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Laurence
Freeman
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Rumei a Cascais
com uma curiosidade serena. Ia alegre pela oportunidade, trazida por mão
amiga, de me encontrar com o monge beneditino Laurence Freeman, durante
a sua curta estada entre nós. O que dele e do seu trabalho conhecia
caucionavam a minha serenidade e alegria. Quando entrei na grande sala,
fui primeiro apresentada a uma senhora chinesa, de quem me disseram ter
o cognome de "Imperatriz da China" e, depois, ao padre Laurence.
Segurava nas mãos um livro, um pesado volume sobre o Tibete e, sorrindo
a folhear a obra, assistiu ao café que me foi oferecido, aguardando, sem
impaciência, que o sinal para que a entrevista começasse fosse dado.
Pelo meu lado, gostaria de ter podido conversar mais, à margem da fita
gravadora, mas o tempo devia ser aproveitado ao segundo. Director da
WCCM - World Community for Christian Meditation (Comunidade Mundial para
a Meditação Cristã), com sede em Londres, o padre Laurence veio a
Portugal orientar um retiro de dois dias e participar no painel dedicado
ao "Louvor da Beleza - Um Caminho para a Paz", patrocinado pelas
fundações Cuidar o Futuro e Calouste Gulbenkian. É um homem de trato
delicado, com uma presença física forte, de olhar perspicaz e (com
frequência) bem-humorado, mas é sobretudo alguém habitado por uma fé
poderosíssima e por uma consciência, militante, do que há a fazer com
essa fé para aliviar os outros das suas mágoas e exaltá-los a celebrar a
vida. Com um raro domínio da palavra, compõe o seu discurso de um modo
simples e límpido, de quem sabe que é também pelo verbo que os caminhos
podem ser encontrados e traçados. Esta passagem das "Confissões" de
Santo Agostinho parece irmã natural da admirável intervenção que fez em
Lisboa: "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!
Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos!"
MJS - Padre Laurence, diga-me quem é.
LF - Sou um monge, não um muito bom monge, mas, seguramente, muito um
monge. São Bento disse que um monge é simplesmente alguém que procura
Deus. Creio ser isso o que tento fazer.
MJS - Diz-me então "ser" o que tenta fazer - alguém que procura Deus.
Mas eu procuro saber mais de si...
LF - Penso que o modo como faço isto que faço, ser um monge, alguém que
procura Deus, vai mudando com os anos, com os diferentes períodos da
minha vida, com as diferentes situações em que me encontro e com as
novas relações que vou estabelecendo e em que me envolvo. Não penso que
esgoto a minha identidade com o que faço, embora me encontre a mim
próprio, como sou, nisto que faço.
MJS - Sentiu cedo essa necessidade da procura de Deus?
LF - Desde criança. Fui criado num ambiente religioso, onde nunca me
senti pressionado ou forçado, mas onde o sentimento de religiosidade era
tão absolutamente natural que o absorvi, também com grande naturalidade,
desde muito cedo. Vivi a minha infância com uma devoção intensa, mas,
entrado na adolescência, o aspecto dos serviços religiosos passou a ser
menos importante para a procura de Deus. Afastei-me, nessa altura, da
Igreja, sem estar zangado ou fazer qualquer rejeição, mas porque as
obrigações externas do culto me pareceram, então, pouco relevantes.
Olhando para trás, julgo que o facto de me ter alheado dessa dimensão
das práticas religiosas não me desviou da procura de Deus. Fazia-o de
outras maneiras. À medida que fui crescendo e que a vida foi ficando
maior e com novos desafios, a procura de Deus passou a ser mais
inclusiva e fui-me dando conta de que essa procura é, essencialmente, a
procura de nós próprios, do nosso verdadeiro "eu", bem como do
verdadeiro "eu" dos outros com quem nos relacionamos. A procura de Deus
passou também a ter mais a ver com a exigência de justiça nas relações
que ia estabelecendo e na sociedade em que vivia, bem como no mundo em
geral. Ou seja, com o andar dos anos, a procura foi-se tornando em mim
cada vez mais como um princípio unificador, apesar de me sentir confuso
com a mudança das definições que me iam surgindo como mais apropriadas.
Até a maneira de definir Deus começou a transformar-se.
