Começo esta minha comunicação com esta citação de Wilfred Stinissen (in
Méditation chrétienne profonde, Les Éditions du Cerf, 1989), porque
partilho inteiramente desta convicção.
Na
nossa sociedade ocidental, dita de abundância e prosperidade, de
conhecimento e alta tecnologia, muitas mulheres e muitos homens, de
diferentes idades e estratos sociais, apresentam, cada vez mais, sintomas de
um mal profundo. Um mal que se exprime ora em agressividade e propensão à
violência, inclusive por motivos fúteis, ora por depressão e apatia agónica
apaziguadas por drogas de todo o tipo; ou, ainda, e não raro, por uma
corrida em frente, saltando, descontroladamente, por entre o emaranhado dos
desencontros e das frustrações das relações pessoais, sem bússola que aponte
um norte seguro. O homem e a mulher formatados pelo consumismo e a cultura
de massas distanciaram-se, de facto, do seu centro e, do mesmo passo,
afastaram-se de Deus. Mas não podem extinguir o fogo que os anima e, mais
cedo ou mais tarde, confrontar-se-ão com a sua verdade essencial. Está,
então, aberto um caminho para a mística.
2.
Ao
contrário do que algumas pessoas suspeitam, a mística não é uma fuga para o
além, um descolar do mundo real em que habitamos. Tão pouco se trata de um
voltar ao passado e cultivar uma qualquer nostalgia de tempos antigos,
ficando num rememorar saudoso de horas mais tranquilas e verdades mais
seguras.
Quem
deseja encontrar-se com o seu eu profundo – e este é o primeiro degrau da
mística – começará por se conhecer a si próprio e por bem situar-se no aqui
e agora da sua existência.
Quem
reconhece a dimensão mística na sua vida procura viver o momento presente,
no seu alcance de eternidade. É este, aliás, o entendimento de que nos fala
a Bíblia. O sábio Qohélet diz que: “Deus colocou a eternidade no coração
do ser humano” (Qo 3,11) e o próprio Jesus, pela escrita do evangelista
João, dá esta espantosa definição de eternidade “A vida eterna é que eles
Te conheçam, ó Pai” (Jo 17,3).
Nesta
civilização e cultura ocidental que conhecemos, o ser humano tornou-se um
ser predominantemente sensorial: vive na periferia de si mesmo e dos
acontecimentos e é movido pelo interesse imediato e o prazer instantâneo.
Desconfia da duração e da permanência e, por isso, também não conhece o
Kairos, o tempo do acontecimento e da graça. O místico, ao invés, está
orientado para o ser profundo e vive o instante, como eternidade que entra
no tempo. Por isso dá valor a cada momento e significado a cada agora. É
capaz de parar para contemplar a beleza da flor ou da pedra e comove-se
quando alguém está em sofrimento ou experimenta a alegria. Sente como suas
as injustiças feitas aos outros e encontra em si determinação para as
combater e superar. Reconhece-se não como o umbigo do mundo, mas como sua
parte integrante. Não se considera dono da sua vida, antes a acolhe de um
Outro. O místico é, por excelência, um ser de relação: relação consigo
próprio, com os outros, com o Cosmos, com Deus. O místico nunca está
sozinho, mas face a um Tu que lhe fala e o convoca a uma dinâmica sempre
nova de superação dos seus limites. Por isso o místico é um ser de surpresa
e de arrojo.
Do
místico, pode dizer-se, com verdade, que ele vive, na terra, a eternidade.
3.
A
mística é uma dimensão natural do ser humano e está ao alcance de cada homem
e mulher, criança, jovem, adulto ou idoso. Trata-se de um modo de ser e de
habitar o tempo e o espaço em que nos é dado viver.
A
maioria das pessoas, porém, contenta-se com experiências místicas de ocasião
ou com místicas de massas: a mística do futebol, ou de certo tipo de música,
por exemplo.
Há,
também, quem procure iniciar-se em vias pessoais mais profundas, recorrendo
a sabedorias e práticas antigas. Nas nossas sociedades, estão muito em voga
experiências de Yoga, Zen, meditação transcendental, entre outras.
Em
todas estas expressões, o que está em causa é o desejo incontornável do ser
humano de um “além”, de uma transcendência, de um excesso.
