Interrogar-se sobre si próprio

Manuela Silva

Março 2018

O homem é o ser que se interroga sobre si próprio, perguntando: “Quem é o homem?”
( Luciano Manicardi - Memória do limite – A condição humana na sociedade pós-mortal )

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Começo este escrito com uma extensa citação extraída da introdução de um livro de Luciano Manicardi, recentemente editado em português e intitulado Memória do limite. A condição humana na sociedade pós-mortal (Paulinas, 2017).
O autor, monge e prior do Mosteiro de Bose, reconhece a imperiosa necessidade de nos interrogarmos sobre questões nucleadoras do nosso modo de estar e de viver, questões que ganham hoje particular acuidade no nosso mundo ocidental em que a ciência e a tecnologia parecem abrir caminho a uma sociedade pós-mortal e onde, pretensamente, se esquece a condição criatural dos humanos.
Eis a citação:
O que é o humano? O que nos torna humanos? O que é um corpo humano? Como viver e como morrer “humanamente”? Estas perguntas ressoam com uma força particular num tempo que, pelo menos no Ocidente rico e tecnologicamente avançado, conhece a implementação de um verdadeiro arsenal de tecnologias biomédicas aplicado ao corpo humano que tem vindo a modificar radicalmente a sexualidade e a procriação, o nascimento, o envelhecimento e a morte do homem. São perguntas que podemos temer porque revelam um futuro desconhecido e que nos pode assustar. Todavia, ao mesmo tempo que declaram aberta aquela fase cultural que alguns colocam sob o signo do pós-humano, estas interrogações fazem-se apenas eco da antiga afirmação platónica segundo a qual uma vida que não se interrogue nem busque não é digna de ser vivida. O homem é o ser que se interroga sobre si próprio, perguntando: “Quem é o homem?”.
A resposta que possamos encontrar para estas interrogações marcará, decisivamente, o modo como conduzimos as nossas vidas e as posições que possamos ter, não só em relação à sociedade e às suas instituições, mas também no que se refere à concepção da vida humana em si mesma, à procriação e gestação de novas vidas, ao nascimento, ao envelhecimento e à morte, à manipulação genética em geral e particularmente no que respeita aos humanos.
Estas temáticas estão na agenda política a partir do momento em que, pela via do conhecimento científico e da inovação tecnológica que lhe está acoplada, se alarga o campo das novas escolhas disponíveis e se impõe o seu correspondente escrutínio ético e constitucional. Nem tudo o que é possível é aceitável ou desejável!
Entre nós, estas matérias, nos últimos tempos, têm vindo a merecer o interesse do legislador; todavia, sem que se tenha procedido a um debate suficientemente aprofundado, abrangente e consensualizado acerca dos fundamentos da legislação produzida e, por isso, gerando focos de tensão mal resolvidos.
Os cristãos e as suas comunidades, com excepção de algumas vozes isoladas, não têm dedicado a devida atenção a esta complexa problemática, deixando que, acriticamente, a mesma se banalize e se vão viabilizando decisões com relevante impacto cultural e socioeconómico e com consequências imprevisíveis pra futuro.
Como é sabido, este tempo litúrgico da quaresma convida-nos a revisitar a nossa vida pessoal e das nossas comunidades de pertença e a afinar a nossa consciência, atitudes e comportamentos, através da escuta atenta da Palavra de Deus, do jejum e da oração. Tenhamos a coragem de nos interrogarmos acerca de nós próprios e da percepção que temos da nossa essência de seres humanos criados por Outrem, dotados de liberdade e de responsabilidade com o que isso postula de uma Etica do limite.

Imagem: David, Pormenor do rosto - Miguel Ângelo Buonarroti, Galeria dos Ofícios. Florença.1504