MJS - É possível definir Deus?
LF - Acho que sim, desde que não se fique agarrado a uma única
definição, porque desse modo corre-se o perigo de se passar a ser
fanático ou fundamentalista. Para mim, a mais universal, mais profunda,
simples e bela forma de definir Deus é a que diz - Deus é amor. No
conceito de amor encontra-se tudo o que Deus é - verdade, beleza e bem.
MJS - Ao eleger essa formulação, encontra-se com a tríade platónica.
LF - Claro, mas se Platão é um dos pilares fundadores do pensamento
cristão, da tradição mística cristã e de toda a filosofia ocidental!
Estive há pouco tempo numa universidade americana a dar um curso sobre a
história do misticismo cristão e comecei as aulas justamente com a
"alegoria da caverna" de Platão. Perceber como os homens estão
prisioneiros naquela caverna a olhar para as suas sombras projectadas
nas paredes, a tomá-las como se fossem a realidade por desconhecerem que
são apenas sombras criadas pelo fogo que arde atrás das suas costas, até
que alguém (o "profeta" libertador) lhes explica que o que vêem são só
sombras e os impele para o difícil passo de deixarem a caverna e virem
até à luz do dia, onde, apesar de encandeados pelo primeiro contacto com
a claridade, poderão ver as coisas como elas realmente são, é uma grande
lição. Esta lição da "metáfora da caverna" sobre a via a percorrer na
busca do verdadeiro sentido do conhecimento contribuiu para moldar
profundamente o pensamento ocidental.
MJS - Que novo contributo, essencial para a transformação da história do
pensamento ocidental, foi trazido, no seu entender, pelo cristianismo?
LF - Penso que foi um novo modo de amar, um novo modo de compreender o
significado do "amor". O Evangelho fez explodir a ideia, tradicional até
então, de que basicamente se amava em conformidade com os limites da
nossa cultura, da nossa agenda, da nossa raça. A história do bom
samaritano é uma parábola-chave do Evangelho, porque nos revela que
afinal somos livres para entender que o nosso vizinho é aquele que
escolhemos para nosso vizinho, e que a resposta a dar, especialmente aos
que sofrem e precisam de auxílio, tem de vir intuitivamente da nossa
humana e natural compaixão. Neste sentido, aquilo que o cristianismo
trouxe como contributo novo para a consciência humana foi a
universalidade do valor do amor, a ideia de que cada ser humano é
igualmente amável. Para mim, para eu ser completamente humano, é
indispensável que corresponda ao desafio desse valor em relação a todas
as pessoas. O valor e o significado do outro como "pessoa" passaram a
depender da nossa maneira de reconhecermos nele essa prerrogativa de ser
amável, de poder ser amado, de um modo único, insubstituível, que lhe
pertence só a ele, porque faz parte integrante da sua inconfundível
entidade. Pensar nestes termos, acreditar neles, é qualquer coisa que
nos obriga, hoje em dia, a lutar pela sua preservação no interior da
nossa cultura, porque passámos a ser uma sociedade de "indivíduos",
separados uns dos outros, embora vivendo política, social e
economicamente no interior de um "colectivo", controlado, mais e mais,
por forças externas. Viajo muito e dei-me conta, nos últimos anos, de
que deixei de ser um "viajante", ou um "passageiro", passei a ser um
"utente". As saudações de boas-vindas no início de uma viagem de comboio
ou de avião começaram já, em muitos percursos e companhias, a
dirigir-se, expressamente, aos "senhores utentes". A ideia de se ser um
viajante, alguém que se desloca de um sítio para outro, com tudo o que
isso representa de mágico e de maravilhamento, está a perder-se; agora
somos apenas alguém que compra um bilhete e um serviço. Esta
identificação crescente da nossa identidade com o estatuto económico que
possuímos e com as relações comerciais que estabelecemos é, do meu ponto
de vista, uma ameaça e um empobrecimento. Nos Estados Unidos da América,
à pergunta de um inquérito - "O que é que mais gosta de fazer nos tempos
livres?", a maioria das respostas foi - "Ir às compras!" O consumismo,
como se está a viver na actualidade, afasta-nos do reconhecimento do
outro (e de nós próprios) como "pessoa". A ideia da "persona", amável na
sua entidade própria e única, tenderá a desaparecer se aqueles que
acreditam no seu valor não derem o exemplo, se em todas as
circunstâncias das suas vidas não lutarem concretamente pela sua
exteriorização e prática. O Evangelho e as nossas tradições espirituais
lembram-nos isso continuamente, e forçam-nos a recuar à verdade de
sermos "pessoas" e não meros "indivíduos". Não somos descartáveis, como
este gravador. Como "pessoas", somos únicos, e o que nos define e
explica são as relações que mantemos uns com os outros, com tudo o que
nos rodeia, com o legado que recebemos dos que antes de nós viveram.
