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1. Apresentação
Este é o primeiro texto público da Comissão Nacional Justiça e Paz, recentemente
nomeada para o triénio 2006-08.
Desejamos aproveitar o tempo privilegiado da Quaresma, em que os cristãos são
convidados a acolher, de modo particular, a Palavra de Deus e o mistério da
salvação, para partilhar, a essa luz, algumas reflexões sobre a nossa sociedade
e o mundo em que vivemos, numa época marcada por profundas transformações e
riscos que a todos afectam e interpelam.
Em primeiro lugar, dirigimo-nos aos cristãos, suas comunidades e movimentos.
Queremos contribuir para que os nossos irmãos e irmãs na fé possam encarar, com
lucidez e esperança, o devir, reconhecendo-se como sujeitos da história pessoal
e colectiva e não como meros objectos e espectadores.
O nosso segundo objectivo consiste em reforçar as sinergias entre quantos,
crentes e não crentes, estão empenhados em deixar neste nosso mundo marcas de
mais justiça, solidariedade, verdade, amor e paz.
Não temos a pretensão de apresentar a leitura única ou sequer a mais lúcida e
rigorosa. A realidade multifacetada, que caracteriza a nossa existência de
mulheres e homens inseridos num tempo e num espaço em mutação, não se compagina
com visões unilaterais e pretensamente neutras, mas antes se enriquece com
leituras plurais, nomeadamente quando são explícitos os respectivos
pressupostos.
A nossa visão do mundo inspira-se na fé em Jesus Cristo e nos valores
evangélicos e apoia-se na doutrina social da Igreja católica. Reconhecemos,
contudo, que esta visão releva de uma matriz ética comum a crentes de diferentes
religiões e a não crentes. Tal nos anima a desejar que a nossa reflexão tenha
uma ampla difusão e mereça dos nossos concidadãos e concidadãs um acolhimento de
simpatia e boa vontade, que leve ao aprofundamento da universal vocação humana
de caminheiros na busca da Verdade e ao maior empenhamento de todos na
construção de novas formas de vida pessoal e colectiva a que presidam a
Harmonia, a Justiça e a Paz.
2. Contra o pessimismo e o desânimo, recuperar a alegria de viver
Vivemos tempos de turbulência e grande complexidade.
Experimentamo-lo nas nossas vidas pessoais e familiares, nas relações com os
outros, no trabalho, na vida política, nas Igrejas; em suma, em todos os
quadrantes em que se desdobra a nossa existência como pessoas e como
comunidades.
Os valores que julgávamos firmes e as instituições que acreditávamos serem
inatacáveis, revelam-se, afinal, de grande fragilidade, ao mesmo tempo que, por
ora, se apresenta turvo o horizonte das referências onde assentar os novos
pilares da sociedade.
De tal modo o curso dos acontecimentos parece inexorável, que uma primeira
tentação a que estamos sujeitos é a de nos sentirmos impotentes para intervir de
forma eficaz nos processos de mudança e de baixar os braços, numa expectativa
ingénua de deixar correr o rio, sem lhe cuidar das margens. Ou, pior do que
isso, cedendo à tentação de reforçar atitudes e comportamentos egoístas,
procurando, mesmo sem razão, defender e ampliar, desmesuradamente, poderes e
privilégios individuais ou de grupo, descurando os interesses colectivos e o bem
comum e menosprezando, descaradamente, a situação dos mais vulneráveis e
desfavorecidos.
A frequência com que se invoca a inevitabilidade do devir à escala mundial e se
exaltam os riscos da crise económica tem servido para alimentar o comportamento
egocêntrico e insano e para desencorajar a procura de caminhos alternativos e de
soluções mais humanas face aos novos desafios.
Esquece-se que as crises, desde que devidamente encaradas, podem constituir,
também, oportunidades para corrigir o que está mal, para lançar as bases de
soluções mais justas e para criar novos dinamismos sociais. Para tanto,
necessário se torna fomentar uma atitude positiva de esperança face à vida.
Porém, ao invés do que seria desejável, vem-se gerando e consolidando, na
mentalidade corrente, uma cultura de pessimismo e desânimo enquanto, do mesmo
passo, se assiste, com grande passividade, a uma demolição devastadora do
prestígio de instituições fundamentais em qualquer sociedade democrática.
É nossa firme convicção que, diante desta nuvem de pessimismo e desânimo, todos
somos chamados - e os cristãos por razões acrescidas - a assumir a nossa
qualidade de seres capazes de orientar a transformação do mundo no sentido de um
bem comum.
Se, pelo contrário, nos deixarmos dominar pela ideia de “crise inevitável”,
perderemos o gosto e a alegria de viver, adiaremos as medidas de curto e médio
prazo que se impõem e correremos o risco de nos vermos confrontados com
problemas bem mais sérios no futuro. Em qualquer caso, com tais sentimentos,
estaremos deixando fugir o nosso tempo e a não honrar o nosso compromisso com o
mundo.
