Num tempo em que as experiências da incerteza
e da fragilidade são nota dominante do nosso quotidiano, que
desafios colocam à nossa atitude perante a vida?
Obrigada por poder estar aqui convosco em
Betânia.
O ponto donde vos falo é o de um quotidiano
onde tanto lido com os meus próprios desencantos e decepções,
como com os colegas que estão desanimados com a conjuntura do
país e do mundo – o tempo das expectativas regressivas – como
com histórias de vida onde a pobreza material e/ou o
empobrecimento psíquico são a tónica e nas quais por vezes há
marcas de violência e abandono afectivo muito profundas.
Trabalho num dos concelhos que ultimamente tem sido noticia de
casos de violência grave: Loures, e contacto com um bairro em
Chelas onde já vivi como observadora participante um dos
episódios mais violentos da minha vida.
Estas são experiências que interrogam o meu percurso de viver e
que tentarei partilhar convosco.
O tempo que vivemos no nosso mundo Ocidental,
chamado de expectativas regressivas, desafia-nos a pensar a
relação com os nossos desejos e sentimentos, perguntando qual o
lugar onde pomos o nosso coração na busca do sentido da nossa
existência. Os nossos desejos a um certo nível têm sido muito
moldados numa conjuntura em que reconhecendo as injustiças no
mundo, no nosso país, na nossa vizinhança, permanecíamos
usufruindo dum horizonte de progresso cujo limite, embora
falado, continuava a ser vivido como longínquo. Assim o nosso
desejo da “vida boa”, do bem comum, da inclusão, permanecendo
uma referência mais ou menos difícil de alcançar, mantinha-se
como algo que nos tocava e não nos tocava ao mesmo tempo. Porque
na forma como nos tocava aparentemente não mexia duma maneira
muito profunda nos nossos hábitos.
Ora hoje o que me/ nos surge no horizonte
como pergunta é: ACEITAMOS NÓS EMPOBRECER PARA QUE O MUNDO POSSA
SER MAIS EQUITATIVO, PARA QUE AS GERAÇÕES FUTURAS POSSAM
USUFRUIR DE AR BOM PARA RESPIRAR, ÁGUA PARA BEBER, DE MANEIRAS
DE VIVER QUE LHES GARANTAM UMA SOCIABILIDADE MAIS HUMANIZADA?
Estamos nós disponíveis para internalizar o
desejo de empobrecer? E que conflitos com os nossos hábitos
introduzirá este desejo?
Diante desta pergunta o percurso de vivências
pessoais é vasto e variado.
1- Desde logo discordar da pergunta
ou da forma como é feita. Mas nesse caso convirá explicitarmos
leituras da realidade e nessas leituras importará fazermos um
esforço de pensar e aprofundar a reflexão sobre a realidade, que
resista à reprodução mimética do que se ouve dizer nos média,
nos fazedores de opinião. Preocupa-me muito o facto de no nosso
quotidiano substituirmos facilmente a reflexão pelo comentário,
e portanto termos uma ideia de que a realidade é o que ouvimos
dizer ou que vemos na TV. D. Hélder Câmara convidava-nos a
“pôr o ouvido no chão” para escutar fundo a realidade.
Contudo isso é difícil pois há muito ruído à nossa volta. Daí
que um dos desafios na nossa vida é como nos dispomos a
despojar-nos deste ruído e a criarmos formas de reflexão pessoal
ou grupal, tentando interrogar-nos sobre qual será a
complexidade da situação com que somos confrontados, quais os
pontos donde nos falam os vários intervenientes no processo,
ultrapassando o mecanismo de acção-reacção, ultrapassando o
julgamento fácil e a atitude em espelho – com frequência
reagimos como um espelho da TV, dos Jornais, dos fazedores de
opinião e com dificuldade paramos para pensar, interrogando em
quê ou como nos toca o objecto com que somos confrontados –
aquilo que nos incomoda que sentimentos desperta em nós? Como
lidamos com o que não corresponde às nossas expectativas? A
decepção habitualmente associada a sentimentos de raiva e
tristeza, implica lidar com a perda e a perda é um confronto
fundo com o nosso desejo de controlo. Só tomando consciência
deste desejo fundo de controlo que nos habita poderemos encetar
o caminho humilde do desapego – esse desapossamento, que no
interior duma cada vez maior consciência de si trabalha o desejo
de um esvaziamento de si.
2- Outro aspecto poderá ser negar que a
relação com a realidade comporte este tipo de desafio (continuo
a falar da internalização do desejo de empobrecermos).
Nessa negação estão habitualmente presentes 2 tipos de
mecanismos que são faces da mesma moeda – o mecanismo do bode
expiatório e o da maledicência.