MJS - A sua "pessoa" abraçou uma religião, a católica, e escolheu uma
ordem particular, a beneditina. As regras da sua religião e da sua ordem
não criam limites ao estabelecimento de relações, verdadeiramente
universais e igualitárias, com todos aqueles com quem se cruza?
LF - Percebo a sua pergunta, que levanta a questão paradoxal da
pertença, obediente, a um conjunto preciso de princípios, por um lado, e
do relacionamento, natural e próximo, com quem nada tem a ver com eles,
por outro. Não é fácil explicar, mas vou tentar. O que quer que seja em
que uma pessoa se concentra, essa concentração contribui para aprofundar
a consciência de si próprio. O paradoxo está justamente aqui - quanto
mais uma pessoa se concentra, mais se expande. Ao fazer um determinado
número de escolhas na minha vida, como por exemplo ser monge beneditino,
experimentei (e continuo a experimentar) uma enorme liberdade que
ultrapassa em muito as limitações das regras que aceitei seguir e
cumprir. Todos temos limitações, e é só quando as aceitamos
(comportando-nos normalmente dentro do seu quadro de referências) que as
conseguimos transcender, o que acontece em momentos de graça, ou de uma
particular beleza. Creio que as melhores coisas que nos acontecem na
vida surgem de forma inesperada, gratuitamente, em pura dádiva. Por
exemplo, já disse que sou alguém que procura Deus, mas, se estiver
permanente e conscientemente entregue a essa busca, é provável que não
seja desse modo que O encontre. Devemos estar prontos para reconhecer e
acolher os dons, gratuitos, que a vida nos pode oferecer. Ao sabermos
aceitar as limitações e as estruturas de uma específica forma de viver,
preparamo-nos melhor para o inesperado que pode ocorrer no nosso
caminho.
MJS - Será que os fundamentalismos religiosos, com que o mundo actual se
defronta de um modo violento, decorrem também do facto de os seus
arautos e seguidores não conseguirem aceitar nem conviver com as suas
próprias limitações?
LF - Qualquer fundamentalismo religioso - islâmico, cristão, judaico,
outros, é sempre uma traição à essência de uma religião. Não acho que
seja possível viver sem uma qualquer espécie de disciplina. Sem ela não
há moderação, e a falta de moderação acaba por nos arrastar para a
crise, seja religiosa, económica, psicológica, ecológica... Se não
aprendermos o significado da disciplina, depressa teremos o nosso
planeta destruído. Falo em disciplina porque é um conceito que me
interessa muito. A palavra "disciplina" está relacionada com
"discípulo". O discípulo é alguém que, livremente, sublinho que tem de
ser livremente, pratica uma disciplina. Se a religião, ou o Estado, ou
uma instituição forçar alguém a seguir uma determinada disciplina, então
ela acaba por destruir a humanidade desse alguém. Uma disciplina tem de
ser libertadora e só o é quando livremente escolhida e aceite. Pode ser
necessário alguma ajuda para a sabermos praticar, ou ensinamentos de um
mestre para conhecermos o seu verdadeiro significado, mas isso não é o
mesmo que sermos forçados a segui-la. Quando uma religião força alguém a
qualquer coisa que a pessoa não escolheu em liberdade, essa religião
deixa de ser espiritual e torna-se uma força opressora. E isso tem um
nome - fundamentalismo. O trágico é que há alguma coisa na mente humana
que faz com que, sempre que em situação de crise, se fique logo pronto a
sacrificar a liberdade, a nossa e a dos outros. Vemos isto acontecer em
muitas partes do mundo hoje em dia - sob a égide do medo do terrorismo,
da guerra do terror, muitos são levados a aceitar a redução das suas
liberdades civis, por razões de segurança. Insisto nas palavras
"disciplina" e "discípulo" e na importância da sua aprendizagem para
contrariar o actual estado das coisas. A raiz etimológica de ambas vem
do latim "discere", que quer dizer - aprender. O que é que um discípulo
deve fazer? O verdadeiro discípulo deve, em plena liberdade e de acordo
com uma disciplina que adoptou, mas que não lhe impõe regras rígidas,
aprender a ser humano, aprender a ser ele próprio. Essa é a sua escolha,
e deve praticá-la todos os dias, nas mais diferentes circunstâncias da
sua vida, com cada pessoa com quem se relacionar.
