Dos muitos ruídos
da cidade
à arte
da escuta
.

Woman running from noise - Marie Bertrand. 2009

Manuela Silva
Março 2010
 
Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem vive na cidade – e é essa a condição de uma parcela cada vez maior da Humanidade que habita o Planeta, no final desta primeira década do século XXI – vive mergulhado numa nebulosa de mensagens que, a todo o momento, chegam pelos mais variados meios, sem pedir licença para se apresentarem. São palavras ou discursos sobre factos e ocorrências em qualquer parte do mundo; banalidades, nuns casos, à mistura com relatos de acontecimentos relevantes; são ideias consagradas e documentadas em análises científicas, juntamente com meras especulações opinativas, que, sem pejo, se reclamam de idêntica fiabilidade, ou em pé de igualdade com meros anúncios publicitários. São palavras ditas, escritas ou mediatizadas por imagens que são propostas, em permanência, à nossa decifração e ao nosso interagir, dando-nos a impressão de que delas não podemos prescindir, sob pena de perdermos informação, o que, nas sociedades contemporâneas, equivale a ficar para trás, a correr o risco de perder “vida” e lugar na sociedade.

O ruído é, cada vez mais, o pano de fundo do habitar na cidade e com ele nos habituamos a conviver acriticamente. Mas não sem custos, em termos pessoais e colectivos, tanto mais sérios quanto, em regra, só tardiamente deles nos apercebemos.

A primeira consequência negativa é a de que o homem e a mulher urbanos desaprenderam o valor da calma e da contemplação da natureza, o que é factor de embotamento da sensibilidade e de perda de capacidade de admiração e reconhecimento pelos dons de que usufruímos e, consequentemente, é gerador de uma insatisfação permanente e avidez doentia. A doença do stress, espelhada no consumo exponencial dos anti-depressivos, é um indicador inequívoco deste mal hodierno.

Por outro lado, a impossibilidade material de escrutinar a importância relativa das mensagens recebidas e a sua respectiva veracidade e objectividade leva a uma dupla atitude socialmente muito perigosa: a desconfiança sistemática de tudo e de todos a par de um seguidismo cego (a televisão já disse!!!).

Por fim, há que denunciar, ainda, um outro perigo, o de que tanto ruído venha a abafar a dimensão de interioridade que habita cada ser humano e lhe confere a sua singularidade própria que lhe é dada pelo seu eu profundo, unificador do feixe de relações que o constituem. Sem interioridade, a consciência pessoal não se desenvolve, fica prejudicado o discernimento correcto perante as situações com que deparamos na nossa vida e não resta espaço para uma relação aberta à transcendência.

Face a estes desafios, há, certamente, pistas de prevenção e minimização destes riscos, tanto a nível pessoal como colectivo: não quererá o leitor ou leitora contribuir com os seus comentários e sugestões?

Para os cristãos, as semanas que seguem são tempo propício à escuta da Palavra de Deus e à consequente revisão de vida. Não será esta uma ocasião oportuna para eliminar das nossas vidas aqueles ruídos que podemos evitar, ganhando tempo para maior interioridade e centramento no essencial da nossa condição humana e divina?

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