DESEJO, PODER, PALAVRA

Emília Leitão

Fundação Betânia

Conferência - 29 de Março 2008
White Lines in Dirt - Jim Vecchi, 2007  

 

Num tempo em que as experiências da incerteza e da fragilidade são nota dominante do nosso quotidiano, que desafios colocam à nossa atitude perante a vida?

Obrigada por poder estar aqui convosco em Betânia.

O ponto donde vos falo é o de um quotidiano onde tanto lido com os meus próprios desencantos e decepções, como com os colegas que estão desanimados com a conjuntura do país e do mundo – o tempo das expectativas regressivas – como com histórias de vida onde a pobreza material e/ou o empobrecimento psíquico são a tónica e nas quais por vezes há marcas de violência e abandono afectivo muito profundas. Trabalho num dos concelhos que ultimamente tem sido noticia de casos de violência grave: Loures, e contacto com um bairro em Chelas onde já vivi como observadora participante um dos episódios mais violentos da minha vida.
Estas são experiências que interrogam o meu percurso de viver e que tentarei partilhar convosco.

O tempo que vivemos no nosso mundo Ocidental, chamado de expectativas regressivas, desafia-nos a pensar a relação com os nossos desejos e sentimentos, perguntando qual o lugar onde pomos o nosso coração na busca do sentido da nossa existência. Os nossos desejos a um certo nível têm sido muito moldados numa conjuntura em que reconhecendo as injustiças no mundo, no nosso país, na nossa vizinhança, permanecíamos usufruindo dum horizonte de progresso cujo limite, embora falado, continuava a ser vivido como longínquo. Assim o nosso desejo da “vida boa”, do bem comum, da inclusão, permanecendo uma referência mais ou menos difícil de alcançar, mantinha-se como algo que nos tocava e não nos tocava ao mesmo tempo. Porque na forma como nos tocava aparentemente não mexia duma maneira muito profunda nos nossos hábitos.

Ora hoje o que me/ nos surge no horizonte como pergunta é: ACEITAMOS NÓS EMPOBRECER PARA QUE O MUNDO POSSA SER MAIS EQUITATIVO, PARA QUE AS GERAÇÕES FUTURAS POSSAM USUFRUIR DE AR BOM PARA RESPIRAR, ÁGUA PARA BEBER, DE MANEIRAS DE VIVER QUE LHES GARANTAM UMA SOCIABILIDADE MAIS HUMANIZADA?

Estamos nós disponíveis para internalizar o desejo de empobrecer? E que conflitos com os nossos hábitos introduzirá este desejo?

Diante desta pergunta o percurso de vivências pessoais é vasto e variado.

1- Desde logo discordar da pergunta ou da forma como é feita. Mas nesse caso convirá explicitarmos leituras da realidade e nessas leituras importará fazermos um esforço de pensar e aprofundar a reflexão sobre a realidade, que resista à reprodução mimética do que se ouve dizer nos média, nos fazedores de opinião. Preocupa-me muito o facto de no nosso quotidiano substituirmos facilmente a reflexão pelo comentário, e portanto termos uma ideia de que a realidade é o que ouvimos dizer ou que vemos na TV. D. Hélder Câmara convidava-nos a “pôr o ouvido no chão” para escutar fundo a realidade. Contudo isso é difícil pois há muito ruído à nossa volta. Daí que um dos desafios na nossa vida é como nos dispomos a despojar-nos deste ruído e a criarmos formas de reflexão pessoal ou grupal, tentando interrogar-nos sobre qual será a complexidade da situação com que somos confrontados, quais os pontos donde nos falam os vários intervenientes no processo, ultrapassando o mecanismo de acção-reacção, ultrapassando o julgamento fácil e a atitude em espelho – com frequência reagimos como um espelho da TV, dos Jornais, dos fazedores de opinião e com dificuldade paramos para pensar, interrogando em quê ou como nos toca o objecto com que somos confrontados – aquilo que nos incomoda que sentimentos desperta em nós? Como lidamos com o que não corresponde às nossas expectativas? A decepção habitualmente associada a sentimentos de raiva e tristeza, implica lidar com a perda e a perda é um confronto fundo com o nosso desejo de controlo. Só tomando consciência deste desejo fundo de controlo que nos habita poderemos encetar o caminho humilde do desapego – esse desapossamento, que no interior duma cada vez maior consciência de si trabalha o desejo de um esvaziamento de si.

2- Outro aspecto poderá ser negar que a relação com a realidade comporte este tipo de desafio (continuo a falar da internalização do desejo de empobrecermos).
Nessa negação estão habitualmente presentes 2 tipos de mecanismos que são faces da mesma moeda – o mecanismo do bode expiatório e o da maledicência.