Falemos agora no relacionamento entre religiões. Há dois pensamentos,
opostos, que atravessam no momento as diferentes religiões no mundo. Um,
que é o que promove e estabelece o diálogo, reconhece que, quer sejamos
budistas, muçulmanos, judeus, cristãos, hindus, sikhs, baha"is, temos
todos uma base comum, a que chamamos Deus (com excepção dos budistas), e
que é, como na caverna de Platão, a via que nos ajuda a sair das sombras
para o reino da luz, onde podemos conhecer a verdadeira realidade. O
outro pensamento, dominante em determinados sectores religiosos, recusa
admitir que a base em que todos assentamos seja a mesma, afirmando que o
"seu" Deus é o único Deus, que a "sua" definição de Deus é a única
verdadeira, que todas as outras estão erradas e são mesmo "suas"
inimigas. Esse é o que alimenta o fundamentalismo.
MJS - Tem esperança numa evolução das consciências, de forma a ser
possível contrariar e banir esse tipo de radicalismo hostil e a
aproximar os que acreditam no diálogo harmonioso e pacificador?
LF - Pense no que em nome do cristianismo já se fez em séculos
anteriores, em como até há menos de 50 anos, e em nome da fé cristã, se
mantiveram impérios coloniais. O nome de Deus (católico, protestante,
judaico, islâmico...) foi muito usado e abusado ao longo dos tempos, mas
creio sinceramente que há, cada vez mais, uma nova consciência a emergir
(pese embora a explosão de bolsas fundamentalistas), uma consciência que
exige de todos que assumam a sua verdadeira e universal humanidade, que
vivam de acordo com ela. É uma profunda evolução, um movimento que vem
caminhando de longe, devagarinho, mas que começa a ter alguma
visibilidade no nosso tempo. A escritora francesa Simone Weil, uma das
minhas figuras de referência, ajudou à compreensão da necessidade desta
consciência, quando definiu o conceito de "nova santidade" como sendo o
mais apropriado para os tempos modernos, porque é aquele que vê e
reconhece a "consciência universal da humanidade", onde ninguém pode ser
excluído. E há sinais, embora ténues, do despontar dessa consciência em
vários domínios, como a política, a religião, a ecologia, a economia...
MJS - A meditação, que tanto louva e ensina a praticar, será talvez uma
via para prestarmos mais atenção a esses sinais. Como é que aprendeu a
meditar?
LF - O meu mestre espiritual foi o padre John Main. Não me tivesse eu
encontrado com este extraordinário homem e talvez não fosse hoje um
monge beneditino, nem tivesse descoberto o valor espiritual da
meditação. Teria 14 anos quando o conheci. Era professor na escola,
dirigida por beneditinos, que eu frequentava em Londres. Acompanhou a
minha formação desde essa altura e foi ele quem, no meu segundo ano na
Universidade de Oxford, onde estudei Literatura Inglesa, me introduziu
nos caminhos da meditação. Não pensava vir a ser monge, mas comecei a
aprender, ao princípio não muito bem, a meditar. A nossa relação
aprofundou-se e John Main tornou-se no meu mestre espiritual. Acabado o
curso, ainda pensei em doutorar-me e seguir a via académica, mas fui
trabalhar para a banca (mundo que me fascinava, embora não fosse bom a
Matemática) e depois fiz jornalismo. A um dado momento, o padre John
Main decidiu criar uma comunidade laica no mosteiro onde ensinava, o
mesmo que eu tinha frequentado em rapaz. A ideia de viver com os monges
no mosteiro, durante seis meses, e de aprender a meditar sob a sua
orientação intrigou-me. Era uma experiência bastante intensa, mas quis
fazê-la, precisava da disciplina que aquela aprendizagem exigia.
