Para uma “mudança fértil do real”

 

Dandelion Seeds Blowing in Wind - Daniel Sicolo, 2008

Manuela Silva

Janeiro 2009

O deus da origem e do recomeço da vida revela, assim, a sua integridade viva como ser da transformação e da mudança fértil do real.
António Ramos Rosa – O aprendiz secreto.

É próprio do começo de cada novo ano deixarmo-nos entusiasmar com projectos de futuro. Fazemo-los para nós próprios, para os outros que nos estão próximos ou para a Cidade no seu todo. E mal vai quando, por uma qualquer razão, assim já não sucede, pois tal significa que se deixou de viver e de acreditar na Vida.

No começo de cada novo ano, sentimo-nos mais despertos para reconhecer o ímpeto de transformação que a Vida comporta como sua componente intrínseca e tomamos consciência de que ela, queiramos ou não, flui ao ritmo do tempo, oferecendo sempre desafios novos que entusiasmam, mas também pondo em foco possíveis perplexidades, sempre surpreendentes, que nos podem desgostar e atemorizar.

O ano de 2009, que agora se inicia, é visto por muitos como um ano difícil, um ano de agudização de múltiplas crises, descontentamento e exclusão social crescentes e de mais violência…

No plano pessoal, avultam os correspondentes receios de mais frustração, de maior anomia social, perda de sentido de vida e propensão a défices de solidariedade entre pessoas, grupos sociais e povos inteiros.

Neste quadro, acho que é oportuno que todos nos interroguemos: Por onde vai caminhar a esperança de quantos estão apostados em viver profundamente a sua humanidade e, mais ainda, daqueles e daquelas que se reconhecem como cristãos, isto é, discípulos do Ressuscitado e protagonistas da construção de um reino de Verdade, de Amor e de Paz?

De nada vale querer reter a força da corrente e pouco adiantam as tentativas de erguer diques à mudança com a intenção de a reconduzir às paisagens conhecidas do passado. Nem um saudosismo sonolento do que ficou para trás nem um voluntarismo ilusório assente em postulados voltados para a construção de um abstracto devir servem o propósito de uma “mudança fértil do real”, para usar a expressão poética de Ramos Rosa.

E para quê multiplicar análises e ampliar profecias de desgraça ou alimentar e potenciar entretenimentos de maldizer que abafam à nascença os germens de vida nova?

Que nos resta, então, diante do caos ecológico, da crise financeira, do colapso das economias e sua crescente incapacidade de resposta às necessidades reais das pessoas e suas comunidades, da pobreza de muitos e dos perigos da exclusão social?

Que portas se abrem aos homens e mulheres de fé (dos vários nomes!) que sentem o apelo e a exigência interior que os movem a serem actores e não meros espectadores, no tempo e no espaço em que habitam?

Parece-me que o caminho mais promissor é este: Ter a coragem de ir beber às fontes (à Palavra e ao testemunho) e a partir delas reconstruir uma identidade pessoal fortalecida, capaz de interagir (sem se deixar submergir!) de modo positivo com os recursos, a cultura e o estilo de vida dominantes e de desenhar soluções criativas e inovadoras que façam emergir novas estruturas e formas organizativas da vida colectiva.

Há, sobretudo, que contar com os outros que partilham de uma mesma aspiração de comunidade humana fraterna e aberta em que prevaleça o Amor e inventar novas solidariedades e formas de viver onde o egoísmo ceda o passo à partilha da riqueza material e do conhecimento e a preocupação com o bem comum não seja palavra vã. Será essa a tal "mudança fértil do real".

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