*Havia um homem chamado Lázaro...

 

Manuela Silva

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Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia
todos os dias esplêndidos banquetes.
Um pobre chamado Lázaro, jazia ao seu portão coberto de chagas.
Bem desejava ele saciar-se com o que sobrava da mesa do rico;
mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas.
Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão.
Morreu também o rico e foi sepultado.
(Lc. 16, 19-22)

 

1. Desejaria que esta fosse uma ocasião de troca de conhecimentos e esclarecimento de ideias e, sobretudo, um momento de conversão do coração, com implicações em atitudes e comportamentos pró-activos no sentido da erradicação da pobreza, ao menos nas suas manifestações mais extremas de fome, falta de abrigo, doenças evitáveis, analfabetismo e falta de liberdade. Quando aponto este horizonte, quero referir-me à pobreza e à exclusão social no nosso País e também no Mundo.

2. Ao contrário do que, à primeira vista, possa parecer, o tema reveste-se de grande complexidade e é susceptível de múltiplas abordagens. É que a questão prende-se, simultaneamente, com a economia, a cultura, a sociedade e a política. A pobreza e a exclusão social põem em causa o nosso modo de viver, a forma como organizamos a economia ou a convivência social ou, ainda, as expectativas que temos relativamente ao bem comum e à nossa realização pessoal.

Para não cair na superficialidade, há que seleccionar algumas questões.

Na escolha deixei-me guiar pelo texto que nos convoca.

3. Começo pelo enunciado de alguns preconceitos em relação à pobreza.

Há muita gente que pensa e diz “pobres sempre existiram, existem e existirão sempre.” E, deste modo, tranquiliza a sua consciência, remetendo-se para o aconchego de uma posição fatalista e descomprometida com o assunto ou, quando muito, praticando, ocasionalmente, alguma ajuda directa aqueles pobres que lhes estão mais próximos.

De facto, no nosso País, e o ambiente nas comunidades cristãs não foge à regra, existe uma excessiva tolerância com o fenómeno da pobreza. Habituámo-nos a conviver com a pobreza. Os pobres fazem-no com alguma resignação. Os não-pobres, fazem-no com cumplicidade, pois não querem questionar os seus próprios privilégios e tão pouco estão preparados para querem enfrentar as causas estruturais da pobreza e agir sobre elas.

A maioria das pessoas tende, assim, a justificar a pobreza por razões individuais inerentes aos próprios pobres (não trabalham, são preguiçosos, são anti-sociais) ou atribuem a pobreza à má sorte, ao nascimento em família pobre ou a algum azar na vida.

Esquecem ou sub-estimam que a pobreza é um fenómeno social com causas estruturais.

A este propósito, considero muito importante que se faça uma distinção clara entre as manifestações individuais da pobreza e os factores determinantes da incidência da pobreza. Estes, no actual estádio de desenvolvimento, têm a ver com o modelo económico e com as opções ideológicas e políticas que presidem à organização da vida colectiva.

4. Voltando ao texto – o foco desta reflexão – quem assim pensa e age faz como o rico sem nome deste evangelho de Lucas. Passam pelo pobre sem ver. Ocupados com a digestão dos seus excessivos banquetes, talvez nem olhem sequer para quem jaz à entrada do portão do seu condomínio fechado. No conforto dos seus salões bem equipados, falam em competitividade e em re-estruturações de empresas e administrações, mas quantos se preocupam com os despedimentos que daí possam decorrer e o correspondente agravamento do desemprego, um dos factores causais da pobreza e da exclusão social?

Talvez discutam possibilidades de aumentar os lucros das suas empresas – o que é legítimo, mas sob condição de que a maximização do lucro não se transforme num fim em si mesmo, antes respeite condições de coesão social e sustentabilidade ecológica. E que não fique esquecida ou distorcida a questão da repartição dos lucros alcançados. Que parcela para accionistas? Para gestores e administradores? Para os trabalhadores? Para a sociedade no seu todo? Que não fiquem esquecidos os Lázaros dos baixos salários e do trabalho precário, os chamados working poor. Estão inseridos no mercado de trabalho, mas as suas remunerações são tão baixas e precárias que ficam aquém dos limiares de pobreza.

