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1.“Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada
para o nosso Deus”, clama Isaías. Terraplanar, altear, aplanar. Fazer justiça
há-de ser isso: olhar cada um a partir da sua posição de altura, corrigir
desproporções, aproximar-se. Promover a justiça é promover o direito de viver
que têm os viventes. Sem esse trabalho, nem a glória de cada um, nem a glória de
Deus se manifesta. Nós objectivamos, pesamos, falsificamos a balança do nosso
próprio juízo. “É a violência que colocais na balança”, diz o Salmo 58. O que
significa: o juízo serve para satisfazer o vosso desejo de vingança: o prazer de
“ter razão” contra a verdade ou de dominar a vida contra a morte. Só a Palavra
em acto é inobjectivável, originária. O direito de ser um homem passa pela
interdição de “objectivar” o homem. O pastor das nações está às portas.
Congregar é preciso. A boca do Senhor falou: a paz vem, como um rio, a paz e a
justiça vão abraçar-se como irmãs. A glória de Deus habitará a nossa terra. Sim,
a justiça faz parte do género de consistência (ficção necessária) que ninguém
nos pode tirar.
2. Deus vem de Deus. Mas Deus vem a nós. O nosso desejo é desejo de Deus
na fé. Se o Outro é inacessível, não se revela nem se deduz a partir do
conhecimento dos, outros; mas se Deus é próximo, revela-se como aquilo sem o quê
o conhecimento que tenho dos outros e eles têm de mim nunca me abriria à Verdade
que fala em nós. Deus revela-se na proximidade da origem, que é a da comunhão,
que permita que me reconheça nos outros e os outros se reconheçam em mim. Albert
Schweitzer diz, a seu modo, como Deus vem. “É como um anónimo desconhecido que
ele vem a nós, isto é, como outrora, à beira do lago, se aproximou daqueles
homens que não sabiam quem ele era. E, hoje, pronuncia a mesma palavra:
segue-me!, colocando-nos diante das tarefas que a nossa época precisa de
realizar. É ele quem dá esta ordem. Àqueles que lhe obedecem, por mais sábios ou
ignorantes que sejam, manifestar-se-á em tudo aquilo que paz, acção, luta,
sofrimento tiverem podido experimentar em comum com ele. Aprenderão, como um
indizível segredo, que ele existe…”“Nós esperamos os novos céus e a nova terra”,
onde habitará a justiça” (2 Ped 3, 13). A fé testemunha de uma Vida sem a qual
nenhum vivente tem sentido. E o desejo é a dimensão essencial da fé.
3.“Há mais de vinte séculos que a Europa renunciou à transcendência dita
vertical e é excessivo esquecer que o Cristianismo é em boa parte o
reconhecimento dum mistério na relação do homem e de deus: o Deus cristão não
quer uma relação vertical de subordinação, não é apenas um princípio de que
seríamos as consequências, uma vontade de que seríamos os instrumentos, há como
uma espécie de impotência de Deus sem nós (Merleau-Ponty, La Prose du monde:
118).
4. Mas que nos arrasta para a justiça? Que insistência é essa? Como a
justiça e a beleza, a verdade não existe, mas consiste. A justiça nasce do
desejo da Verdade que fala em nós. Para encontrar a fonte é preciso morrer de
certa maneira àquilo que nos empurra, à pulsão de morte que contraria a justiça.
Para ressurgir daquilo que é a nossa fonte e que nos atrai. Só do desejo se
nasce. Só no desejo se permanece vivo. Não ouvis o ruído das batalhas? E se há
batalhas, não havemos de resistir, de erguer a vida contra o poder sobre a vida?
O nosso presente é o que já não existe. Nem o Museu, nem a tradição asseguram a
sobrevivência. Temos de recusar ficar de fora e à margem: o devir cristão há-de
fazer-se no interior do campo de batalha. A produção do comum é a nossa tarefa.
João surge para acordar o povo que dorme nas trevas. Nós temos de acordar do
sonambulismo civil e religioso em que vivemos. Isso pode passar pela criação de
espaços de liberdade: pelas ligações, pelas amizades, pelas parcerias. As
diferenças só podem contribuir para a riqueza comum. Conversar, reflectir, rezar
em comum, viver em estado permanente de paixão, fazer da vida uma beleza são
preparações evangélicas.
5. A nossa experiência está a ficar reduzida à miséria dos Robinsons
solitários as grandes cidades, à desagregação dos laços comunitários, ao espaço
de objectos sem sujeito. O caminho de regresso passa pela resistência que está
dentro de nós, pelo bosque que está dentro de nós, pelo túnel que mal é luz. O
real está no intervalo, na soleira, no véu das imagens. É aí que há lugar para
se cumprir a Palavra, nessa abertura à alegria que é um intervalo em que
respira, livre, a vida. João precede-nos, a seu modo nesse pressentimento. Os
maiores poetas do século XX precedem-nos nesse sentimento da vigia, do limiar e
do intenso.
