*O Povo de Deus e a transformação do Mundo...

 

Manuela Silva

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1. O povo de Deus: um conceito bíblico e uma metáfora da Igreja

A ideia de Povo de Deus vem do Antigo Testamento. Foi uma realidade experimentada por Israel e alimentou um povo no seu percurso histórico de séculos de afirmação da identidade hebraica. É um conceito que atravessa a literatura bíblica e vai conhecendo sucessivos aprofundamentos, mas mantém alguns traços originais, nomeadamente os seguintes:
• um arreigado sentido de pertença;
• a consciência de objecto da escolha privilegiada de Deus;
• a convicção de que ao Povo hebraico cabe uma missão específica, a de louvar e bendizer o Deus de Israel, anunciando as suas maravilhas.
Não existe, na tradição hebraica algo semelhante a uma teologia do Povo de Deus, porque tal não é a forma de pensar do povo hebraico, mas a importância atribuída à escuta da Palavra de Deus e o seu modo de rezar (liturgia) dão testemunho inequívoco do lugar que tem para a identidade de Israel o conceito de Povo de Deus e dos seus fundamentos: a Promessa de uma Aliança irrevogável e a supremacia da Lei dada por Deus ao Povo por intermédio de Moisés.
A Igreja primitiva assumiu-se como herdeira desta vocação divina e a si mesma se intitulou o novo Povo de Deus, o rebento novo da cepa de Israel. Também ela nascida da Palavra, o Verbo feito carne, e da Aliança, celebrada no Corpo e no Sangue do Senhor. Do mesmo modo, recuperou a missão de ser luz das nações e de anunciar a todas as gentes a boa notícia da salvação em Jesus Cristo, revelação do Deus único e verdadeiro, um Deus que é Amor e abre caminho a uma nova humanidade capaz de levar por diante um reino de Verdade, de Justiça e de Paz.
Com a cristandade, deixou de ser necessário sublinhar a afirmação da Igreja como Povo de Deus, já que reino temporal e messiânico surgiam pretensamente confundidos. Nos seus actores e nos seus empreendimentos temporais.
A modernidade vem, porém, introduzir rupturas neste paradigma, rupturas essas que se têm aprofundado ao longo dos últimos dois séculos e têm servido de mediação para a purificação do conceito de Povo de Deus que volta a adquirir relevância particular, sobretudo depois do concílio Vaticano II.
Prova disso é, entre outros documentos conciliares, a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo, onde não só está presente a ideia da Igreja-Povo de Deus, como esta surge como uma das metáforas principais de definição da Igreja.
Neste documento, apresenta-se uma Igreja em relação com o mundo e em profunda solidariedade com as suas alegrias, angústias e esperanças. A Igreja é considerada como um lugar de diálogo e uma ponte para a construção de um reino de maior justiça e paz. Fala-se de uma Igreja aberta e atenta ás necessidades dos homens e mulheres de cada tempo e lugar, uma Igreja portadora de uma notícia de salvação. Mas afasta-se a ideia de um qualquer protagonismo que não seja o do serviço e da discrição, à semelhança do fermento que leveda a massa... A Igreja assume-se como sendo “a alma” da sociedade humana na sua permanente renovação, graças ao mistério pascal de Cristo.
Muito se poderia escrever sobre a teologia contemporânea acerca da Igreja como Povo de Deus, mas o que mais nos interessa, neste momento, é questionar a realidade vivencial ou seja inquirir sobre o modo como os cristãos vivem esta dimensão da sua fé.
A primeira característica que distingue um povo é o reconhecimento por parte dos seus membros de que existe um conjunto de valores, conhecimentos, aspirações e feitos, que são comuns e relevantes para as suas vidas. Ora, a este propósito, existe hoje uma enorme fragmentação de entendimentos pessoais e de grupos dentro da Igreja que, certamente, esbate a consciência de uma identidade comum.
Por outro lado, não é clara a missão comum da Igreja em relação ao mundo ou, noutros casos, ela é vivida como uma especialização que compete apenas a alguns dos seus membros, mas não compromete todos eles.
Restam as manifestações de comunhão e celebração, mas, também nestas, há que reconhecer que não só vem enfraquecendo a participação dos crentes nos actos de celebração, como, em muitos casos, tais celebrações perderam capacidade de simbolismo e de real partilha de vida. Por estarem divorciadas da cultura contemporânea ou devido ao seu cunho anónimo, abstracto e asséptico em relação às vivências quotidianas.
Eu tenderia a concluir esta primeira parte da minha reflexão, a partir do meu posto de observação empírica da realidade, afirmando que o conceito de Igreja como Povo de Deus, apesar de exaltado pela reflexão teológica das últimas décadas, na prática cristã aparece anémico e carece de insuflação de novos dinamismos. Como?
Antes de esboçar alguma resposta a esta interrogação deixada no ar, há que fazer um excurso pelo mundo contemporâneo e suas transformações mais significativas.