Não basta, porém, que uma ou outra voz se oponha a uma tal atitude,
aparentemente tão generalizada, de desânimo. É preciso que o tom de esperança
enraizado em cada cristão e cristã ganhe uma dimensão colectiva e assuma
expressões concretas no âmbito das famílias, das empresas e das relações de
trabalho, do ordenamento das cidades, das escolas e universidades, dos centros
de saúde e hospitais, dos serviços públicos, das organizações de solidariedade
social, das instituições, das que já existem e daquelas que temos de imaginar e
criar para fazer face ás novas necessidades humanas e sociais.
Em tempo de crise, soam mais alto as palavras de Jesus ao paralítico “Levanta-te
e anda” (Mc, 2...). Só quando os cristãos tiverem respondido a esta ordem, o
mundo poderá saborear o gosto do sal e ver a luz de que devemos ser portadores (Mt
5,13-16).
3. Superar as razões da exclusão social e acabar com a pobreza
No enfrentar dos múltiplos desafios que se nos deparam, não podemos deixar de
dar relevo à exclusão social e à pobreza, que continuam a subsistir no nosso
mundo de abundância, de progresso material e de conhecimento.
Que existam pessoas – e estimam-se em cerca de dois milhões, no nosso País – com
rendimentos insuficientes para garantir um padrão de vida decente é, certamente,
uma situação que não podemos tolerar. Antes do mais, por razões de dignidade
humana; mas também porque um tão elevado número de excluídos é, obviamente, um
factor de tensão e conflitualidade, com inevitáveis consequências para a coesão
social e para um desenvolvimento humano e sustentável.
A pobreza e a exclusão social não podem ser vistas apenas à luz fria dos
indicadores estatísticos. Por detrás dos números, estão rostos e vidas de
homens, mulheres, crianças, jovens e idosos.
Pessoas a quem a falta de recursos monetários, a doença, a precariedade do
trabalho e os baixos salários, o reduzido nível de escolaridade, a desintegração
familiar e outros factores, não permitem que, por si sós, vençam as barreiras da
pobreza e da exclusão.
Pessoas que não encontram habitação digna a preço acessível, ainda que, nas
nossas cidades, vilas e aldeias, muitos alojamentos estejam por utilizar.
Pessoas a quem a escola não conseguiu cativar e preparar para a vida.
Pessoas vítimas de exploração no trabalho por parte de alguns empresários sem
escrúpulos e de um sistema socio-economico-político que não previne – antes
produz – exclusão social.
Pessoas que vieram de outros países em busca de melhores condições de vida, mas
que, também aqui, ou não conseguiram singrar ou porque, tendo perdido as raízes
dos seus países de origem, não se sentem integradas na sociedade em que vivem.
Pessoas sem abrigo e vivendo da esmola ou do furto.
Pessoas frágeis na sua relação com o álcool, a droga, a promiscuidade, etc.
Pessoas para quem a pobreza é persistente e conhecida desde tenra idade; uma
herança que receberam de seus pais.
Pessoas para muitas das quais pobreza significa morte.
A exclusão é um cancro social que importa prevenir e remediar, quanto antes; mas
a grande pobreza é, verdadeiramente, uma infâmia intolerável. O combate à
pobreza inscreve-se no primeiro dos direitos humanos universais, o direito à
vida.
Os estados têm de ser mais responsabilizados pela erradicação da pobreza nos
respectivos países. Mas também os partidos políticos, os parceiros sociais e a
sociedade civil têm de unir os seus esforços para que a grande pobreza seja, em
breve, uma situação do passado, como hoje já sucede com a escravatura ou a pena
de morte, na nossa sociedade.
Por seu lado, os cristãos e suas comunidades não podem deixar de se comprometer
activamente nesta luta e podem fazê-lo, antes de mais, em três frentes
convergentes e complementares:
- acções que procurem levar socorro às vítimas;
- denúncia das causas estruturais geradoras da pobreza;
- apoio e viabilização de propostas que visem a erradicação da pobreza, no nosso
País e no mundo.
A universalidade do amor cristão, recentemente sublinhada por Bento XVI na sua
primeira encíclica “Deus caritas est”, não consente que nos preocupemos apenas
com a pobreza nacional. É imperioso inscrever, no âmbito das nossas
preocupações, também a pobreza, a miséria e a fome que atingem, de forma
dramática, milhões de homens, mulheres e crianças no mundo de hoje. É urgente e
possível reduzir drasticamente essa fonte de morte e indizível sofrimento humano
pelo que não temos dúvidas em afirmar que tal se inscreve no “pecado do mundo”
de que fala João Baptista.
