Profetas que nos ensinem a pensar e a agir bem

Manuela Silva

Novembro 2017

Enquanto, numa comunidade pervertida, houver um profeta que fala, ainda há uma possibilidade de futuro.

(Luigino Bruni, in Mas Deus espera-nos no torno)

inception spinning topSe o tempo é de bonança e o mar está calmo, o velejador pode aproveitar a descansar e até dormir um pouco, mesmo em alto mar, como dizia há dias um velejador solitário. Ao invés, se os ventos sopram fortes e cresce a turbulência das águas, o indicado é estar vigilante, manter-se firme ao leme e manejar as velas da melhor forma, segundo as circunstâncias.
Depois de um tempo de acalmia, que na Europa se prolongou por cerca de meio século, caracterizado pela prosperidade económica e a paz social, é bem diferente a situação com que hoje estamos confrontados.
Já não podemos descansar no mito de um crescimento económico ilimitado e, muito menos, esperar que maior produção de bens e acesso a tecnologias mais avançadas tragam automaticamente consigo melhor qualidade de vida ou que esteja garantida a coesão social, alicerce da sustentabilidade da democracia, da liberdade e da paz social.
A revolução tecnológica e a digitalização que se avizinham terão impactos imprevisíveis em domínios, hoje tão estruturantes da vida colectiva, como sejam o trabalho e o emprego, as fontes de apropriação do rendimento, a comunicação, o conhecimento, a liberdade individual, o modo de ser e de pensar dos humanos. Este horizonte de futuro gera insegurança e temor.
Por ouro lado, a corrupção espalha-se como um vírus e atinge graus muito elevados de sofisticação e alcance, suscitando desconfiança generalizada no funcionamento das instituições públicas, bancárias e empresariais em geral. As pessoas comuns sentem-se traídas por aqueles em quem, até há pouco tempo, acreditavam e, também por isso, elas próprias são mais facilmente aliciadas para práticas menos leais no seu quotidiano cívico e inclinadas à desresponsabilização pelo bem comum assim como a fazer opções míopes que não acautelam, devidamente, o longo prazo e os direitos das gerações futuras.
Às disfuncionalidades do sistema económico e à anomia social, vêm juntar-se as calamidades ditas naturais, as ameaças ecológicas gravíssimas, os riscos de terrorismo, o espectro de novos conflitos mundiais…
Em síntese: O mar da história, em que presentemente navegamos, não é de acalmia mas de grande turbulência e, o que é mais grave, perdemos a bússola para nos podermos orientar na escolha do melhor caminho para lidar com a tempestade.
Descartamos valores que, por gerações, foram referência consensual para a vida em comum: a verdade, o bem, a beleza. Subestimámos uma cultura de boas práticas de responsabilidade, respeito, solidariedade, compaixão, sobriedade, convivialidade, fraternidade…
Aqui chegados, precisamos não tanto de mais tecnólogos mas de profetas que tenham o arrojo da denúncia do que vai mal mas que não calem palavras de esperança na Humanidade.
Antes de tudo, precisamos de profetas que nos ensinem e incentivem a pensar com lucidez, para bem discernirmos, escolhermos e agirmos, no plano pessoal e no plano colectivo, aceitando a incerteza, mas apoiando-nos, com firmeza, em princípios orientadores que sedimentaram a nossa civilização.
Precisamos também de profetas que nos acautelem da exploração dos medos, que é feita em permanência pelos media os quais, de algum modo, nos anestesiam face ao real concreto das pessoas e das situações e nos impedem de olhar com lucidez para as causas e as consequências das realidades que vamos conhecendo, sem nos deixarmos subjugar por mitos de complexidade, de inevitabilidade ou de falsas ilusões colectivas.
Diria, ainda, que precisamos de profetas que nos ajudem a olhar a realidade a partir do lugar das vítimas, os mais pobres e marginalizados e a desenvolver sentimentos de justiça, de solidariedade e compaixão que superem as falsas racionalidades da cultura dominante.
Acrescento, por último, que carecemos de profetas que nos mostrem que, em tempos de crise, a ideologia é usada pelos poderosos para fazer passar ideias, sentimentos, ilusões colectivas que sejam favoráveis à salvaguarda dos seus interesses de classe dominante. A este propósito, cito Luigino Bruni: Antes da força, do dinheiro, do poder político, os chefes (civis ou religiosos) gerem as crises dos seus impérios produzindo ideologias, pagando a ideólogos, erguendo um sistema de propaganda capilar da ideologia. Quanto mais grave é a crise, mais essencial é o instrumento ideológico. A principal forma que toma a ideologia no tempo das crises é a produção sistemática e reiterada de ilusões coletivas. (…). As ideologias são muitas e diferentes, mas têm em comum a criação artificial de uma realidade paralela que é apresentada como perfeita e que, progressivamente, faz perder o contacto com a realidade imperfeita e verdadeira.
A história bíblica ensina-nos a importância que os profetas tiveram na conduta do povo de Israel, na sua relação com o poder instituído daquele tempo, no relacionamento com os povos vizinhos. Os profetas foram, para o povo israelita oprimido, portadores de palavras de consolo e de salvação, mas, para os seus opressores, tiveram palavras duras e desestabilizadoras dos seus pedestais.
O próprio Jesus de Nazaré se apresentou como profeta anunciador de tempos novos e investiu os seus discípulos com o mandato de anunciar a todo o mundo os caminhos da justiça e da paz.
Podemos perguntar-nos se, nos nossos dias, ainda há lugar para os profetas e talvez nos assalte a dúvida de que, a existirem, sejam escutados.
Em todos os domínios, da economia à psicologia, da história às artes, da filosofia à teologia, se levantam vozes de denúncia e de proposta que merecem ser ouvidas.
Por outro lado, existem, aqui e além, experiências encorajadoras no domínio de uma ecoespiritualidade que fomenta o exercício do cuidado pela nossa casa comum, defende e pratica uma ecologia integral. Há que conhecê-las e difundi-las!
Há que registar, com satisfação, estes sinais dos tempos e tomá-los como um forte desafio a que saibamos parar para aprender a pensar bem. Dificilmente, porém, poderemos ser capazes de o fazer de modo solitário, entregues a nós próprios, ao nosso pensamento e às nossas emoções. Precisamos, por isso, de criar espaços de relação e de comunidade que sejam propícios ao pensar bem, ao fortalecimento e purificação da vontade para bem discernir e à perseverança no agir em espírito e verdade.

Imagem Spinning Top - cena final do Filme: Inception - de Christopher Nolan. 2010 | Fotografia - Ettoralk |