2. Um mundo em mudança carregado de novos desafios para a humanidade

Quando se pretende caracterizar o mundo em que vivemos logo ocorre afirmar que se trata de um mundo em mudança. Mas esta afirmação, só por si, nada diz, pois que o mundo sempre conheceu mudanças. O que o nosso tempo tem de específico é a amplitude e a natureza das mudanças em curso e o facto de aquelas se processarem com uma enorme aceleração.
Vou ilustrar esta afirmação com alguns exemplos.

2.1 A Terra é redonda mas o mundo está a tornar-se cada vez mais plano

Não se alterou a geografia desde que Cristóvão Colombo descobriu as Américas e confirmou que o planeta em que habitamos é aproximadamente esférico. Contudo, a percepção que hoje temos é que o mundo é plano: qualquer espaço, pessoa ou evento está ao nosso alcance em tempos cada vez mais curtos. As viagens são hoje mais frequentes e incomparavelmente mais rápidas. Os legumes e os frutos que consumimos chegam-nos de longe tão frescos como no tempo em que os buscávamos na horta. As notícias do que acontece no mundo são-nos comunicadas em tempo quase real. Tratamos por tu grandes personagens dos quatro cantos do mundo, como outrora fazíamos com os vizinhos da nossa pequena aldeia ou pacata vila. Sabemos quando morre um cantor ou cantora célebre, ou quando um futebolista teve um entorse, no mesmo plano em que temos a notícia que morrem de fome 50 mil crianças por dia ou que o G8 se reúne para decidir sobre os destinos do mundo. As ideias e os conhecimentos circulam à velocidade de um clic de computador.

2.2 A economia globalizada

Para esta configuração de um mundo plano muito tem contribuído a economia globalizada. É, com efeito, cada vez maior o seu peso nas economias nacionais e, obviamente, o seu impacto sobre a vida dos cidadãos e cidadãs de cada país.
As empresas transnacionais tornaram-se grandes gigantes económicos com volumes de negócios que podem ultrapassar o PIB de alguns estados. Adquiriram um enorme poder que as subtrai ao poder democrático. Permitiram que o capital accionista se convertesse no móbil principal da actividade económica e ditasse a sua lógica de maximização de lucro.
As empresas, por seu turno, sujeitas à concorrência no mercado global, procuraram lógicas de produção e comercialização também elas globalizadas, isto é, concebidas e executadas tendo por referência o espaço global. As novas tecnologias deram o seu contributo a este estado do mundo, permitindo a parcelização de tarefas de um mesmo processo produtivo e facilitando a comunicação e o transporte. Neste contexto, ganha, por definição, o accionista; talvez ganhe o consumidor com o aparecimento de novos e mais baratos produtos; mas perdem os trabalhadores que são tidos como meras variáveis de ajustamento No sistema. O mercado global é, como alguém disse, “um mercado distraído”. Distraído quanto à valorização dos recursos humanos e à equidade na repartição dos custos e benefícios. Distraído, ainda, quanto aos efeitos do longo prazo e à sobrevivência do Planeta. A pobreza e a exclusão social, o desemprego, o abaixamento relativo dos salários reais, a perda de direitos, o enfraquecimento da protecção social são, nos países desenvolvidos, sub-produtos desta economia globalizada. Quanto aos países sub-desenvolvidos, a globalização tem-se traduzido em alguns casos na desestruturação das suas economias de subsistência com consequências no agravamento da pobreza local; noutros casos, assiste-se a processos de crescimento económico com sobre-exploração de recursos, materiais e humanos, e elevados níveis de desigualdade e concentração da riqueza. São exemplos do primeiro caso grande número de países africanos; ilustram o segundo caso a China, a Índia ou o Paquistão.

2.3 A “galáxia” da informação e da comunicação

Outro dos factores propulsores da mudança acelerada que atravessa o mundo contemporâneo prende-se com as tecnologias da informação e da comunicação.
Estas permitiram dotar o ser humano de múltiplas próteses, que ampliam enormemente as suas capacidades de informação e comunicação. O telemóvel ou o computador e o correspondente acesso à Internet encurtaram as distâncias de pessoas, lugares e conhecimentos. Não só é possível aceder à informação como se criaram possibilidades de a criar a partir de qualquer recanto da terra. É hoje possível que um alemão esteja a trabalhar para a NASA num monte alentejano. Ou que uma cidadã de Trás-os-Montes obtenha uma resposta acerca de uma doença rara dada em português, a partir de um call center localizado na Austrália, Se alguém o desejar, poderá lançar um projecto empresarial em parceria com outro cidadão ou cidadã a viver em qualquer lugar do mundo desde que ambos tenham acesso à Net. Também podem programar-se férias em conjunto ou organizar campanhas em torno de causas comuns. Isto para falar dos bons usos da Net. Mas há também os maus usos – a pornografia infantil, a exploração sexual, nas suas diversas modalidades, os negócios ilícitos da droga ou das armas, a programação da corrupção e do crime organizado à escala mundial e até uma “second life”....
Por este mero enunciado se antevê o alcance deste mundo virtual em que vivemos e como ele está a moldar valores, atitudes, comportamentos e modos de viver pessoais e colectivos.