É urgente acabar com o escândalo da grande pobreza no mundo.
É uma tarefa de todos e de cada um e cada uma de nós.
Os objectivos do Milénio fixados no início de 2000 e que mereceram o compromisso
da generalidade dos países da Organização das Nações Unidas apontaram como meta
o ano de 2015, para pôr termo às situações mais dramáticas da pobreza. Todavia,
os resultados até agora alcançados estão longe das metas estabelecidas. Nem a
redução da pobreza monetária, nem os ganhos em saúde, no acesso a água potável
ou na escolaridade têm avançado aos ritmos previstos. Tão pouco os governos dos
países ricos têm honrado os seus compromissos em relação a este Pacto, não
contribuindo com a parcela de rendimento nacional respectivo destinado à
cooperação para o desenvolvimento a que se tinham comprometido. Acresce que os
países economicamente mais avançados continuam impondo os seus interesses
egoístas quer através de algumas das suas políticas nacionais quer nas
negociações no âmbito da Organização Mundial de Comércio, reservando para si
vantagens e privilégios que prejudicam as economias mais débeis e os milhões de
mulheres e homens que vivem em situação de pobreza extrema nos países
emergentes.
4. A grande desigualdade é uma afronta à justiça e à boa convivência
cívica
Se a pobreza é uma situação extrema a exigir, com urgência, a nossa reflexão e o
nosso empenhamento em erradicá-la, também as grandes disparidades de riqueza, de
rendimento e de conhecimento não podem deixar-nos indiferentes. É que, por
detrás de uma grande desigualdade, está sempre uma injustiça gritante e um
funcionamento injusto de um sistema de organização da economia e da sociedade.
Por outro lado, a grande desigualdade de riqueza e rendimento gera fenómenos de
indesejável concentração de poder que podem minar os alicerces da própria
democracia, é causa de esbanjamento de recursos, e suscita, por emulação,
padrões médios de consumo e estilos de vida desequilibrados e desajustados em
relação a um padrão de desenvolvimento humano sustentável.
A desigualdade de rendimentos em Portugal não só é, presentemente, a mais alta
da União Europeia como evidencia uma tendência de agravamento que se tem
acentuado nos últimos anos. Essa desigualdade atravessa grupos sociais,
gerações, territórios, categorias sócio-profissionais, sectores de actividade
económica.
Nos últimos tempos, os media têm chamado a atenção – e bem – para níveis de
remunerações de alguns gestores públicos e privados, que contrastam fortemente
com a contenção dos salários que os mesmos preconizam para as suas respectivas
empresas e para a economia em geral. São, igualmente, conhecidos alguns
indicadores de riqueza, manifestos na compra de automóveis de topo de gama,
dispendiosas viagens de férias no estrangeiro, habitações de luxo e condomínios
fechados de elevadíssimos encargos. Se não se arrepiar caminho nesta
desigualdade crescente, é de esperar um aumento da conflitualidade social e das
suas consequências negativas e mesmo dramáticas, e ficará adiado o tão desejado
desenvolvimento humano e sustentável que a todos beneficie.
A desigualdade não é apenas um problema individual do injustiçado. Quer nas suas
causas quer nas soluções, constitui, sobretudo, um problema da sociedade que a
todos interpela.
A esta luz, também nós cristãos, temos de nos reconhecer como parte deste
problema, e, em muitos casos, confessarmo-nos culpados por actos e omissões.
Porém, porque temos razões de fé e de prática de vida para nos situarmos na
primeira linha da defesa activa da justiça e da solidariedade, também devemos
deixar-nos reconfortar pela esperança que poderemos abrir novos caminhos de
solução. Pela palavra, pelas atitudes e comportamentos nas nossas respectivas
esferas de actividade e influência. Pelo nosso empenhamento nas causas comuns
portadoras de desenvolvimento e equidade para o nosso País e para a Humanidade.
Pela “fantasia da caridade”, na bela expressão de João Paulo II.
A solidariedade é um valor universal, mas ganha um sentido mais profundo à luz
do Evangelho.
É uma atitude básica sempre necessária, mas torna-se ainda mais necessária e
urgente em tempo de turbulência e de mudança como este em que vivemos.
Na travessia de um tempo de dificuldades, o povo ganha outro ânimo quando vê que
todos se sentem co-responsáveis pelo problema e estão empenhados nas soluções. É
este o espírito de que a nossa sociedade precisa. Para tanto, são necessários,
antes de mais, gestos concretos de quem detém maior poder e responsabilidade
quer a nível nacional, quer nos âmbitos local, institucional e empresarial. Mas
são igualmente fecundos, e já despontam entre nós, exemplos de iniciativas de
base que anunciem, com coerência e perspicácia, tempos novos para a democracia.
