É próprio do começo de cada novo ano deixarmo-nos
entusiasmar com projectos de futuro. Fazemo-los para nós próprios,
para os outros que nos estão próximos ou para a Cidade no seu todo.
E mal vai quando, por uma qualquer razão, assim já não sucede, pois
tal significa que se deixou de viver e de acreditar na Vida.
No começo de cada novo ano, sentimo-nos mais
despertos para reconhecer o ímpeto de transformação que a Vida
comporta como sua componente intrínseca e tomamos consciência de que
ela, queiramos ou não, flui ao ritmo do tempo, oferecendo sempre
desafios novos que entusiasmam, mas também pondo em foco possíveis
perplexidades, sempre surpreendentes, que nos podem desgostar e
atemorizar.
O ano de 2009, que agora se inicia, é visto por
muitos como um ano difícil, um ano de agudização de múltiplas
crises, descontentamento e exclusão social crescentes e de mais
violência…
No plano pessoal, avultam os correspondentes
receios de mais frustração, de maior anomia social, perda de sentido
de vida e propensão a défices de solidariedade entre pessoas, grupos
sociais e povos inteiros.
Neste quadro, acho que é oportuno que todos nos
interroguemos: Por onde vai caminhar a esperança de quantos estão
apostados em viver profundamente a sua humanidade e, mais ainda,
daqueles e daquelas que se reconhecem como cristãos, isto é,
discípulos do Ressuscitado e protagonistas da construção de um reino
de Verdade, de Amor e de Paz?
De nada vale querer reter a força da corrente e
pouco adiantam as tentativas de erguer diques à mudança com a
intenção de a reconduzir às paisagens conhecidas do passado. Nem um
saudosismo sonolento do que ficou para trás nem um voluntarismo
ilusório assente em postulados voltados para a construção de um
abstracto devir servem o propósito de uma “mudança fértil do real”,
para usar a expressão poética de Ramos Rosa.
E para quê multiplicar análises e ampliar
profecias de desgraça ou alimentar e potenciar entretenimentos de
maldizer que abafam à nascença os germens de vida nova?
Que nos resta, então, diante do caos ecológico,
da crise financeira, do colapso das economias e sua crescente
incapacidade de resposta às necessidades reais das pessoas e suas
comunidades, da pobreza de muitos e dos perigos da exclusão social?
Que portas se abrem aos homens e mulheres de fé
(dos vários nomes!) que sentem o apelo e a exigência interior que os
movem a serem actores e não meros espectadores, no tempo e no espaço
em que habitam?
Parece-me que o caminho mais promissor é este:
Ter a coragem de ir beber às fontes (à Palavra e ao testemunho) e a
partir delas reconstruir uma identidade pessoal fortalecida, capaz
de interagir (sem se deixar submergir!) de modo positivo com os
recursos, a cultura e o estilo de vida dominantes e de desenhar
soluções criativas e inovadoras que façam emergir novas estruturas e
formas organizativas da vida colectiva.
Há, sobretudo, que contar com os outros que
partilham de uma mesma aspiração de comunidade humana fraterna e
aberta em que prevaleça o Amor e inventar novas solidariedades e
formas de viver onde o egoísmo ceda o passo à partilha da riqueza
material e do conhecimento e a preocupação com o bem comum não seja
palavra vã. Será essa a tal "mudança fértil do real".