Os ídolos são como espantalhos num campo de pepinos

Manuela Silva

Fevereiro 2018

As nossas cidades capitalistas só de consumo são cada vez mais semelhantes a Babilónia a e Nínive e a transmutação idolátrica das antigas fés é cada dia mais evidente. ( Luigino Bruni )

Totem

A recente celebração da festa litúrgica de São Francisco de Sales (1567-1622) trouxe à minha memória um dos conselhos daquele bispo doutor da Igreja. Desde há muito, procuro seguir esse conselho, que, hoje, mais do que nunca, tenho por sábio e oportuno.
Há cerca de 400 anos, Francisco de Sales confessava: O meu passado já não me preocupa: pertence à misericórdia divina. O meu futuro também não me preocupa: pertence à providência divina. O que me preocupa é o agora, aqui e hoje: ele pertence à graça divina e ao empenho da minha boa vontade.
Temos muitas e complexas razões para nos preocuparmos com o aqui e o agora. De entre elas, destaco o que vem sucedendo à nossa casa comum, para usar a designação do papa Francisco na encíclica Laudato Si’ acerca dos males que afligem o Planeta Terra e com a sã convivialidade da Humanidade consigo mesma e com os demais seres que nele habitam.
Na origem destes males estão os muitos ídolos erguidos pela cultura hodierna e sustentados por uma economia que se foi distanciando - ou mesmo divorciando - do seu fim de responder às necessidades da sustentação e do desenvolvimento da Vida e, em vez de prosseguir esse objectivo primordial, para todos, vem servindo - e até fabricando - os seus próprios ídolos: lucro máximo, crescimento ilimitado, produtividade crescente, competitividade sem regras…
As nossas sociedades, que se desejaria fossem sociedades de bem-estar, de qualidade de vida para todos, de coesão social e de paz entre os diferentes povos e nações, tornaram-se escravas da avidez de riqueza material e de consumismo desenfreado de alguns a par da miséria extrema vivida por outros, e, consequentemente, mostram-se propícias à conflitualidade no interior das comunidades, ao terrorismo e às mil e uma versões da guerra a que assistimos hoje.
Há que reconhecer que os ídolos da economia são, também, ídolos da cultura contemporânea e influenciam o modo de ser e de estar de cada pessoa e grupo humano. Com efeito, o cidadão comum sacrifica tempo, relação humana, solidariedade com o próximo e cuidado com o Planeta ao deus consumo, ao desperdício, ao dinheiro e levianamente volta costas a valores como a sobriedade no uso das coisas materiais, à compaixão com o seu semelhante e com os demais seres, à contemplação da natureza, ao respeito pelo outro, à gratuidade e à sua relação com a transcendência.
Os profetas do Antigo testamento, nomeadamente Jeremias, clamaram com palavras fortes contra os falsos ídolos do seu tempo, ameaçando os que lhes prestavam culto com castigos divinos iminentes e, sobretudo, instigando à mudança de vida pessoal e à conversão do coração ao Deus único e verdadeiro. Foi este profeta que bradava: os ídolos assemelham-se a espantalhos num campo de pepinos (Jer.10,5).
Jesus Cristo vai mais longe apontando o caminho de uma vida nova de bem-aventurança (leia-se felicidade!) aqueles que O escutam e seguem. O sermão da Montanha, uma espécie de linhas de orientação programática para a vida do cristão, bem pode servir para nos acordar do sonambulismo da indiferença e da acomodação com que nos habituamos a servir acriticamente os ídolos do nosso tempo, nomeadamente na cedência ao consumismo e às aquisições compulsivas de objectos inúteis ou supérfluos, só porque são vendidos a preço de saldo ou publicitados como indispensáveis ou convenientes…
Para os cristãos começa, em breve, o tempo litúrgico da Quaresma, tempo de particular convite à vigilância, ao discernimento e à revisão do nosso modo de ser e de viver, nas suas múltiplas declinações: a relação com as coisas, com os outros, com a transcendência, consigo mesmo, com a ecologia integral da nossa “casa comum”.
Que seja um tempo de graça divina e de empenho da minha boa vontade em deixar que germinem sementes de um mundo novo onde reine a liberdade, o bem, a justiça e a paz.
Concluo com algumas palavras soltas do papa Francisco que bem podem iluminar caminhos de conversão pessoal nos dias de hoje:
• As Bem-aventuranças são aquele novo dia para quantos continuam a apostar no futuro, continuam a sonhar, continuam a deixar-se tocar e impelir pelo Espírito de Deus.
• Felizes aqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz. Felizes aqueles que se esforçam por não semear divisão.
• A bem-aventurança faz-nos artífices de paz; convida a empenhar-nos para que o espírito da reconciliação ganhe espaço entre nós.
• Queres ser ditoso? Queres felicidade? Felizes aqueles que trabalham para que outros possam ter uma vida ditosa. Queres paz? Trabalha pela paz.

Créditos de imagem: Totem, Col. "Máscaras do Alaska"- Woodcarvingstanleypark, Estrutura ao ar livre. Canadá.