As
religiões procuram enquadrar e dar sentido a esta característica intrínseca
do ser humano, oferecendo propostas de comportamento ético individual e
pessoal, mas também abertura para espaços de liberdade e transcendência onde
cada um se reconhece na sua individualidade, isto é, abrindo caminho à
mística.
Tomando como referência Kierkegaard, Marie-Madeleine Davy, no prefácio à
Encyclopédie des mystiques, faz a este propósito uma bela síntese quando
escreve: “Possuindo em si mesma os seus próprios fundamentos, a mística
confere às religiões a sua expressão mais elevada. Independentemente dos
fenómenos colectivos e de todo o facto social, a mística apresenta-se como
“uma viagem secreta” realizada na interioridade, à procura do Deus
absconditus.”
4.
Na
tradição cristã, a palavra mística adquire um sentido teológico, isto é, em
relação com a fé.
Já
no século III a palavra surge associada a uma experiência de conhecimento
interior e profundo das verdades da fé, à contemplação. Indicia o predomínio
da acção de Deus na revelação de Si mesmo através dos dons do Espírito
Santo. Deus manifesta-se e irrompe no coração do crente, pela força e o fogo
do Espírito Santo; a pessoa de fé acolhe e rende-se às maravilhas de Deus e,
assim, toda a sua vida se transfigura.
A
mística cristã não é, pois, mera adesão a uma verdade, mas vida de comunhão
com Deus, uno e trino; vida que se deixa conduzir pelo Espírito Santo para
se configurar com Cristo - Caminho, Verdade e Vida.
No
seguimento de Jesus, a mística cristã é uma mística de incarnação; acontece
na vida quotidiana, faz-se corpo em gestos de revelação do próprio Deus:
- num olhar profundo e contemplativo, que não
fica pela aparência e a superficialidade das coisas e situações, mas
enxerga a realidade para além do visível e, como Jesus, é capaz de
descortinar “que a filha do Jairo não está morta, apenas
adormecida”;
- num escutar atento das angústias e alegrias
do tempo presente, tal como o fez o Mestre, que tanto partilha a
alegria de um casamento em Caná da Galileia, como chora com a visão
da Cidade santa de Jerusalém ameaçada por uma destruição próxima;
- num operar constante para que todos tenham
vida e a tenham em abundância, livres da pobreza, da opressão, da
migração forçada, dos campos de detenção, da guerra e de tudo
quanto atenta contra a vida humana;
- num proclamar desassombrado da palavra que
anuncia o Reino do amor, da verdade, da liberdade e da paz;
- num estilo de vida que privilegia o ser
sobre o ter, a compaixão sobre a indiferença, a misericórdia sobre o
rigorismo das leis, a liberdade de consciência sobre a rigidez da
norma, a solidariedade sobre o individualismo, a comunhão e o amor
como critérios supremos de uma vida com sentido.
Ao
contrário do que correntemente se julga, a mística cristã não se vive apenas
dentro dos claustros dos mosteiros, nem é monopólio daqueles e daquelas que
fizeram a opção de se retirarem do mundo.
A
mística cristã vive-se nas relações entre as pessoas, nas suas diferentes
expressões e responsabilidades, na amizade ou no amor conjugal e parental,
no trabalho e seu respectivo contexto, na cidade e suas instituições, na
vida política e cultural.
A
mística cristã tão pouco conhece fronteiras: não se limita às relações e aos
desafios da proximidade, mas abarca o Mundo inteiro com as suas
potencialidades e contradições.
Porque é orientada ao Amor, a mística cristã é abertura a todas as portas do
amor, à palavra e à poesia, ao encontro, à contemplação, à celebração e à
liturgia, e também ao silêncio, onde melhor se faz ouvir a suave brisa do
Deus que passa e quer habitar no meio de nós e por isso se fez homem, em
tudo igual aos humanos, excepto no pecado.
A
mística cristã é uma mística de incarnação e de quotidianidade.
5.
Feita
esta incursão pelos labirintos da mística, tornando-a próxima de toda a vida
humana que se quer vivida em profundidade, cabe agora ver o que os anjos têm
a ensinar-nos acerca desta mística do quotidiano a que todos e todas são
convidados e convidadas.
6.
Comecei por percorrer o Catecismo da Igreja católica (CIC) e aí encontrei,
pelo menos, 23 entradas, das quais destaco as seguintes ideias:
- A ordem cósmica, social e religiosa está
confiada aos anjos (anjos da guarda). CIC, 57.
