Tempo da Quaresma

I Domingo do Tempo da Quaresma

marcos leao arcabas

Gn 9,8-15;

Sl 24,4bc-5ab.6-7bc.8-9;

1Pe 3,18-22;

Mc 1,12-15

Esta é a mensagem das leituras do I domingo da Quaresma: depois de ter condenado o pecado da humanidade com o dilúvio, Deus reafirma a sua vontade de salvação universal estabelecendo com Noé uma aliança com todos os seres vivos e com toda a terra (1.ª leitura); Jesus combate o tentador no deserto e a sua vitória é uma comunhão recuperada entre o céu e a terra (evangelho); o Cristo ressuscitado desce aos infernos para proclamar o Evangelho também aos rebeldes, ou seja, a quem tinha morrido na rejeição de Deus. Desce, quer dizer, a proclamar a fidelidade de Deus à sua promessa de salvação universal (2.ª leitura).
Marcos apresenta a tentação como a primeira acção espiritual: é o Espírito recebido no Baptismo que impele Jesus para o frente-a-frente com Satanás, isto é , com a possibilidade do mal. E o lugar da tentação, para Jesus como para todo o homem, é o coração. O Espírito de Deus não impele para fugas em paraísos espiritualistas, para evasões em misticismos, mas sim para a difícil empresa de discernir o seu próprio coração, reconhecer os impulsos de separação de Deus e de idolatria que o atravessam e fazer reinar a vontade de Deus. A tentação é uma possibilidade que nos coloca perante uma escolha entre bem e mal, entre fé e idolatria: “A tentação torna o homem ou idólatra ou mártir” (Orígenes). Por isso, ela implica um sentido moral e o discernimento entre o que é bem e o que é mal. Neste sentido, perante a indistinção entre bem e mal, a inconsciência do bem e do mal e a indiferença do agir, a tentação mais grave hoje é o desaparecimento da tentação.
Quem reconhece a tentação é colocado num combate interior para recusar a sedução de deixar-se viver, de abdicar daquilo que é sério e profundo, de abandonar a fidelidade ao Senhor. E o esforço da luta pode assustar e repugnar.
O combate de Jesus no deserto está escondido atrás da nota de que foi constantemente tentado por Satanás durante quarenta dias e o resultado vitorioso da luta é expresso pela comunhão entre anjos e animais selvagens que se crê estarem em redor dele, atestando assim o cumprimento do tempo messiânico. A paz entre o céu e aquele lugar de morte que é o deserto manifesta a paz messiânica anunciada pelos profetas com imagens análogas (cf. Is 11,6-7; 65,25) e que abarca toda a criação (cf. Os 2,20).
No deserto, Jesus faz, portanto, uma múltiplice experiência. Antes de mais, de solidão: Jesus está sozinho num lugar ermo. Ali obedece à Palavra e ao Espírito de Deus que o proclamaram Filho de Deus no baptismo (cf. Mc 1,9-11). Ali é posto à prova e incitado a pecar, a desobedecer. E ali ele dá prova de perseverança: no deserto, não deserta. A tentação cria o crente tentado, constante. Na tentação Jesus convive com as bestas selvagens, doma as presenas monstruosas, os poderes selvagens e violentos que atravessam o coração humano: “É do coração que saem as más intenções (Mc 7,21). Enfim, Jesus conhece a presença divina: “os anjos serviam-no”. O anjo próximo de quem luta é imagem que indica a presença de Deus que se faz sentir no coração da luta da oração e da tentação (cf. Lc 22,41-44).
Vitorioso sobre o tentador e instaurador da paz messiânica, Jesus pode proclamar o cumprimento do tempo e o advento do Reino de Deus. Mas o anúncio do que Deus realizou torna-se exigência para o homem: “Convertei-vos e acreditai no evangelho.” A conversão é resposta e responsabilidade do crente perante o dom do Senhor. Não consiste em melhorar as atitudes exteriores, mas na fé no evangelho, portanto, numa reorientação radical do seu ser à luz da vontade de Deus manifestada na pessoa de Jesus. Crer no evangelho é confiar no evangelho, que “é poder de Deus” (Rm 1,16), dar os seus passos sobre os passos do Senhor. E seguir Jesus significa segui-lo também nas suas tentações e na sua luta, seguro pela fé de que na nossa luta ele próprio combaterá e nos guiará para a conversão.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano B de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Marcos): Leão - Arcabas