Consciência e bem comum

Manuela Silva

Junho 2018

etica ftavares2018

Criado por Deus para a felicidade, o ser humano encontra na sua dedicação ao bem da comunidade em que se insere os meios para realizar essa felicidade pessoal e social. É missão da Igreja contribuir para a edificação de uma sociedade mais justa e fraterna, mais responsável e solidária. Ninguém pode ficar excluído dessa tarefa permanente.(Carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Setembro 2013)

Quando recordo as notícias das últimas semanas, não posso deixar de ficar perplexa. Refiro-me à violência gratuita em contextos onde se esperaria encontrar espaços de companheirismo e de fraternidade. Lembro, também, as denúncias acerca da corrupção activa e passiva que, no nosso País, vem ganhando proporções consideráveis, parece não conhecer limites nos expedientes usados e, como óleo derramado, vem atingindo indivíduos e grupos profissionais, até há pouco, considerados impolutos e acima de qualquer suspeita.
Que pensar destas ocorrências? Que fazer para as obviar? Assistiremos passivamente ao desenrolar destes factos, esperando que a justiça, a seu tempo, os confronte com as leis vigentes e venha a aplicar aos infractores as correspondentes sanções?
Serão certamente necessárias medidas para aperfeiçoar as malhas da lei e reforçar os meios de intervenção ao dispor dos reguladores e das forças policiais, criar novos mecanismos de prevenção e de penalização, que impeçam a violência e a corrupção, sob as suas diferentes formas, cuidar de reformas institucionais que tornem a justiça mais eficiente, as desigualdades menos gritantes, evitem a promiscuidade entre a política e os negócios, … Não será, porém, necessário ir mais longe e atender à raiz do problema? Penso que sim!
Precisamos de ter a coragem de reconhecer que é o ser humano que está em causa assim como a necessária mudança da sua própria consciência, esse lugar secreto em que se vão alicerçando as fronteiras do bem e do mal, com base no conhecimento, na tradição e na cultura e, sobretudo, na fé, quando esta existe.
É a partir da consciência que se configura o agir e o não-agir. Se desejamos construir uma sociedade mais segura e mais fraterna, teremos, por conseguinte, de investir na formação integral do ser humano, incluindo a sua consciência.
Por múltiplas e variadas razões, a cultura contemporânea, no mundo ocidental, tem sobrevalorizado a individuação do ser humano, proporcionando conhecimento, informação, capacitação para agir, mas descurando a Ética e a formação da consciência dos humanos enquanto seres relacionais, parte integrante de um todo (família, igreja, grupo profissional, país, mundo) e como tal solidários.
É o reconhecimento desta condição intrínseca de ser relacional que abre o horizonte do bem comum como desígnio indeclinável do agir humano e permite fazer escolhas que superam um individualismo estreito e míope, que alimenta violências, usurpações de poder, desigualdades extremas e exclusão social. Pelo contrário, aprofundar o sentido do bem comum reforça o empenho de cada pessoa no desenvolvimento sustentável e na ecologia integral.
Os desafios com que estamos confrontados levam-nos a ir além do pensamento habitual, de cariz individualista, ora conformista ora resmungão e, mais ou menos, inconsequente e/ou com propensão a escolhas de marginalização.
Vivemos tempos de transição e mudanças aceleradas, com potencialidades e riscos acrescidos, que devemos aprender a discernir, aprofundando e formando a consciência dos seres humanos, incluindo a sua co-responsabilidade por um bem comum.

Imagem:  nós e a Ética- Fernanda Tavares. 2018