A esperança é a arte de ver mais longe

Manuela Silva

Abril 2018

Historicamente, a espera de uma saída para o Mundo nunca deixou de guiar, como uma chama, os progressos da nossa Fé. Os israelitas foram “expectantes” perpétuos; assim como os primeiros cristãos. ( Teilhard de Chardin )

Everest DPrudek

De muitos e variados quadrantes sopram ventos de mudança na cena mundial que, com justificadas razões, não nos deixam em tranquilidade quanto ao futuro da Humanidade e à preservação desse bem inestimável que é a paz.

Estou a pensar, entre outras situações, nas tensões que, perigosamente, se vêm acumulando entre as grandes potências mundiais, a propósito da guerra na Síria, dos actos bélicos desencadeados pela Turquia contra as minorias curdas, da recente descoberta de uso de químicos letais de origem russa no Reino Unido, para não falar da informação e contra-informação com origem em serviços secretos de um e outro lado do Atlântico.

Estamos perante desafios tão sérios que quase apagam - ou fazem esquecer - as tragédias que, diariamente, acontecem com o afluxo de refugiados e migrantes que chegam a território europeu em situação de desespero e luta pela sua própria sobrevivência e as condições desumanas em que são obrigados a permanecer, meses e anos, nos campos onde são acolhidos; ou, ainda, as repetidas calamidades ditas naturais, na realidade provocadas por sérias alterações climáticas, por sua vez, correlacionadas com o paradigma económico vigente, ambientalmente pernicioso e insustentável.

A ciência e a técnica, que têm conhecido progressos espectaculares nas últimas décadas e permitido, assim, alimentar o aumento e a eficiência em muitos domínios da produção de bens e serviços e fazer chegar os seus benefícios a muitos milhões de pessoas, concorrendo para uma significativa melhoria do nível médio de vida e para a redução da pobreza extrema à escala mundial, também vêm emitindo sinais de alerta e de preocupação. Até onde vão as suas fronteiras sem comprometer valores essenciais de liberdade e dignidade humana, em domínios como a genética e em geral a biomédica, o recurso à inteligência artificial ou a hegemonia desregulada da robotização e sua incidência no futuro do trabalho humano e na vida das pessoas? Que poderes comandam os avanços da ciência e da técnica? Com que critérios? Que lugar para a Ética? 

Com menos visibilidade mediática, mas não menor relevância na nossa percepção quanto ao futuro, não podemos ignorar igualmente o que vem sucedendo com a crescente desigualdade, à escala mundial, mas também no interior de muitos países, no que respeita à repartição da riqueza e do rendimento e a perigosa concentração de poder político e bélico que lhe está associada, dando lugar ao enfraquecimento real do papel regulador dos estados, ao surgimento de poderes fáticos ocultos, sempre perniciosos, ao enfraquecimento da coesão social e, consequentemente, a maior propensão dos diferentes povos ao recrudescimento de populismos de má memória.

Em suma, temos razões objectivas para nos inquietarmos quanto ao futuro da nossa vida colectiva, da Humanidade e do Planeta, e para manter uma vigilância redobrada não só em relação às nossas escolhas do quotidiano como também quanto às opções (decisões e omissões) que vão sendo feitas pelos actores políticos, económicos e culturais, sem esquecer o papel da comunicação social.

Aos desafios próprios de cada tempo, mormente quando os mesmos se revestem de grande complexidade e imprevisibilidade, como é o caso, é tentador cair em atitudes de indiferença, de resignação e acomodação, desespero e depressão. Entre nós, estas são atitudes bastante frequentes, mesmo diante de dificuldades de menor monta, as quais se traduzem no queixume inconsequente, no resmungar gratuito, no passar de culpas a terceiros, designadamente aos poderes públicos, numa certa anomia social. 

Não é esse o caminho que a tradição hebraica e cristã nos propõe. Como lembra a epígrafe: Os israelitas foram “expectantes” perpétuos; assim como os primeiros cristãos.

Importa, pois, lembrar que a esperança é uma virtude teologal que, como cristãos, não podemos descartar do nosso horizonte de vida pessoal e colectiva. Decorre de um ver mais longe, animado este pela fé na Aliança e na promessa do reino de Deus, a pequena semente lançada à terra e em processo de germinação permanente até à sua maturação plena. Ganha raiz na contemplação do mistério do impossível tornado possível pela acção do Criador que nunca nos abandona.

A esperança não é um sentimento vago associado a alguma nostalgia do passado ou a um futuro idealizado, mas uma virtude que alimenta o compromisso com o presente, na descoberta lúcida dos sinais do tempo conjugada com o empenhamento na superação resiliente, mas audaciosa, dos limites das nossas periferias existenciais, as individuais e as dos outros com quem convivemos e com quem habitamos a casa comum. 

Imagem: Everest, Nepal. 2016 - Daniel Prudek - Shutterstock.com