Pensamos, na economia social nas suas múltiplas vertentes, nas lojas de comércio
justo, no micro-crédito, no banco do tempo, no voluntariado em diversos
empreendimentos de índole cultural, ecológica e social, empresas de economia de
comunhão, nas acções de denúncia do consumismo ou da agressividade do marketing,
nas experiências de vida comunitária, etc..
5. Superar o consumismo irresponsável
A influência do marketing, cada vez mais sofisticada e poderosa, vem levando
muitas pessoas a adoptar padrões de consumo desproporcionados relativamente ao
seu respectivo nível de rendimento, com uma dupla consequência negativa: o
endividamento excessivo das famílias, não raro para fazer face a encargos com
aquisição de bens que seriam dispensáveis, e a distorções das prioridades na
satisfação de necessidades básicas de alimentação, educação, saúde ou segurança.
Estamos perante a emergência de uma verdadeira cultura de consumismo com
consequências sociais e ecológicas preocupantes que não devem ser subestimadas.
Os grupos mais jovens da população são, em razão da própria idade,
particularmente influenciáveis pela acção do marketing, tanto mais quanto,
imersos numa cultura dominante de consumismo, não desenvolveram uma estrutura
interior de auto-estima suficientemente forte para pensarem e agirem por si
próprios e por isso dependem muito dos comportamentos padrões dos seus pares.
Pais e educadores têm uma particular responsabilidade na educação das camadas
mais jovens da população acerca de um consumo esclarecido, responsável e
solidário. Também os grupos de jovens cristãos deveriam prestar a devida atenção
a esta problemática.
Dir-se-á que o consumo sustenta a procura e esta é factor que incentiva a
produção e o emprego e por isso constitui um esteio necessário ao crescimento
económico. Trata-se de uma verdade unilateral, pois oculta outras dimensões da
realidade, nomeadamente as seguintes:
- É desejável orientar as opções de consumo para bens que aumentem o bem-estar
efectivo e a qualidade de vida dos consumidores, o que nem sempre é assegurado
pela publicidade;
- Os gastos em consumo devem ser proporcionados ao nível médio de rendimento de
quem consome;
- É de evitar o desperdício e o supérfluo, de modo a respeitar o equilíbrio
ecológico;
- O uso do dinheiro, como o de todos os outros recursos, não deve eximir-se ao
crivo dos critérios da solidariedade e do bem comum.
Em suma: há que respeitar o princípio de que a economia está ao serviço das
pessoas, como frequentemente é recordado nos textos da doutrina social da
Igreja.
Por outro lado, a propensão consumista é co-responsável de um outro problema que
afecta, muito negativamente, o nosso modo de viver. Referimo-nos aos ritmos de
vida stressantes que marcam o nosso quotidiano, sobretudo nas grandes cidades, e
que estão associados aos esforços que visam conseguir maiores rendimentos, com
vista a consumir mais e alcançar patamares sempre mais ambiciosos de vida
material.
Os reflexos negativos desta atitude são visíveis não só na saúde dos próprios
como no enfraquecimento e na perda de qualidade das relações intra-familiares,
no cuidado com as crianças e no tempo que lhes é dispensado pelos seus pais, bem
como na prestação de cuidados aos familiares idosos. Também a vida cívica,
política, cultural e religiosa se ressente da falta de tempo e disponibilidade
da população.
A este propósito, deixamos algumas interrogações a que só cada um/a poderá
responder:
- Será que vale mesmo a pena continuar com estes ritmos de trabalho stressantes?
A que bens teríamos de renunciar se optássemos por uma vida de menos stress? E o
que ganharíamos em troca?
- Com o progresso material já alcançado, não deveríamos valorizar mais as
relações humanas e dar maior prioridade aos bens relacionais e à qualidade da
vida pessoal, familiar e comunitária, nomeadamente naqueles casos em que já se
ultrapassaram as barreiras do necessário?
- Não será este um tempo oportuno para reorganizarmos a nossa vida por forma a
criar condições para a oração e a contemplação?
- Não estaremos, inadvertidamente, a servir o deus dinheiro e a sacrificar-lhe
os nossos melhores dons e energias?
6. Um risco de violência que é preocupante
A extensão e severidade da pobreza de uma parte considerável da população no
nosso País (cerca de um quinto) associada a uma visível e muito gritante e
crescente desigualdade na repartição da riqueza, do rendimento e das
oportunidades, estão criando um ethos social potencialmente gerador de tensões e
de conflitualidade social. Esta situação espelha-se em todo o território, como
atestam as ocorrências dos mais variados tipos de violência.
A situação em bairros periféricos de algumas das nossas cidades é
particularmente propícia ao afloramento de manifestações de violência e
constitui terreno fértil a que se desenvolvam acções de marginalidade social e
criminalidade, para não falar de uma anomia social generalizada existente nesses
territórios. A esta realidade não são estranhas as políticas de urbanização que
fomentam os guetos na cidade.
