Da cultura do excesso à mística da responsabilidade pessoal e colectiva

Manuela Silva

Julho - Agosto 2018

Plastic waste Daniela Dirscherl

Age de modo a que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra.

(Hans Jonas, O princípio da responsabilidade)

Todas as épocas têm as suas glórias e as suas patologias próprias.
Com os êxitos e as glórias, os humanos e as suas sociedades convivem bem, apreciando-as, dando-as a conhecer e exaltando-as.
Não raro, porém, vão para além do razoável, olhando mais para os resultados do que para os custos com que estes foram alcançados e, sobretudo, subestimando, indevidamente, possíveis consequências para o bem comum e para as gerações futuras. Veja-se o que se passa com a euforia do crescimento económico ilimitado que persiste, há mais de meio século, como indicador do desempenho político! Ou, em outro domínio, o fascínio com o conhecimento (da biologia, do psiquismo humano, da matéria,…) e o risco do alargamento do campo das manipulações genéticas e comportamentais em curso, sem o devido respaldo da Ética.
Com as patologias temos mais dificuldade em lidar, porquanto elas manifestam-se, de modo subtil e insidioso, ao longo do tempo, antes que evidenciem sinais de perigo de rupturas irrecuperáveis. Por outro lado, não afectam com idêntica intensidade os diferentes espaços geográficos e os distintos grupos de população que habitam um mesmo território e por isso ficam encobertas ou, inclusive, são intencionalmente silenciadas pelo poder dos sectores que menos sofrem com os males provocados e melhor aproveitam do status quo. Atente-se, por exemplo, nas gigantescas e crescentes desigualdades de riqueza e de poder associadas ao actual modelo económico e financeiro ou na crise ambiental que conhecemos.
Em tempo de globalização crescente e de informação e comunicação generalizadas, as patologias da nossa época rompem as fronteiras geográficas e ganham dimensão de escala mundial. Todavia, é dos países que levaram mais longe a civilização industrial, a revolução tecnológica, a economia extractiva, a sociedade de consumo, a cultura da modernidade e da pós-modernidade, o conhecimento e a informação, que mais se vão ouvindo sinais de alerta acerca da insustentabilidade do paradigma vigente.
Não obstante os progressos alcançados nas suas múltiplas vertentes (conhecimento, inovação tecnológica, riqueza material, progresso social, …), parece grassar nas sociedades ocidentais um sentimento de desconforto e de propensão à depressão e à anomia social associado ao excesso, como bem sintetiza José Tolentino Mendonça (A mística do instante, p.16): A verdade é que as nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações,…) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. Neste quadro devemos interrogar-nos: Que ser humano está a emergir da sociedade e da cultura contemporâneas? Com que sentido de vida? Com que ideais e aspirações? Com que faculdades sensoriais, mentais, espirituais? Com que futuro?
Por outro lado, não pode abafar-se o “grito da Terra” de que se fez eco o papa Francisco na carta encíclica que, em Maio de 2015, dirigiu a crentes e não crentes, evidenciando os males, reconhecendo as suas causas profundas, denunciando a responsabilidade dos comportamentos dos humanos e lançando o apelo a uma radical conversão ecológica. Também a este propósito há que denunciar o excesso, como denominador comum da causa dos males que ameaçam a sustentabilidade da vida na Terra: o consumismo, a economia do descartável, o afã da indústria do entretinimento, o lixo acumulado, a poluição do ar, dos rios e dos mares, …
Os diagnósticos estão feitos, os alertas multiplicam-se, apontam-se caminhos para a viabilização de novos paradigmas de economia e de convivência social justa e saudável, firmam-se pactos ao mais alto nível para minimizar algumas das patologias mais visíveis, esforços vários que merecem reconhecimento e apreço. Há, porém, que ir mais longe. Precisamos de uma nova visão acerca da Criação e do lugar que nela temos como criaturas e enquanto humanos e cuidadores.
É urgente repensar, criticamente, a mundividência contemporânea relativa ao ser humano e ao seu lugar no Cosmos (a sua essência, o seu papel de cuidador e não de dono e senhor, a sua intrínseca dimensão de relação e interdependência com os demais seres e com o Planeta em que habita, …). É imperioso fomentar uma nova cultura que supere o individualismo e em que a responsabilidade, pessoal e colectiva, ganhe a devida centralidade. Precisamos, sobretudo, de fazer emergir uma mística que supere o interesse egoísta e exalte o cuidado ao serviço da Vida e da construção de uma ecologia integral.
Muitas vezes nos interrogamos: por onde começar?
O papa Francisco deixa um conselho: "Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, reflectir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença “não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada”. (LS, n.225)
Em época de férias, quando, por uns dias, se suspendem as rotinas do trabalho profissional e o frenesim dos quotidianos da vida nas cidades e suas periferias, aproveitemos para um tempo mais largo de visitação do ser interior que nos habita e onde habitamos e onde nos reconhecemos como parte do Todo, abrindo espaço para refundarmos as nossas opções de fundo, para revermos o nosso estilo de vida e para tomarmos consciência da nossa responsabilidade pessoal e colectiva em deixarmos o mundo melhor.

Imagem: Plastic waste washed up on a beach

 Foto - Daniela Dirscherl/Getty Images/WaterFrame RM. The Guardian. 2018