- Maria acolhe a promessa do anjo Gabriel que
lhe revela que nada é impossível a Deus e a confirma assim na sua
misteriosa maternidade. CIC, 148.
- Os anjos, tal como os humanos, são criaturas
de Deus, que, inteligentes e livres, podem caminhar em direcção ao
amor ou ao pecado. CIC, 311.
- É uma verdade de fé a existência de seres
espirituais que a Escritura designa por anjos. CIC, 328.
- Os anjos são servidores e mensageiros de
Deus e contemplam constantemente a face do Pai que está nos céus,
como diz Mateus em 18,20)
- Os anjos são “operários” do plano de Deus. (Mt
18,10)
- Os anjos são evangelizadores: anunciam a
incarnação, a ressurreição e estão presentes no juízo final.
- A Igreja beneficia da assistência dos anjos,
como já era crença nas comunidades cristãs dos tempos apostólicos. (Act
12,7-8).
- Toda a vida humana, do nascimento à morte,
está sob a protecção dos anjos e beneficia da sua intercessão junto
de Deus.
- Cada um de nós tem a seu lado um anjo com
função de protector e pastor para o conduzir à verdadeira vida. CIC,
336.
- Os anjos serviram Jesus em momentos
críticos, na experiência de tentação no deserto como em Getsemani,
nas imediações da sua morte. CIC, 538.
- O diabo é o anjo que se opõe a Deus e
contraria o seu desígnio de amor e salvação. CIC, 2852.
Por
este enunciado se conclui que a figura do anjo é um tema incontornável na
tradição cristã, pese embora, alguma dificuldade de entendimento quanto à
sua natureza, por parte da nossa cultura fortemente impregnada de
racionalidade e certificação científica.
7.
É
altura de interrogarmos também a Bíblia acerca destas revelações a que a
tradição designa por anjos.
Herdamos a palavra da cultura hebraica, mas ela não é exclusiva da
literatura bíblica; encontra-se em outras culturas contemporâneas dos tempos
bíblicos.
A
referência aos anjos na tradição bíblica ocorre numa contextualização que
tem por base a ideia-força de um Deus único, Yhavé, de quem procede todo o
acto criador. Tudo o que acontece é intervenção de Deus, um Deus que está
para além de toda a compreensão humana, é inominável e só se deixa conhecer
revelando-se através da história das suas criaturas. Deus é mistério e, por
muito que se revele, permanecerá mistério para todas as suas criaturas,
mesmo para os humanos que Ele criou à sua imagem e semelhança a ponto de os
chamar seus filhos.
Quando na Sagrada Escritura se procura pôr em evidência esta dimensão
misteriosa de Deus ou de uma sua intervenção fala-se no “espírito de Yhavé”
ou recorre-se a personagens, também elas misteriosas, mas mais próximas dos
humanos por também serem criaturas de Deus. Por vezes, o autor sagrado
dá-lhes nomes carregados de simbologia, Gabriel, Miguel, Rafael. Outras
vezes refere-as por uma designação genérica, o anjo ou os anjos do Senhor.
Através desta categoria de seres espirituais, assinala-se uma dupla
convicção:
-
O Deus único age;
-
Deus permanece mistério e distinto das suas criaturas, recorrendo a
intermediários para se manifestar.
A
teologia pouco nos diz acerca dos anjos. Sabemos que são seres espirituais.
Vêm da parte de Deus como seus mensageiros (é esse de resto o sentido
etimológico da palavra). São conhecidos pelas funções que desempenham: são
portadores de boas notícias, prestam auxílio em situações particulares,
trazem novo conhecimento, iluminação e consolo, são bons companheiros na
jornada da vida.
Há,
porém, anjos que são adversários de Deus e querem contrariar os seus planos.
São anjos que desencaminham, anjos que, inclusivamente, se disfarçam, sob a
aparência de bem, para melhor atingirem os seus intentos.
Por
vezes, na Bíblia, o recurso à metáfora é visivelmente um instrumento
literário para não pronunciar directamente o nome de Deus. É o que sucede
com expressões como o “anjo de Yhavé” ou o “anjo de Deus”. Nestes contextos
não se trata de criaturas de Deus, mas o próprio Deus que se manifesta.
Interpelado pela variedade dos seus significantes, Santo Agostinho conclui
que a palavra anjo descreve uma função e não uma natureza.
8.
