Ao encontro da essência do ser humano

Manuela Silva

Janeiro 2018

Os momentos de crise, de mudança, de transformação não só das relações sociais, mas antes de tudo da pessoa e da sua identidade mais profunda, reclamam, inevitavelmente, a reflexão sobre a interioridade, sobre a essência íntima do ser humano. (Papa Francisco - Palavras dirigidas ao cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura e do Conselho de Coordenação entre Academias Pontifícias)

papa francisco

Mais tarde ou mais cedo todos somos confrontados com perguntas de abismo sem fundo. Porque é que há algo e não nada? Qual é o sentido da minha vida, da existência de tudo? Qual é o fundamento último do que há? O seu sentido último?
É com estas palavras que Anselmo Borges começa a apresentação do seu livro intitulado Francisco. Desafios à Igreja e ao Mundo, recentemente publicado pela editora Gradiva. Escolho-as para início deste meu primeiro escrito de um novo ano e deixo um convite à leitura deste livro.
É oportuno relembrar e dar centralidade às perguntas que, sendo de sempre, porque constitutivas do ser humano, ganham relevância em momentos especiais, que levam a marca dos começos: uma nova relação, um novo trabalho, uma nova morada, etc. O começo de um novo ano civil pode bem ser um bom pretexto para um momento de interioridade, aberto à escuta do nosso interior e às suas perguntas essenciais.
Dizer que 2018 é apenas o virar de página de um calendário é subestimar o valor do simbólico, esquecer ou abafar o convite que o começo de um novo ano nos faz a que revisitemos o sentido profundo de existirmos, incluindo, porque inseparável do nosso existir, a sua dimensão relacional com as coisas, os outros, o planeta, a transcendência nos seus muitos nomes.
Estamos a ser nós próprios, com uma identidade e singularidade específicas, conscientes do nosso lugar na vida, despertos para um sentido e missão no tempo e no espaço em que nos movemos?
O que nos distingue como seres humanos é a capacidade de nos interrogarmos sobre o sentido da vida e a capacidade que nos é dada de fazermos escolhas e discernir entre o bem e o mal, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso.
Mas será que cuidamos devidamente desta capacidade, a reconhecemos, a valorizamos, a exercitamos e a preservamos como um bem precioso?
De facto, há que admitir que vivemos num tempo adverso à interiorização, em situação de uma espécie de “liberdade condicional”; limitada pelo excesso e a má qualidade da informação veiculada pelos média e pelas redes sociais; imposta pelo stress do trabalho e dos transportes, típico da vida urbana cada vez mais generalizada e concentrada; moldada pelas inúmeras disfuncionalidades da organização da economia e da sociedade; influenciada pela aceleração com que se processam a mudança tecnológica e as novas ferramentas da inteligência artificial e da digitalização; determinada pela pressão do consumismo e o engenho do marketing; e, sobretudo, desbussolada, em virtude da ausência de valores humanos sólidos e consensualizados.
Reconheço que, por tudo isto, estamos a viver numa época em que se acumulam riscos sérios de passarmos ao largo das perguntas essenciais e de nos deixarmos alienar pelo poder e a força de condições exógenas.
Assim sendo, ganhar consciência de que vivemos em época de mudança e turbulência, será, a meu ver, um primeiro passo em direcção à busca assertiva do sentido de vida.
O segundo passo é cultivar a atenção: há sempre uma hora em que podemos ouvir o sino do despertar. Talvez uma palavra oportuna, um acontecimento, uma experiência, um espanto, um sorriso de criança ou de alguém com quem nos cruzamos, nos deixem um sinal vermelho de que é preciso parar e resistir ou, outas vezes, um sinal verde de que é possível avançar numa direcção certa para melhorar alguma situação ou contribuir para solução de um problema.
Se aspiramos a continuar a ser humanos, em nenhum caso, há lugar para uma cultura da indiferença, da apatia e do deixa correr, da resignação e da pseudo inevitabilidade que gera acomodação e perigosas regras de conduta do tipo salve-se quem puder.
Para os cristãos, o essencial consiste em acreditar na Palavra de Deus para a Humanidade, Palavra revelada em Jesus de Nazaré, caminhar, como os seus primeiros discípulos, para a pôr em prática, no tempo e na cultura de cada época, mantendo viva a luz da fé e exercitando a esperança como compromisso na construção de um mundo mais justo, fraterno e sustentável.
Votos de um bom ano 2018! 

Imagem Papa Francisco. 2015