A proliferação de armas e o tráfico ilegal das mesmas encontram, neste contexto
de violência potencial, um terreno fértil. Trata-se de uma problemática para a
qual a sociedade civil só agora começa a despertar. É fundamental sensibilizar
mais as consciências acerca dos riscos que a proliferação das armas acarreta e
cuidar de forma mais eficiente dos meios para lhes fazer face.
Neste contexto, há, certamente, lugar para uma intervenção social apropriada,
mas há que, igualmente, pugnar pelo termo das causas que estão na origem desta
situação preocupante. Entre estas, cabe destacar o tipo de habitat em que
sobrevivem certas populações ou as dificuldades de acesso a um trabalho estável
e devidamente remunerado. Importa, igualmente, cuidar da melhoria das escolas e
serviços de saúde locais bem como dos demais meios de promover a inserção
social.
Gostaríamos, ainda, de sublinhar a importância de que se reveste uma acção
concertada entre todos os parceiros sociais e participada pela própria população
no sentido da requalificação urgente das áreas de habitat degradado, acção essa
que vise prevenir os riscos de violência e criar as indispensáveis sinergias de
inclusão social.
7. O dever de acolher os imigrantes
Os recentes acontecimentos em Ceuta e em Paris, vieram chamar a atenção da
opinião pública europeia para o grave problema da imigração no continente
europeu.
No primeiro caso, os governos dos países membros e a própria Comissão europeia
foram confrontados com um fluxo potencial de imigrantes africanos que, a
manterem-se as actuais condições de extrema pobreza em África, será dificilmente
controlável, sem recurso a formas extremas de repressão a que, certamente, a
maioria dos europeus não deseja recorrer, pois isso seria negar ideais básicos
de liberdade, justiça e solidariedade, que constituem pilares de uma filosofia
política e de uma cultura consolidadas ao longo de séculos. Importa re-afirmar
que o recurso a tais meios repressivos merecem inteira reprovação à luz dos
valores cristãos e dos direitos humanos.
No interesse de todos, haveria que encontrar modalidades de uma cooperação
privilegiada entre a União Europeia e os países da bacia do mediterrâneo que
abrisse caminho no sentido de um maior desenvolvimento humano e sustentável
dessa região. Por outro lado, não pode ignorar-se a situação dramática da região
sub-sahariana e remover, urgentemente, os bloqueios externos e internos ao seu
desenvolvimento. Também neste espaço geográfico os europeus detêm particulares
responsabilidades, pois muitos desses novos países foram antigas colónias cuja
exploração muito contribuiu para a prosperidade económica da Europa.
Os acontecimentos de Paris, por seu turno, vieram pôr em foco os desafios do
acolhimento e da integração dos imigrantes que chegam à Europa, sem esquecer as
segundas gerações, que, embora tendo já nascido na Europa, não conseguem
alcançar aqui um patamar de cidadania plena. Oxalá aquilo que se passou em Paris
e em outras cidades do centro europeu nunca venha a suceder entre nós. Mas,
sejamos realistas, se verdadeiramente o quisermos evitar, deveremos empreender
um redobrado esforço no sentido de uma integração melhor dos imigrantes que
vivem entre nós.
Essa integração passa, antes de mais, pela defesa dos direitos em matéria
laboral e de segurança social.
O imigrante não pode continuar a ser uma presa fácil de alguns patrões sem
escrúpulos e sujeito a uma sobre-exploração porque não tem documentos, não
conhece as leis do País e as suas estruturas administrativas, ou porque se
exprime mal em português e não tem amigos nacionais que lhe dêem apoio.
Diferentes entidades públicas e privadas, entre as quais algumas radicadas em
comunidades cristãs têm desenvolvido uma acção meritória neste domínio de
acolhimento aos imigrantes e será muito importante que continuem servindo estes
irmãos mais desfavorecidos, os estrangeiros que procuram no nosso País superar
as condições de grande pobreza em que seriam obrigados a viver se permanecessem
nos seus países de origem. Os riscos que correm nos seus percursos até ao
destino revelam bem que não se trata apenas de busca de uma vida mais
confortável mas da mais elementar sobrevivência.
As paróquias, sendo a presença territorializada da Igreja, estão particularmente
bem colocadas para uma ajuda de proximidade, a começar pelo apoio na obtenção de
documentos de identidade e/ou autorização de permanência, e bem assim para
fomentarem o incentivo à inserção social e à convivência cívica de todos. É uma
acção que deve ser assumida por todos os membros da comunidade pois esta não
pode ficar alheia ao acolhimento devido ao imigrante.
Analogamente, a problemática geral da regulação do fluxo das migrações e da
inserção dos imigrantes nos países de acolhimento deve merecer a nossa atenção e
empenhamento.