No baixo nível de salários e na precariedade do trabalho reside um dos factores causais da pobreza no nosso país. Não é uma fatalidade que assim suceda. Estudos recentes mostram que esta situação se fica a dever a problemas de inércia do modelo de crescimento económico no que à repartição do rendimento funcional diz respeito e de correspondente falta de regulação em sede de concertação social e de política pública. O aumento de rendimento gerado por taxas de crescimento económico ao longo de vários anos tem revertido apenas em favor dos 10% dos trabalhadores melhores remunerados, deixando inalterado ou mesmo diminuído o rendimento real dos trabalhadores menos qualificados.

A pobreza não tem como causa apenas a situação face à actividade económica, designadamente nas suas vertentes de desemprego, emprego precário ou baixos salários.

A pobreza afecta particularmente certos grupos etários.

É o que sucede com a população idosa que vive de pensões de reduzido montante e não pode contar com apoios específicos, requeridos pela sua idade e estado de saúde ou condição familiar. Também esta situação não tem de ser considerada insuperável. Bastaria prever uma parcela mínima (2-3%) de transferências dos rendimentos dos 10% mais ricos no nosso país para permitir aos cidadãos e cidadãs idosos atingir nível de rendimento não inferior ao limiar da pobreza e ainda reforçar o equipamento social de prestação de cuidados a idosos, condição imprescindível ao bem-estar deste estrato de população nas actuais circunstâncias de inserção familiar.

Reflexão idêntica gostaria de fazer a propósito das crianças e jovens. Também neste grupo etário se verifica entre nós uma maior incidência de pobreza. São necessárias políticas integradas que combinem recursos ao nível da saúde e da educação que permitam a todas as crianças e jovens alcançarem o seu desenvolvimento potencial. O investimento que for feito neste grupo etário deve ser encarado não tanto como um gasto mas como um investimento.

Entre os grupos vulneráveis à pobreza, além dos já mencionados, há que incluir as famílias monoparentais e as pessoas deficientes.

A pobreza tem ainda uma dimensão espacial que não deve ser ignorada. Manifesta-se em duas vertentes: a pobreza do subdesenvolvimento rural que caracteriza ainda algumas zonas geográficas do nosso país, e a pobreza urbana concentrada em bairros de alojamento precário e degradado. Num e noutro caso, são situações que passam despercebidas da opinião pública e dos policy makers, a menos que ocorram calamidades especiais que chamem a atenção dos media. São Lázaros que já não ousam sequer chegar-se ao portão do homem rico. Vivem no seu isolamento o drama da sua pobreza e exclusão social. São pessoas sem voz e sem vez nas nossas sociedades. Também estas situações não são inevitáveis. Dispomos, hoje, de ferramentas e recursos no domínio de um planeamento territorial e urbano que deveriam ser devidamente accionadas e dirigidas a objectivos claros de erradicação destas formas mais severas de pobreza. Falta – isso sim – uma maior consciência cívica e correspondente vontade política para lhes pôr termo.

5. A incidência da pobreza em Portugal, estimada em 21% (depois das transferências sociais) compreende estas e outras formas de pobreza e não deve, por isso, ser analisada como se tratasse de uma realidade homogénea. Trata-se de uma percentagem elevada de pessoas pobres, mas não está fora do nosso alcance conseguir uma redução significativa destes valores em tempo útil, digamos nos próximos 5 anos.

Existe um Plano governamental que visa esse objectivo e cabe saudar essa iniciativa. Contudo, o seu êxito, a meu ver, depende de duas condições fundamentais. Da parte do Estado, importa que a erradicação da pobreza não fique confiada apenas à responsabilidade de um único sector governativo, como sucede com as políticas de carácter sectorial. A pobreza é um fenómeno que releva de vários factores causais e por isso a sua erradicação implica que a mesma seja assumida em todas as políticas públicas, para usar a terminologia anglo-saxónica que seja um objectivo de mainstreaming, formulado e avaliado a este nível. Não se compreenderia que, por exemplo, se façam esforços para qualificar mão-de-obra para postos de trabalho que já não existem ou que se procure combater a exclusão em relação ao ensino sem que se prevejam recursos de equipamento e humanos que previnam ou corrijam a tendência à exclusão.