2.4 A dessacralização da vida e o risco de uma nova “barbárie”

Neste quadro de mudança acelerada, a pessoa humana convive com a ambiguidade de, por um lado, ver afirmados valores e direitos humanos como em nenhuma outra época da história da Humanidade e, por outro lado, assistir ao espezinhamento desses mesmos valores e direitos quando a eles se sobrepõem os interesses da economia ou da técnica ou, simplesmente, a força e o poder de indivíduos mais hábeis em aproveitar a seu favor as potencialidades criadas pelo próprio progresso tecnológico.
A vida humana vem perdendo, na cultura contemporânea, a sua dimensão divina e sagrada e é, facilmente, tida como objecto de manipulação, mais do que sujeito de uma existência única e singular, a preservar e promover.
Os ditames da economia competitiva sobrepõem-se ao cultivo das relações interpessoais, aos cuidados familiares, ao desenvolvimento das relações humanas, à contemplação da beleza, à prática da religião. Estas precisam de tempo e este tornou-se num bem raro, por isso de grande preço.
Acentua-se a propensão para o individualismo e o hedonismo (faço ou ajo consoante o meu próprio prazer).
Por arrastamento, é secundarizada a ética e a moral, enquanto guias interiorizados do comportamento humano.
Há sinais preocupantes de um possível retorno a uma nova barbárie de violência gratuita, xenofobismo, materialismo grosseiro, crime organizado ou, com matizes mais ténues, o desprezo pelos idosos, o abandono das crianças, a desatenção aos doentes e menos válidos, a falta de compromisso com a palavra dada, o desrespeito pelos direitos das gerações vindouras.

3. O Povo de Deus na sua relação com o mundo

É a altura de retomar a questão que ficou pendente: Que lugar para a Igreja, Povo de Deus, neste mundo em mutação acelerada?
O Povo de Deus vive no mundo e não fora dele. É, ao mesmo tempo, sujeito da mudança e seu objecto.
No mundo dessacralizado e laicizado em que vivemos, são as mulheres e os homens cristãos – e não tanto as instituições eclesiásticas - que, nos seus respectivos ambientes, poderão agir como fermento de um mundo mais justo e fraterno. Importa, pois, que assumam, como sua, esta missão do Povo de Deus.
Mas estarão preparados para a desempenhar?
Creio que não. Por várias razões:
Em primeiro lugar, por um défice de identidade baseada num real aprofundamento da fé em Cristo e suas implicações na vida de cada baptizado/a. Não basta ficar com um conhecimento medíocre de uma primeira catequese. A fé aprofunda-se ao longo de toda a vida e deve acompanhar a dinâmica própria de cada tempo e fase da vida. Porque a fé e o amor cristão constituem faces de uma mesma medalha, carecem ambos de ser aferidos e revitalizados em função das circunstâncias do espaço e do tempo em que a cada um/a é dado viver.
Insisto, pois, em que é ao nível pessoal que se jogam os desafios de uma presença viva e actuante no mundo.
Mas isto não obsta a que tenhamos de atender à missão do Povo de Deus no seu conjunto e à sua visibilidade no mundo contemporâneo.
Não certamente para defender novas cruzadas ou organizar campanhas de resistência civil. Mas, antes, para fortalecer e tornar operantes os três traços fundamentais que informam (deveriam informar) a expressão visível do Povo de Deus:
- a profecia (na sua dupla dimensão de denúncia e anúncio) do reino de Deus, a construir no tempo histórico;
- o serviço, com particular atenção aos mais carenciados;
- o empenhamento na viabilização da fraternidade universal, pela participação nas grandes causas comuns, seja a defesa dos direitos humanos, a luta pela não violência sobre as mulheres, a erradicação da pobreza, a equidade nas relações comerciais e a luta por uma regulação democrática do mercado mundial.
Estes são exemplos, entre outros, de causas comuns presentes neste nosso mundo globalizado em transformação acelerada. Um mundo de múltiplos e sérios riscos, mas onde é possível intervir, como em nenhuma outra época da história, e fazer acontecer o melhor da mudança.
Essa é a nossa missão e a nossa responsabilidade.

 
* Conferência proferida no âmbito do Seminário
"O Povo de Deus num mundo em mudança"
promovido pelo Movimento Internacional
«Nós Somos Igreja - Portugal».
[»-»]
 
Lisboa, 5 de Maio 2007

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