Pedi-lhe para ser aceite. A experiência foi fortíssima, dolorosa mas
excitante, e mudou o rumo da minha vida. No fim dos seis meses, era
suposto regressar ao mundo do trabalho, mas percebi que já não tinha o
mesmo entusiasmo pelo jornalismo ou por aquilo que até aí fizera. Também
não queria entrar para o mosteiro. Senti-me "apanhado" num dilema de
escolha. Estes são os momentos em que geralmente se cresce, em que
ficamos mais próximos do nosso verdadeiro "eu". Tinha uma ideia, vaga,
de que talvez mais tarde me fizesse monge, quando tivesse concretizado
as minhas ambições, quando o meu ego estivesse satisfeito. Mas
faltava-me a energia e o gosto para voltar ao mundo da "carreira", a tal
que me tornaria um dia "rico e famoso". Depois de uma grande luta comigo
mesmo, percebi que não tinha alternativa e decidi entrar na Ordem,
tornar-me monge. O padre John Main, com quem fui ter, não me encorajou,
mas ajudou-me muito a perceber o sentido daquela decisão, decisão que
devia ser exclusivamente minha.
MJS - Fale-me agora de um outro sentido, o da meditação, do seu
significado e contributo para a descoberta do verdadeiro "eu" de cada
pessoa, da nossa humanidade.
LF - Meditação é o que os monges e mestres mais antigos diziam ser a
"oração pura" ("oratio pura"). Foi com os ensinamentos desses primeiros
monges, os padres do deserto, que John Main recuperou o sentido da
meditação e a sua importância para a vida dos cristãos. As pessoas que
querem aprender a meditar fazem-no porque precisam de uma experiência
mais profunda da vida. A maioria anda à procura de Deus. Há várias
maneiras de rezar e de se chegar à meditação. Quando em criança aprendi
a rezar, fazia-o de acordo com alguns preceitos que me ensinavam a dar
graças a Deus, a imaginar Deus, a pedir-Lhe ajuda, a conversar com Ele.
Quando ia à igreja, rezava em adoração a Deus, prestava-lhe culto. Soube
mais tarde que era possível uma outra forma de comunicação com Deus, que
se chamava "concentração", mas a essa experiência só alguns, os
místicos, conseguiam aceder. Rezar, nos termos que acabei de referir,
era uma coisa "mental". Ora a meditação é a oração que se faz com o
coração, não com a cabeça. Quando se começa a meditar, passa-se a
compreender a oração de uma maneira diferente. Costumo dar um exemplo -
rezar é a nossa viagem até Deus e a oração pode ser vista como uma
grande roda. Os primitivos cristãos diziam: "O modo como rezas é o modo
como vives." Esta definição é aquilo a que nos tempos modernos se chama
"espiritualidade". A espiritualidade não é um extra que se aplica à
nossa vida, tem de ser o modo como se vive a nossa vida, em todos os
aspectos, do económico, ao afectivo, ao mental, ao religioso... Sendo a
oração a tal grande roda que faz girar a nossa vida até Deus, há nela
vários raios - são as diferentes formas de rezar, que podem ser ir à
igreja, ler as Escrituras, conversar em silêncio com Deus, cozinhar,
olhar para o mar, pintar, acariciar um ser amado... Desde que se esteja
completamente envolvido no que se faz, de uma forma inclusiva e
generosa, religiosamente ou não, fazemos parte dos raios da roda. Onde é
que todos os raios se encontram? No ponto central da roda, no eixo. O
que é que vemos acontecer no eixo? Vemos que a diversidade das múltiplas
formas de "oração" se encontra e funde na unidade daquele único espaço
aberto para onde todos os raios convergem. Essa é a essência da oração,
o seu coração. Para mim, como cristão, o eixo da roda é o espírito de
Cristo e é lá que a minha oração se transforma na Sua oração. São Paulo
disse - "Não vivo mais tempo do que o tempo que Cristo vive em mim."