Ainda que, no limite, fossem adoptadas medidas fortemente repressivas (sempre
reprováveis, à luz de valores cristãos), tal não estancaria o afluxo de
imigrantes e poderia mesmo encorajar o reforço de redes de tráfico de pessoas.
Há, pois, que procurar soluções que satisfaçam critérios de equidade e de
respeito da dignidade da pessoa humana. Há que, promover uma mentalidade que
valorize o acolhimento e o bom relacionamento humano, entre nacionais e
estrangeiros, que favoreça a convivialidade e a solidariedade, que estime e
incentive a multiculturalidade.
A mudança de mentalidade em relação aos imigrantes é um desafio individual e
colectivo.
A este propósito, ocorre-nos deixar algumas pistas de reflexão.
- Como encaramos esta realidade que continuará com forte intensidade e de
difícil regulação enquanto subsistirem grandes desequilíbrios das capacidades
sociais e económicas entre os países?
- Consideramos os imigrantes, que vivem entre nós, como nossos irmãos e
reconhecemos que o seu contributo é útil à nossa sociedade? Ou tendemos, mais ou
menos conscientemente, a culpá-los da insegurança, do desemprego e da degradação
das condições laborais?
- As nossas preocupações não deveriam conduzir-nos à procura de caminhos para
enfrentar a origem destes males e para a procura de soluções compatíveis com a
caridade evangélica? Caminhos que passam pela melhor partilha dos bens da terra,
pela aceitação da diferença, pelo zelo no cumprimento das leis laborais, pelo
apoio a normas justas que regulem os fluxos migratórios, pela ajuda empenhada ao
desenvolvimento dos países mais pobres.
8. Pela dignificação do trabalho humano
Não obstante o progresso material a que temos assistido nos últimos 20 anos, a
que não é alheio o fenómeno da globalização da economia, temos de reconhecer que
o processo em curso tem sido acompanhado por um conjunto de consequências muito
desfavoráveis para boa parte do trabalho humano as quais não podem passar
despercebidas a quantos se preocupam em colocar a economia ao serviço da pessoa
humana, do seu bem-estar individual e colectivo.
Em primeiro lugar, porque a desterritorialização dos processos produtivos e a
competitividade alargada e em condições muito desiguais, que a globalização
proporciona, dão origem a situações de desemprego de difícil absorção, já que a
re-estruturação das economias com criação de novos empregos é lenta e a
re-qualificação dos trabalhadores exige, igualmente, tempo de adaptação a novos
empregos.
O desemprego elevado é hoje um dos fenómenos sociais mais preocupantes na nossa
sociedade.
Não ter emprego ou outra modalidade de actividade profissional remunerada
constitui, só por si, uma privação séria para a população em idade activa já que
se traduz em insuficiência de rendimento, uma vez que as prestações
compensatórias ficam aquém das remunerações potencialmente auferidas. Acresce o
facto de que o emprego é uma via importante de realização pessoal, de
socialização e de inserção social; e, bem assim, constitui um dos factores
primordiais de alicerce da auto-estima e do status social.
A falta de emprego está na origem de muitos comportamentos desviantes, assim
como de depressões e outras doenças do foro psíquico e mental.
A falta de emprego gera tensões sociais e conflitualidade e mina as raízes da
pertença social, seguramente um dos pilares mais sólidos de uma sociedade
democrática sã.
Por outro lado, na medida em que induz aceleração nos processos de inovação
tecnológica cada vez menos intensivos em mão de obra, a globalização dá lugar a
pressões no sentido de maior precariedade no vínculo laboral e gera maior
tolerância com a degradação das condições de trabalho.
Esta é uma situação que presentemente se vive entre nós e merece ser denunciada,
nas suas múltiplas manifestações: horários de trabalho excessivamente longos,
abuso do recurso a horas extraordinárias, salários baixos, desleixo nas
condições de higiene e segurança dos trabalhadores nos locais de trabalho, perda
de direitos inquestionáveis, utilização indevida de formas contratuais
precárias, etc..
A este propósito, cabe aqui fazer apelo não só a quem detém o poder de legislar
mas também à Administração Pública responsável pela aplicação das normas legais
e aos tribunais a quem compete sancionar atempadamente o respectivo
incumprimento.
É igualmente fundamental apelar à consciência dos empresários e gestores e, em
geral, à opinião pública para que se promova um maior respeito pela situação de
quem trabalha e pelos direitos dos trabalhadores.
Vivemos tempos de transformações profundas nas economias nacionais e mundiais
que exigem novos instrumentos de regulação deste processo evolutivo.
Estão desencadeadas iniciativas interessantes no plano mundial.