6. Por outro lado, o empenhamento na erradicação da pobreza e da exclusão social tem de envolver a sociedade civil, no seu todo. Para tanto, além dos fundamentos de ordem ética que apelam ao bem comum e à equidade como traves mestras de uma democracia evoluída, há que fazer ressaltar que o combate à exclusão redunda em benefício dos não-pobres. Por uma dupla razão: redução de tensões e prevenção de conflitos sociais; alargamento de possibilidades de aproveitamento de recursos potenciais latentes, mas insuficientemente utilizados por parte do segmento mais empobrecido da população.

Os recursos a despender com programas de prevenção e erradicação da pobreza não são meras despesas, são em boa parte investimento em recursos humanos e, estes, cada vez mais, são a grande riqueza de um povo.

7. Até agora, deixei de fora a reflexão sobre a pobreza no Mundo. Não entrei por esse caminho, apenas por razões de economia de tempo. Contudo, muito do que fui dizendo pode aplicar-se à pobreza a nível mundial.

A erradicação da pobreza no Mundo é certamente uma tarefa mais complexa, nas suas manifestações e causas estruturais. Todavia, o objectivo da sua erradicação não é mera utopia. Nas actuais condições de desenvolvimento económico mundial, é possível acabar com a pobreza no Mundo. E, se é possível, é uma exigência ética fazê-lo. Presentemente, é mesmo mais do que isso: é um compromisso político assumido no âmbito das Nações Unidas, no início deste Milénio. Reveste a forma de um pacto assinado por 189 países membros da ONU. Compromisso político que se traduz em 8 objectivos básicos e 14 metas concretas. Integra-se na luta pelo reconhecimento do direito a não ser pobre como fazendo parte integrante dos direitos humanos universais.

Resumindo:

- Há ricos que não olham os Lázaros. Não reparam que estão ao seu portão e, sobretudo, fecham os olhos às causas de tal situação. E, se não vêem, menos ainda se dispõem a questionar os seus privilégios e a buscar soluções para as grandes desigualdades que existem e se têm vindo a avolumar no nosso país e no mundo.

-- A pobreza no nosso país é um grave problema social, pela sua incidência e também pela sua severidade e persistência geracional.

- Os preconceitos reinantes encobrem as verdadeiras causas estruturais da pobreza e não abrem, por isso, o caminho a soluções inovadoras.

- Sem uma grande mudança de olhar por parte da consciência colectiva que encare a pobreza como chaga social e fenómeno evitável, nem os governos têm a ousadia de colocar a erradicação da pobreza nas respectivas agendas políticas (não é com o voto dos pobres que se ganham as eleições) nem se mobilizam os recursos suficientes para fazer face a este problema.

- A sociedade civil tem, nesta matéria, uma dupla responsabilidade: a de dar a conhecer a realidade, denunciando-a como indesejável e evitável e a de servir como força de pressão junto dos poderes públicos para que se adoptem políticas inovadoras que não se dirijam apenas às manifestações da pobreza mas que removam as respectivas causas.

- As comunidades cristãs, em razão da sua fidelidade ao evangelho, devem situar-se na linha da frente na luta pela erradicação da pobreza na sua respectiva área de influência, continuando na senda dos primeiros discípulos que eram conhecidos por entre eles não haver pobres.

- Hoje, porém, não somos apenas membros de uma paróquia, mas cidadãos de um país e mesmo do vasto mundo. A nossa responsabilidade alarga-se, pois, às dimensões da pobreza à escala mundial. A nossa solidariedade e compromisso devem, pois, estar à altura da globalização em curso.

 
* Conferência proferida no âmbito dos Encontros de Santa Isabel 2007: “Amar Jesus na cidade de hoje”
Paróquia de Santa Isabel Lisboa, 25 de Janeiro 2007

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