A Esperança posta à prova
  A Esperança posta à prova
 

Reflexões de 2 Amigos de Betânia

A propósito da Cimeira Europa - África

Manuel António
Maria do Céu
 

Manuel António Ribeiro

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Janeiro - 2008

Revitalizar as Raízes da Esperança
 

Coube a Portugal organizar a II Cimeira Euro-Africana, evento que visou dar novas bases ao diálogo entre dois continentes, ainda com muitas chagas por sarar. As cimeiras anteriores não obtiveram os resultados esperados, a avaliar por indicadores do que se passa em numerosos países africanos, onde persistem a pobreza absoluta, doenças endémicas devastadoras, como acontece com o HIV, e um crescimento económico insuficiente. Parece apostar-se agora numa cooperação que tenha como actores do desenvolvimento não apenas os governos mas também as sociedades dos dois continentes.
Apesar de todas as dúvidas suscitadas, esta cimeira vale pelas esperanças que alimenta. Porque só a cooperação, envolvendo todas as nações, poderá garantir um melhor futuro para o nosso planeta, não podemos ficar indiferentes aos grandes desafios desta frente de cooperação intercontinental. Assistimos a uma globalização sem solidariedade que está a afectar negativamente os sectores mais pobres. A miséria no Terceiro Mundo é uma distorção muito mais negativa do que a simples exploração gananciosa dos seus recursos, pois, além das graves carências materiais que provoca, exclui os seus cidadãos de qualquer centro de decisão. O direito de pertença à sociedade é atingido nas suas próprias raízes, por força de uma globalização ambígua e manipulada que está a criar cidadãos sem cidadania. São povos inteiros, culturas e pessoas que se tornam «invisíveis» aos olhos dos poderes de decisão. Estes agem como se aqueles não existissem.
Vivemos num mundo que muitos definem como aldeia global, mas a realidade diz-nos que os homens e povos continuam a viver profundamente divididos e mutuamente receosos. São muitas as barreiras da incomunicação que conduzem à desconfiança e à defesa de interesses próprios e egoístas. Já foram abundantemente delineados os caminhos a percorrer para que esta situação seja alterada. O que continua a faltar é vontade para agir em consequência. Cabe-nos testemunhar essa utopia que chamamos esperança, acreditando que a história humana, apesar da sua lenta e contraditória caminhada, avança para uma maior consciência da fraternidade entre todos os povos. Apesar de eventuais egoísmos e interesses inconfessados, a Cimeira Euro-Africana e o Fórum da Sociedade Civil (promovido na mesma altura pela Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento) são um sinal da mobilização da opinião pública a favor da adopção de políticas geradoras de uma maior justiça, ao nível internacional. Não podemos ter medo nem vergonha de ser paladinos das causas que visam a construção de uma solidariedade, assente no desenvolvimento como um direito universal. Este é um dos apelos da mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz. Ao referir-se à família humana, crescentemente interligada pelo fenómeno da globalização, o Papa lembra que a humanidade «além de um alicerce de valores compartilhados, tem necessidade de uma economia que corresponda verdadeiramente às exigências de um bem comum com dimensões planetárias». Com humildade, mas com firmeza, devemos proclamar que o homem tem em si capacidades para construir uma sociedade mais justa, que faça avançar a nossa civilização para um humanismo integral e solidário.
Marcados pelas nossas próprias contradições e afectados pela violência humana, corremos o risco de nos fecharmos ao outro. Mas Jesus, que morreu como um rejeitado, convida-nos a empenhar-nos pela defesa do direito de cada pessoa ocupar um lugar na sociedade. Nascendo como um excluído, Ele enche os excluídos da sua Presença, o que torna ainda mais intolerável toda a estrutura que reduza as pessoas a coisas que se descartam, depois de utilizadas.
João Paulo II designou a solidariedade como uma virtude cristã, por haver numerosos pontos comuns entre ela e o amor, sinal distintivo dos discípulos de Cristo. A Igreja, para se poder afirmar como Católica (universal), terá de aparecer diante dos homens como uma comunidade empenhada em construir um mundo de comunhão, segundo o espírito traçado pelo Concílio: «De alguma maneira, a Igreja é, em Cristo, o sacramento, isto é, o sinal e o meio da união íntima com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen Gentium, nº 1).
Contra ventos e marés, temos a missão de recordar ao mundo, nestes tempos de unanimidade medíocre e subserviente, que o projecto divino de uma fraternidade universal subverte a ordem instituída, responsável por situações «em que o fraco tem de vergar a cabeça (...) à força nua e crua de quem possui mais meios do que ele», como lamenta o Papa na referida mensagem.
O Espírito, que inundou a terra na manhã de Pentecostes, é o Logos espermático que continua a fecundar toda a história dos homens para a vida em abundância. Por isso, a humanidade só se sacia no desejo de imortalidade. Acreditamos que Ele actua secretamente em cada um de nós e em todo o cosmos. A humanidade tem futuro porque quem aposta em Deus, aposta no porvir. É essa ousadia da fé que nos leva a assumir a existência como vocação e como missão, como apelo e como envio de Deus.

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