Entre elas, cabe saudar as que visam estender os direitos do trabalho a todos os
países. É importante prestar-lhes atenção. Mas que tal não nos dispense de, à
escala local e nacional, procurar, com urgência, caminhos de maior criatividade
na criação de novas oportunidades de emprego digno e justamente remunerado para
todos os desempregados que procuram trabalho.
A situação do desemprego juvenil é, a nosso ver, particularmente preocupante.
Muitas vezes com elevadas qualificações universitárias, os jovens que não têm
acesso ao primeiro emprego estão a desperdiçar um recurso que, por sua natureza,
não pode ser acumulado para ser utilizado mais tarde e, pior ainda, estão
privados de continuar a progredir na sua respectiva área de conhecimento.
Acresce que, sem emprego ou com emprego precário, como podem estes jovens formar
novas famílias, arranjar casa, fazer projectos de futuro?
Frustração para o jovem desempregado, o desemprego juvenil constitui também uma
séria disfunção do ponto de vista da organização da sociedade e das suas
potencialidades de desenvolvimento.
Neste quadro de reflexão, queremos deixar algumas interrogações:
- Quando tantas pessoas estão desempregadas, não se há de questionar, em alguns
casos, o duplo (e, ás vezes, triplo!) emprego, ou o recurso excessivo ao
trabalho extraordinário?
- Não seria possível, a nível local, incluindo as próprias paróquias, cuidar de
ajudar os desempregados a criar para si próprios novos empregos em actividades
consideradas úteis do ponto de vista da colectividade ou mesmo em áreas de
produção de bens e serviços, sobretudo em áreas desconsideradas pelo mercado?
- Não é chegada a hora de reflectir seriamente numa repartição mais justa do
emprego?
Há pessoas que pensam que, na sociedade globalizada em que nos encontramos, são
as empresas multinacionais, o mercado mundial, as instituições financeiras e as
grandes organizações económicas regionais e mundiais as únicas instâncias que
podem ter uma palavra a dizer na concretização do processo de globalização em
curso e nada resta aos mais fracos, pessoas, governos e povos, senão a pura
submissão ou a revolta. Mas não é assim. Os governos devem continuar a ser
responsabilizados por políticas que visem o bem comum, designadamente promovendo
estratégias de desenvolvimento humano e sustentável e adoptando adequados
esquemas de protecção social que permitam enfrentar as crises (desemprego e
outras) com os menores custos sociais e humanos possíveis.
Consideramos que é também uma ocasião para apelar a uma maior exigência de
participação da sociedade civil – cidadãs e cidadãos de todas as idades e
condições sociais, empresas, associações, instituições, grupos informais - e a
que cada um assuma o papel que lhe cabe na “construção da cidade”. Nas
sociedades democráticas, é cada vez mais necessário que a democracia
representativa seja complementada e estimulada pela democracia participativa.
Apelamos às comunidades cristãs, paróquias e movimentos a que acolham estas
problemáticas no âmbito das suas reflexões e preocupações pastorais correntes.
A recente encíclica do Papa Bento XVI, Deus caritas est, oferece um ensinamento
claro sobre a importância das obras sociais da Igreja e de como estas devem
responder às novas necessidades da sociedade, com eficiência e dando testemunho
do amor cristão.
9. Em defesa dos bens públicos
Não se pode ignorar a importância que o acesso a bens públicos – água e
saneamento básico, serviços de saúde ou de educação, segurança social e
assistência em situações de particular necessidade – tem para largas parcelas da
população. Fazem parte integrante de um modelo social, até há poucos anos,
incontestado.
Hoje, porém, no mercado europeu e global, assiste-se a uma forte pressão no
sentido de tentar captar para o mercado a oferta de tais bens, ainda há pouco da
responsabilidade de sector público. É o que sucede, por exemplo, no domínio do
abastecimento de água potável às populações, o que já motivou fortes protestos
por parte de alguma opinião pública mundial que vê no negócio privado da água
uma propensão ao seu encarecimento e uma dificuldade acrescida de acesso a esse
bem primordial por parte das populações mais carenciadas.
O mesmo se poderá dizer em relação aos cuidados básicos de saúde ou à educação,
os quais caberá ao Estado, directa ou subsidiariamente, garantir em igualdade de
oportunidades para todos os cidadãos e cidadãs, sem prejuízo das
responsabilidades da sociedade no seu todo.
Porque se trata de opções que muito têm a ver com a justiça e a solidariedade,
pensamos que, neste domínio, cabe aos cristãos uma particular responsabilidade
no sentido de defender a manutenção deste tipo de bens de interesse geral na
esfera não lucrativa bem como pugnar sempre por uma maior eficiência na sua
provisão e uma maior equidade no respectivo acesso.