O bode expiatório é definido como “pessoa ou coisa sobre quem se fazem recair as culpas, se imputam ódios, revezes, frustrações, desgraças…” (dicionário Houssai). Este mecanismo faz com que se projecte sempre para fora de cada um de nós o que é da responsabilidade de cada um – ou porque o problema está na sociedade, no ministro, nos políticos, no chefe, no colega, no tipo de doente, no tipo de aluno, nos sem abrigo que não se querem abrigar, …Este mecanismo pode até estar disfarçado por um discurso que invoca o “bem”, mas uma invocação que não liga a ideia ao coração de cada ser que a utiliza, ideologia pura portanto, e nessa medida constitui um grande obstáculo à interrogação de cada um sobre si próprio.

Neste sentido o mecanismo da expiação opõe-se à conversão. A expiação instaura a linguagem da vitima e do carrasco, ciclo de vivência mais da destruição do que da criação. Não nos fala a Paixão de Jesus, sua morte e ressurreição, do desafio que é rasgar este ciclo? Estamos nós disponíveis a rasgá-lo e a não nos vermos ou vermos os outros como vitimas ou como carrascos?

Sinto necessidade de meditar com frequência a parábola do Fariseu e do Publicano (Lc, 18, 10-14) para ter bem presente a tentação do desejo de domínio sobre o outro através do meu discurso sobre a vida, mesmo que seja em nome do bem. Considero que uma das tentações fortes do mundo de hoje onde todos estamos incluídos e não só as academias, media, fazedores de opinião, igreja, políticos… é o farisaísmo. Falamos como se o que disséssemos diga apenas respeito aos outros no que toca aos desafios para a vida. Sinto que o momento que vivemos é um desafio de aprendizagem de humildade e compaixão – sofrer com.

Por isso para mim é tão importante manter um desejo de discernimento dos sentimentos que nos movem nos nossos discursos, nos nossos gestos. Se tentarmos ir fundo por vezes é ténue a linha que separa a tentação do nosso desejo de domínio sobre o outro, mesmo que seja pela absoluta necessidade de sermos reconhecidos como fazedores do bem, do convite ao despojamento, instância necessária ao reconhecimento do DOM – somos devedores dum bem maior que nós.

Assim em oposição à lógica da expiação aceitemos o convite de Jesus à conversão. Aceitemos o percurso, a tentativa de ir mais fundo nas nossa motivações e sem medo ousemos o discernimento entre o que é bondade ou desejo narcísico de domínio. Para ousarmos fundo neste discernimento temos que tentar despir-nos do medo de sintonizar os nossos núcleos invejosos, ciumentos e de receio de não ser amados. É o caminho de preferir a Confiança ao Medo, mas para confiar temos, como diz Teresa de Lisieux, de aceitar ternamente as nossas misérias.

A maledicência. Falamos dos media mas os media reproduzem modos nossos de viver – quantas vezes somos capaz de guardar reserva sobre algo que nos disseram de outros? E quantas vezes somos capaz de pensar sobre que desafios nos colocam a nós pessoalmente situações que com grande impulsividade transformamos em jeitos justiceiros de ver a vida? Não está em causa a importância de explicitarmos a “discordância de orientações”, como diz Cantante numa das suas canções; de explicitar os conflitos de interesses e visões que temos, para insistindo no seu debate encontrar formas comuns de viver. O que está em causa é fugir a isso através de formas que, como a maledicência, servem para nos distrairmos da nossa própria vida, utilizando mecanismos de retaliação ora muito subtis ora muito óbvios. A maledicência é da ordem da vingança e não da misericórdia e do perdão.
 

Proponho que ouçamos excertos da Epistola de Tiago, texto que medito com frequência.

3- “PEDIS E NÃO RECEBEIS PORQUE PEDIS MAL, PARA SATISFAZER OS VOSSOS PRAZERES”
- Epistola de Tiago

Diante da fragilidade – fragmentação – que as nossas vidas experimentam, ou apelamos à nostalgia da totalidade ou clivamos entre bem e mal, preto e branco, porque é mais securizante, fugindo, assim, à relação com a complexidade. Aceitemos a complexidade. Aceitar a complexidade é um esforço maior porque provoca vivências de incerteza, de perdição, mas transporta a riqueza de ousar fazer pontes.

Ora aceitar empobrecer tem que ver com estes desafios de criar pontes, nem que seja no nosso olhar. Um olhar que rasgue a nossa tentação de omnipotência, marca que transportamos desde bebés, e que exige o convívio interior com a ABDICAÇÃO. A experiência de abdicação remete-nos para a relação com a liberdade/o limite/a morte.

Abraão partiu. Confiou.

Melchior, o do conto de Sophia, também.

A questão tal como no excerto do conto que vos vou ler é se “estamos disponíveis a continuar a perguntar, a escutar e a esperar” e depois partir insistindo que a nossa destinação não é a morte mas o Amor – a não morte.

Emília Leitão

Betânia, 29 de Março de 2008

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