O
anjo não é apenas uma metáfora para exprimir realidades próprias de tempos
longínquos. Trata-se de uma categoria semântica que a linguagem
contemporânea não consegue dispensar para traduzir experiências fortes de
relação humana.
Dizemos de alguém que é um anjo quando ele ou ela é para nós alguém muito
especial, pela sua bondade, pela luz que nos traz ou, simplesmente, pela sua
presença oportuna em algum momento de dificuldade e necessidade.
Também nos referimos aos anjos quando diante de escolhas importantes na
nossa vida conseguimos, finalmente, perceber por onde devemos fazer caminho.
Dizemos, então: foi o conselho de um anjo.
E em
tantas outras situações, sentimos que pudemos contar com o nosso duplo, mais
iluminado e mais forte, que faz caminho connosco. Chamamos-lhe o nosso anjo
da guarda, mesmo que não saibamos com muita precisão de que se trata.
Para
além deste reconhecimento da actualidade da metáfora “anjo”, sentimos como
de particular acuidade para o tempo em que vivemos a convocação de três
figuras de anjos: o anjo das boas notícias; o anjo do cuidado; o anjo da
companhia.
É com
a evocação destes três anjos que concluirei esta comunicação.
9.
Primeiro: o anjo das boas notícias.
Vivemos num tempo de perplexidade, com demasiado ruído e confusão.
Apesar dos extraordinários avanços conquistados pela ciência e a tecnologia
do último século, apesar do gigantesco progresso material alcançado, é cada
vez maior a consciência colectiva de que a Humanidade percorre um arco da
sua história caracterizado por grande turbulência e enorme incerteza quanto
ao futuro. Sabemos que trilhamos caminhos, na economia, como nas
instituições sociais e políticas, que são sem saída, mas de nada nos adianta
pensar em fazer marcha-atrás. O que precisamos mesmo é de soluções novas e
de protagonistas (pessoas, empresas, instituições e movimentos) capazes de
as encetar.
Precisamos de “anjos” que nos tragam as boas notícias do que já está em
curso com promessa de melhor presente e melhor futuro. “Anjos” do mundo
científico e da área cultural. “Anjos” que surjam na economia da produção e
no mundo dos negócios e das instituições financeiras. “Anjos” que despontem
na comunicação social, conferindo-lhe maior verdade e responsabilidade.
“Anjos” de uma escola inclusiva e aberta à humanização e à participação.
“Anjos” de hospitais mais eficientes e humanizados. “Anjos” de famílias mais
unidas. “Anjos” de comunidades abertas à transcendência da vida onde Deus
seja presença e a sua convocação escutada.
O
paradigma do anjo das boas notícias é, por excelência, o anjo Gabriel da
anunciação a Maria. Há que revisitá-lo e com ele aprender que o “impossível
pode tornar-se possível”.
10.
Segundo: o anjo do cuidado
Recordo de Leonardo Boff uma descrição ampla de ecologia (Cf. Ecologia,
mundialização e espiritualidade, editora Ática, 1999, 3º edição): Diz o
Autor: “Ecologia é relação, inter-acção e dialogação de todas as coisas
existentes (viventes ou não) entre si e com tudo o que existe, real ou
potencial. A ecologia não tem a ver apenas com a natureza (ecologia
natural), mas principalmente com a sociedade e a cultura (ecologia humana,
social, etc.). Numa visão ecológica, tudo o que existe coexiste. Tudo o que
coexiste preexiste. E tudo o que coexiste e preexiste subsiste através de
uma teia infinita de relações omnicompreensivas. Nada existe fora da
relação. Tudo se relaciona com tudo em todos os pontos”.
Dificilmente se poderia encontrar uma síntese tão abrangente. E uma verdade
tão obvia. Contudo, a maioria dos nossos contemporâneos parece não se dar
conta desta realidade e vive orientada por um individualismo perigoso que
não atende à relação e apenas procura o seu interesse singular mais imediato
e oportunista. A consequência de uma tal mentalidade não passa despercebida
aos analistas e a quantos se dispõem a perscrutar o futuro do nosso Planeta.