Podemos, se preferirmos, dizer que o que encontramos no eixo da roda é a
quietude. Não havendo quietude, a roda não consegue girar. Essa quietude
é a meditação. A prática da meditação leva-nos até à quietude e é
através da "atenção" que a atingimos. Sobre este ponto, Simone Weil,
mais uma vez ela, escreveu - "A atenção purifica, purifica o nosso
egotismo." Ora, quando em criança nos ensinaram a rezar, provavelmente
disseram-nos que a natureza profunda da oração era a "intenção" - o que
queremos dizer a Deus, o que desejamos que Ele nos conceda, etc. Essa
não é a maneira mais profunda de rezar. Se percebermos que é pela
"atenção" que chegamos a Deus, ou a um outro, conseguiremos então
atingir a unidade e estaremos verdadeiramente juntos. Meditar
convoca-nos para a "atenção", não está em oposição ao que fazemos quando
rezamos, mas é distinto.
MJS - Veio a Portugal também para participar no painel "Em Louvor da
Beleza - Um Caminho para a Paz". Regressando aos três pilares do legado
platónico, porquê a beleza, e não o bem ou a verdade?
LF - A trindade (conceito de grande importância em todas as religiões)
do bem, do belo e da verdade é a que melhor revela, para a nossa
compreensão, a essência de Deus. Para o pensamento cristão, digamos que
essa é uma antiquíssima antecipação, ou intuição, da Divina Trindade. Na
história do cristianismo, a ênfase foi sempre posta no bem e na verdade.
O judaísmo e o islão, por exemplo, não tiveram a obsessão com as
definições da verdade (a verdade dos dogmas, a verdade do verbo...),
como o cristianismo que, durante séculos e séculos, baseou a sua vida em
torno dessa questão. Focámo-nos continuamente na verdade e também, como
base da moral, no bem. Debates controversos e intermináveis sobre estes
dois conceitos atravessaram a vida dos cristãos. Foi excessiva e errada
a focagem quase exclusiva no bem e na verdade, negligenciando o pólo da
beleza. Filosófica e teologicamente, esquecemos um aspecto essencial de
Deus, o belo. De um ponto de vista humano, podemos viver a experiência
do belo de várias maneiras. A beleza física do corpo, no apogeu da vida
ou no momento da morte, a beleza de uma obra de arte, a beleza da
Natureza, de uma descoberta científica, etc... Sempre que dizemos que
alguma coisa é bela, estamos a dizer que descobrimos nela um dom, uma
dádiva, algo que não podemos controlar ou medir com exactidão, que não
está nas nossas mãos fixar e que, de algum modo, contém em si uma
espécie de segredo, uma verdade que escapa a uma definição comum. Por
tudo isso, a beleza tem uma grande capacidade para nos "curar", para nos
refrescar e regenerar. Se nos sentimos presos a um dogma, ou a uma
moral, ou a uma ideologia, a percepção do belo tem o condão de nos
libertar, de nos aproximar da verdadeira essência da realidade com que
nos defrontamos, de nos reconduzir a uma espécie de inocência perdida. A
experiência da beleza, na sua totalidade - física, mental e espiritual,
está para além da dualidade da compreensão que, normalmente, preside às
outras experiências que vivemos. A mente funciona dualisticamente: mal e
bem, feminino e masculino, certo e errado, claro e escuro... Se vivermos
exclusivamente ao nível da dualidade, vivemos em conflito e o conflito
conduz à violência. Quando se faz, profundamente, a experiência do belo,
não se pode sentir rancor, não se pode estar zangado. A energia da raiva
dissolve-se nesse momento. Não há padrões universais de beleza, mas não
é difícil imaginar que em qualquer parte do mundo se reconhece a beleza
de uma criança. O terrível é depois vermos como, em situações de guerra
e conflito (lembremo-nos do Holocausto), até as crianças são
sacrificadas. Não podemos, portanto, ser sentimentais nestas reflexões
sobre o belo, porque sabemos como a civilização tem tido momentos de
colapso, matando em si a capacidade de percepcionar a beleza. A nova
consciência universal, de que já falámos, deverá prestar uma crescente
"atenção" ao contributo do belo para a paz no mundo. Também desse modo a
"nova santidade" ganhará maior expressão.
MJS - Dê-me uma palavra de eleição.
LF - Um e outro. |