10. Confiança nas instituições e reabilitação da política.
Não ignoramos que, veiculada pela situação económica e social, e não só, existe
também, entre nós, uma séria crise política que se concretiza em várias frentes:
o desinteresse da maioria dos cidadãos e cidadãs pela vida política e
partidária, indiferença crescente em relação a actos eleitorais, desconfiança
generalizada relativa às instituições democráticas, suspeição de corrupção fácil
e impune por parte de funcionários e políticos, etc..
É imperioso reverter este panorama, eliminando os seus possíveis fundamentos.
Em particular, é urgente credibilizar a justiça no nosso País, tornando-a mais
célere e responsável.
É, igualmente, indispensável que o acesso à justiça esteja ao alcance de todos
os cidadãos e cidadãs, independentemente do seu nível de rendimento e capacidade
de pagamento de custas e de honorários a advogados.
Que, entre nós, por nenhuma razão, possa prevalecer a convicção, tão
generalizada quanto deprimente, de que a justiça só está ao alcance dos mais
afortunados.
Ultimamente têm vindo a público factos que indiciam que entre o poder político e
o poder económico se estão entretecendo relações pouco transparentes. Não se
compreende, por exemplo, que aqueles que deixaram cargos públicos de relevo
venham, quase sem interrupção, a ser contratados como administradores e gestores
de empresas, mormente quando estas se situam precisamente em sectores por
aqueles anteriormente tutelados. A opinião pública tem denunciado estas
situações, mas, por ora, sem consequências visíveis. Há, obviamente, que
legislar nesta matéria, mas é necessário, sobretudo, que a consciência colectiva
as considere eticamente reprováveis e encontre os instrumentos adequados para as
inviabilizar na prática.
Não deverão as nossas comunidades cristãs estar vigilantes neste domínio e
empenhadas em contribuir para uma maior exigência no que se refere a
comportamentos éticos na política e na condução dos negócios?
E que responsabilidade particular não têm os políticos e gestores que se
reconhecem como mulheres e homens de fé em Jesus Cristo?
11. A Quaresma – um tempo oportuno de conversão e de esperança
A Quaresma é tempo oportuno para olharmos para as mudanças em curso e para o
modo como elas nos atingem e nos desafiam. Devemos fazê-lo, não a partir das
nossas visões preconceituadas e dos nossos interesses individualistas e
egoístas, mas deixando-nos guiar pela luz do Evangelho e situando-nos sempre num
horizonte de esperança.
Ao terminar esta nossa reflexão sobre aspectos relevantes do nosso viver em
comum, em tempo de turbulência e de risco, queremos, ainda, acrescentar algumas
interrogações que ajudem a uma reflexão pessoal e comunitária, neste tempo que
deverá ser de revisão de vida, discernimento e conversão:
- Como encaramos a mudança? Com temor ou com esperança?
- Será que, nós próprias/os seguimos um modelo de vida consumista e nos sentimos
desanimados/as só porque não podemos continuar com o ritmo de consumo a que nos
habituámos?
- Não será esta uma oportunidade para rever, se for caso disso, os critérios
básicos em que assenta o nosso estilo de vida? Se não estivermos atentos, o
consumismo cria em nós o sentimento de que tudo é necessário, ao ponto de
sacrificar-lhe valores importantes, tais como a vida familiar e a qualidade das
demais relações humanas, para podermos consumir mais, ter mais coisas.
- Em que está assente o nosso conceito de felicidade?
- Assumimo-nos como sujeitos activos deste mundo em transformação ou
resignamo-nos a ser apenas sujeitos passivos, privilegiados ou vítimas?
- Será que a magnitude dos desafios nos deixa conformados com a aparente
inevitabilidade dos processos em curso e indiferentes ao cortejo das suas
vítimas, ou, pelo contrário, nos move na busca de novas alternativas e nos leva
a mobilizar as nossas energias no sentido de aproveitar as potencialidades
criadas para abrir caminho à justiça, à solidariedade e à fraternidade, em todos
os espaços de proximidade em que nos movemos, mas sem esquecer o vasto Mundo e a
construção de uma cidadania mundial a que apelava João Paulo II?
Neste esforço de humanização, os discípulos e discípulas de Cristo, suas
comunidades e movimentos não estão isolados.
Mais do que nunca, importa reconhecê-lo e, através do diálogo e da concertação,
encontrar plataformas de cooperação que libertem as sinergias de que o nosso
mundo globalizado carece para não cair em novas barbáries.
Queremos um mundo de todos e para todos!
A Palavra de Deus que a Igreja oferece à nossa reflexão, em cada dia e em cada
Domingo da Quaresma, é uma interpelação sobre o fundamental, sobre aquilo que
realmente interessa para sermos felizes.
Para construirmos um mundo justo e fraterno, um mundo de paz.
Para captarmos o verdadeiro sentido de Páscoa, a passagem da morte à vida,
através do caminho estreito do amor e do serviço.
Para realizarmos a nossa própria Páscoa. |