São “anjos do cuidado” a lembrar que em cada um e em cada uma de nós existe
uma sentinela vigilante que deverá estar pronta a apontar os riscos de um
trilho sem saída. São anjos que denunciam rupturas no equilíbrio da ecologia
natural (o sobre-aquecimento do planeta, o excesso de CO2 na atmosfera, o
desaparecimento de muitas espécies e perda de biodiversidade, a poluição dos
rios e dos mares...) mas também apontam as disfunções da ecologia social (a
grande pobreza, a elevada concentração da riqueza e do poder económico, a
alta concentração urbana com consequente despovoamento de muitas regiões, a
crescente desigualdade de oportunidades, a falta de emprego para tantos, ao
lado de excessivos horários de trabalho para alguns, as migrações forçadas,
etc.).
São
“anjos do cuidado” que denunciam, mas também fazem propostas de vida
alternativa. Apontam no sentido do consumo responsável, da ética do
necessário, do comércio justo, do desenvolvimento sustentável, das empresas
de rosto humano e responsabilidade social.
A
figura do “anjo do cuidado” é, certamente, Miguel, o anjo do Senhor que está
do lado de Deus combatendo pela integridade da sua Criação.
11.
Terceiro: O anjo da companhia
As
nossas sociedades ocidentais conhecem as feridas do isolamento e da solidão,
particularmente expostas em certos grupos e/ou situações sociais. Penso nas
crianças, órfãs de pais vivos, que não podem ou não querem dedicar-lhes o
tempo e a proximidade a que elas teriam direito para uma vida feliz e
saudável. Lembro os mais idosos, tidos por muitos como estorvo para os seus
projectos individuais de carreira profissional ou de prazer e relegados para
ambientes despersonalizantes, bem como na situação análoga de muitos
deficientes ou doentes crónicos e de modo geral os considerados menos
válidos segundo os critérios da sociedade competitiva. E que dizer dos
imigrantes, sobretudo quando chegam aos países de destino pela mão de
intermediários sem escrúpulos que os deixam entregues a si próprios sem os
mais elementares apoios de inserção social? E como não sentir a solidão de
mulheres e homens em idade activa que se vêem excluídos do mundo de
trabalho, sem poderem contar com redes fortes de compreensão, ajuda e
solidariedade? Ou, ainda, os casos frequentes de casais que se desmoronam,
ficando cada um dos cônjuges entregue ao reforço de uma solidão não
assumida?
Sem
autênticas relações humanas, assentes na confiança, na amizade e no
companheirismo, não há projecto de vida humana sustentável. A personagem
bíblica Tobite já o antevia e por isso ganhou maior sossego ao saber que o
seu filho Tobias não enfrentaria os riscos e perigos da sua viagem sozinho,
pois tinha encontrado um companheiro. Com ele foi avançando na procura e
experimentou a felicidade de alcançar a cura para a cegueira do seu velho
pai (o móbil inicial da viagem) e, por acréscimo, a difícil conquista do
amor, a mulher que, até então, havia causado a morte a seis pretensos
maridos.
O
nosso mundo está carente de mestres, mas principalmente de quem se torne
próximo e se disponha a fazer caminho connosco.
Precisamos dos “anjos da companhia” que nos ajudem a enfrentar a nossa
solidão intrínseca, a superar os nossos medos diante do esquecimento e da
morte, a descobrir as avenidas da amizade e do amor. Precisamos de revisitar
Rafael, o “anjo da companhia”.
12.
Muitas outras figuras de anjos poderíamos convocar para esta reflexão acerca
de quanto podemos aprender com os anjos para aprofundar uma mística do
quotidiano. Penso, nomeadamente, no “anjo do tempo” que nos ensina a tornar
significativas e com sentido as várias horas do dia, inscrevendo-as na
eternidade, já que a nossa cultura muito teria a ganhar com uma noção de
tempo que não privilegie o Kronos em detrimento do Kairos.
Penso
no “anjo da luz” que nos ajuda a discernir caminhos mais seguros, por entre
o emaranhado das muitas propostas e seduções que, permanentemente, nos são
oferecidas pelos mais variados meios.
Penso
no “anjo da boa morte” que afasta de nós os temores do desconhecido e da
destruição física e nos conforta com vislumbres da vida eterna em Deus.
Muitas outras figuras de anjos poderíamos revisitar. Menciono estas como
sugestão deixada aos ouvintes ou leitores para que prossigam nesta fecunda e
oportuna pista de reflexão.
Manuela Silva
Outubro 2006
Comunicação apresentada no
Congresso Internacional
“Figuras do Anjo revisitadas”,
realizado em
Fátima, 10-12 Outubro 2006.
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