Quem vive na cidade
– e é essa a condição de uma parcela cada vez maior da
Humanidade que habita o Planeta, no final desta primeira década
do século XXI – vive mergulhado numa nebulosa de mensagens que,
a todo o momento, chegam pelos mais variados meios, sem pedir
licença para se apresentarem. São palavras ou discursos sobre
factos e ocorrências em qualquer parte do mundo; banalidades,
nuns casos, à mistura com relatos de acontecimentos relevantes;
são ideias consagradas e documentadas em análises científicas,
juntamente com meras especulações opinativas, que, sem pejo, se
reclamam de idêntica fiabilidade, ou em pé de igualdade com
meros anúncios publicitários. São palavras ditas, escritas ou
mediatizadas por imagens que são propostas, em permanência, à
nossa decifração e ao nosso interagir, dando-nos a impressão de
que delas não podemos prescindir, sob pena de perdermos
informação, o que, nas sociedades contemporâneas, equivale a
ficar para trás, a correr o risco de perder “vida” e lugar na
sociedade.
O ruído é, cada vez
mais, o pano de fundo do habitar na cidade e com ele nos
habituamos a conviver acriticamente. Mas não sem custos, em
termos pessoais e colectivos, tanto mais sérios quanto, em
regra, só tardiamente deles nos apercebemos.
A primeira
consequência negativa é a de que o homem e a mulher urbanos
desaprenderam o valor da calma e da contemplação da natureza, o
que é factor de embotamento da sensibilidade e de perda de
capacidade de admiração e reconhecimento pelos dons de que
usufruímos e, consequentemente, é gerador de uma insatisfação
permanente e avidez doentia. A doença do stress, espelhada no
consumo exponencial dos anti-depressivos, é um indicador
inequívoco deste mal hodierno.
Por outro lado, a
impossibilidade material de escrutinar a importância relativa
das mensagens recebidas e a sua respectiva veracidade e
objectividade leva a uma dupla atitude socialmente muito
perigosa: a desconfiança sistemática de tudo e de todos a par de
um seguidismo cego (a televisão já disse!!!).
Por fim, há que
denunciar, ainda, um outro perigo, o de que tanto ruído venha a
abafar a dimensão de interioridade que habita cada ser humano e
lhe confere a sua singularidade própria que lhe é dada pelo seu
eu profundo, unificador do feixe de relações que o constituem.
Sem interioridade, a consciência pessoal não se desenvolve, fica
prejudicado o discernimento correcto perante as situações com
que deparamos na nossa vida e não resta espaço para uma relação
aberta à transcendência.
Face a estes
desafios, há, certamente, pistas de prevenção e minimização
destes riscos, tanto a nível pessoal como colectivo: não quererá
o leitor ou leitora contribuir com os seus comentários e
sugestões?
Para os cristãos,
as semanas que seguem são tempo propício à escuta da Palavra de
Deus e à consequente revisão de vida. Não será esta uma ocasião
oportuna para eliminar das nossas vidas aqueles ruídos que
podemos evitar, ganhando tempo para maior interioridade e
centramento no essencial da nossa condição humana e divina?