6. Há uma nota nos cadernos de Kafka que escreve a impossibilidade do
homem reencontrar o seu próprio espaço na tensão entre a história passada e a
história futura, e que se exprime na imagem de um grupo de viajantes de um
comboio que tiveram um acidente de túnel num ponto em que já não se vê a luz da
entrada, e a da saída é tão pouca, que a vista tem que continuamente a procurar
e continuamente a perder, não sabendo se estão no começo ou no fim do túnel. O
anjo já chegou ao paraíso. “Existe um ponto de chegada, mas nenhum caminho;
aquilo que chamamos caminho é a hesitação”. O jardim do demónio é o deserto. A
injunção de Jesus é para deixar o deserto e entrar no quotidiano, no jardim da
vida onde não faltam serpentes. O Reino, Deus, não se delimita, não se domestica
como o fogo numa lanterna.
7. Antes do dia de Cristo houve o dia de João. Ele é o luar do dia
verdadeiro que é Cristo, mas está já uma ruptura em relação à tradição
profética. O seu radicalismo coloca-o na linhagem dos profetas que não negoceiam
a verdade e a justiça. Ele é o luar e não a luz porque se situa mais perto da
letra do que da Voz, mais perto da Lei antiga do que da Graça, mais perto da
justiça salarial do que do dom e da misericórdia. Ele é a figura-fulgor do
deserto e da dramatização do presente, que denuncia a autocomplacência que todas
as religiões segregam, a lei em vigor que não significa, a insensibilidade
àquilo que tremeluz em nós e do universo ainda não visto nem experienciado. João
alegrou-se ao ouvir a voz do Esposo, mas ficou à porta como testemunha da
entrada na vida, abrindo-nos a porta da alegria que ele mesmo pressentiu.
8. O Reino manifesta-se sobre a linha da existência, quer dizer na
experiência do corpo, da finitude, e na memória do futuro, da promessa. Temos
que contar com o que há, encontrar um sítio onde habitar, conviver com a
enfermidade, que é o outro lado da ida (Novalis). O Evangelho é apresentado como
exortação à vigilância activa, à invenção do quotidiano, não à sua fuga. Sem
vigilância todos os monstros acorrem. Sem vigilância crítica todos os demónios
do fundamentalismo autoritário, da mão de ferro, da surdez dogmática regressam.
9. Perder o caminho do encontro e da vigília é perder o nosso estatuto
cristão. Vigiar os nossos instintos, as nossas rotinas, os nossos medos, sem
medo do juízo. É a nossa concepção do tempo que nos faz chamar juízo universal
ao juízo final, que é, afinal, um juízo “sumário”. O homem já está no dia do
Juízo que é a sua condição histórica normal. É o medo de o enfrentar que o leva
à ilusão de que o Juízo há-de chegar. “O que mais me lembra o Juízo/ é um jardim
ao meio-dia, /um jardim de rosas” (Adélia Prado, Terra de Santa Cruz: 63). Deus
deve encontrar-nos na paz quando vier. Não se pode viver como “A filha da antiga
lei”: “Deus não me dá sossego. É meu aguilhão./ Morde meu calcanhar como
serpente,/ faz-se verbo, carne, caco de vidro,/pedra contra a qual sangra minha
cabeça./Eu não tenho descanso neste amor./ Eu não posso dormir sob a luz do seu
olho que me fixa./ Quero de novo o ventre de minha mãe,/ sua mão espalmada
contra o umbigo estufado,/ me escondendo de Deus” (Adélia Prado, Ibidem: 55).
10. Dê-nos o Sopro de Deus a graça de adivinhar, de pressentir a sua
presença naquilo que passa e na promessa. O deserto é só passagem se sabes
escutar, descobrias o que és de facto e o que Deus é para ti: advento. Deus te
tomará pela mão e fortalecerá as tuas mãos fatigadas. Pede-lhe como Moisés que
ele venha caminhar a teu lado, ou à tua frente, e o teu deserto florescerá
porque a esperança é fértil e florida. Entrai no deserto do Espírito onde o fogo
nos modela e refaz e onde repousaremos o lha inquieto. O “efeito” da Palavra é
um efeito físico, obscuro, nocturno, mas “real”. “Tende coragem, não temais”.
Que o Espírito de consolação fortaleça em nos a hora em que Deus fala ao coração
de cada um, a fim de vigiarmos na noite sem sermos da noite.
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