidos, invadem, hoje, muitos dos nossos espaços familiares e de proximidade, criando ilhas de solidão à nossa volta, sobretudo nas grandes cidades.
Penso nos idosos que vivem sozinhos ou se sentem abandonados em instituições, aonde raramente (ou nunca!) chega o aconchego do sorriso dos seus familiares e amigos. Talvez disponham aí dos cuidados básicos necessários à sua sobrevivência, mas estão carentes do essencial: o afecto, a gratuidade, o amor.
Também tenho presente crianças e adolescentes que não estão a receber dos seus pais a atenção e o carinho de que precisam para um desenvolvimento sadio, a construção de personalidade forte e generosa, a aquisição do sentido de pertença a uma comunidade, porque aqueles vivem sobrecarregados com horários e outras condições de trabalho que provocam stress, competitividade exacerbada e conflitualidade e já esqueceram ou subestimam os seus deveres de cuidado.
Não esqueço, tão pouco, os meios de trabalho, onde por vezes prevalece a cultura da indiferença, a manha do carreirismo, a luta pelo poder, o interesse egoísta onde seria desejável contrapor reconhecimento do outro como pessoa, cooperação leal, solidariedade, sentido de bem comum.
É caso para dizer que não nos faltam ocasiões que reclamam uma prática generosa de um sorriso bom, sincero, afectivo. Não poderá constituir um antídoto eficaz no combate à epidemia social da solidão que mata? Não servirá de alerta para abrir portas a mudanças mais profundas na compreensão da nossa relação com os outros, nos nossos estilos de vida, na orientação da economia e da organização da sociedade?
Uma coisa é certa: o sorriso não custa dinheiro e a prática do sorriso bom está ao alcance de cada pessoa.

Imagem do Filme: Der Himmel über Berlin (As Asas do Desejo) - Wim Wenders. 1987 | Direção de fotografia - Henri Alekan |