O bode expiatório é definido como
“pessoa ou coisa sobre quem se fazem recair as culpas, se
imputam ódios, revezes, frustrações, desgraças…” (dicionário
Houssai). Este mecanismo faz com que se projecte sempre para
fora de cada um de nós o que é da responsabilidade de cada um –
ou porque o problema está na sociedade, no ministro, nos
políticos, no chefe, no colega, no tipo de doente, no tipo de
aluno, nos sem abrigo que não se querem abrigar, …Este mecanismo
pode até estar disfarçado por um discurso que invoca o “bem”,
mas uma invocação que não liga a ideia ao coração de cada ser
que a utiliza, ideologia pura portanto, e nessa medida constitui
um grande obstáculo à interrogação de cada um sobre si próprio.
Neste sentido o mecanismo da expiação opõe-se
à conversão. A expiação instaura a linguagem da vitima e do
carrasco, ciclo de vivência mais da destruição do que da
criação. Não nos fala a Paixão de Jesus, sua morte e
ressurreição, do desafio que é rasgar este ciclo? Estamos nós
disponíveis a rasgá-lo e a não nos vermos ou vermos os outros
como vitimas ou como carrascos?
Sinto necessidade de meditar com frequência a
parábola do Fariseu e do Publicano (Lc, 18, 10-14) para ter bem
presente a tentação do desejo de domínio sobre o outro através
do meu discurso sobre a vida, mesmo que seja em nome do bem.
Considero que uma das tentações fortes do mundo de hoje onde
todos estamos incluídos e não só as academias, media, fazedores
de opinião, igreja, políticos… é o farisaísmo. Falamos como se o
que disséssemos diga apenas respeito aos outros no que toca aos
desafios para a vida. Sinto que o momento que vivemos é um
desafio de aprendizagem de humildade e compaixão – sofrer com.
Por isso para mim é tão importante manter um
desejo de discernimento dos sentimentos que nos movem nos nossos
discursos, nos nossos gestos. Se tentarmos ir fundo por vezes é
ténue a linha que separa a tentação do nosso desejo de domínio
sobre o outro, mesmo que seja pela absoluta necessidade de
sermos reconhecidos como fazedores do bem, do convite ao
despojamento, instância necessária ao reconhecimento do DOM –
somos devedores dum bem maior que nós.
Assim em oposição à lógica da expiação
aceitemos o convite de Jesus à conversão. Aceitemos o percurso,
a tentativa de ir mais fundo nas nossa motivações e sem medo
ousemos o discernimento entre o que é bondade ou desejo
narcísico de domínio. Para ousarmos fundo neste discernimento
temos que tentar despir-nos do medo de sintonizar os nossos
núcleos invejosos, ciumentos e de receio de não ser amados. É o
caminho de preferir a Confiança ao Medo, mas para confiar temos,
como diz Teresa de Lisieux, de aceitar ternamente as nossas
misérias.
A maledicência. Falamos dos media
mas os media reproduzem modos nossos de viver – quantas
vezes somos capaz de guardar reserva sobre algo que nos disseram
de outros? E quantas vezes somos capaz de pensar sobre que
desafios nos colocam a nós pessoalmente situações que com grande
impulsividade transformamos em jeitos justiceiros de ver a vida?
Não está em causa a importância de explicitarmos a “discordância
de orientações”, como diz Cantante numa das suas canções; de
explicitar os conflitos de interesses e visões que temos, para
insistindo no seu debate encontrar formas comuns de viver. O que
está em causa é fugir a isso através de formas que, como a
maledicência, servem para nos distrairmos da nossa própria vida,
utilizando mecanismos de retaliação ora muito subtis ora muito
óbvios. A maledicência é da ordem da vingança e não da
misericórdia e do perdão.
Proponho que ouçamos excertos da
Epistola de Tiago, texto que medito com frequência.
3- “PEDIS E NÃO
RECEBEIS PORQUE PEDIS MAL, PARA SATISFAZER OS VOSSOS
PRAZERES”
-
Epistola de Tiago
Diante da fragilidade – fragmentação – que as
nossas vidas experimentam, ou apelamos à nostalgia da totalidade
ou clivamos entre bem e mal, preto e branco, porque é mais
securizante, fugindo, assim, à relação com a complexidade.
Aceitemos a complexidade. Aceitar a complexidade é um esforço
maior porque provoca vivências de incerteza, de perdição, mas
transporta a riqueza de ousar fazer pontes.
Ora aceitar empobrecer tem que ver com estes
desafios de criar pontes, nem que seja no nosso olhar. Um olhar
que rasgue a nossa tentação de omnipotência, marca que
transportamos desde bebés, e que exige o convívio interior com a
ABDICAÇÃO. A experiência de abdicação remete-nos para a relação
com a liberdade/o limite/a morte.
Abraão partiu. Confiou.
Melchior, o do conto de Sophia, também.
A questão tal como no excerto do conto que
vos vou ler é se “estamos disponíveis a continuar a perguntar, a
escutar e a esperar” e depois partir insistindo que a nossa
destinação não é a morte mas o Amor – a não morte.
Emília Leitão
Betânia, 29 de Março de 2008