Falar de alegria pode
parecer algo insólito e até provocador nestes tempos em que as cores
que mais sobressaem, nos discursos dos políticos e seus comentadores
ou mesmo nas conversas banais dos nossos quotidianos, se revestem de
tons bem sombrios.
A crise de que se fala
parece, inevitavelmente, contrária à alegria. Terá de ser assim?
Quando na rua ou no
metro olho à minha volta, dou conta de que os rostos das pessoas,
novas e mais velhas, são, em geral, faces de pessoas contraídas,
ensimesmadas ou zangadas, por vezes sob o disfarce da música dos
seus auriculares ou sob o frenesim de uma qualquer comunicação por
telemóvel. São rostos tristes, os das pessoas com que acidentalmente
me cruzo, rostos que exprimem e transmitem temor, desconfiança,
sofrimento, tristeza. Raramente, deparo com rostos transmissores de
alegria, mas, quando assim sucede, a sua alegria contagia-me e
tornam-me melhor pessoa, mais confiante e generosa.
É certo que os tempos
são ásperos e cruéis para muitas das pessoas com quem convivemos –
gente que viu os seus rendimentos habituais drasticamente reduzidos,
gente que perdeu emprego e não vislumbra oportunidades para o
substituir, jovens que, embora tentando arduamente, não conseguem
entrada na profissão para a qual se prepararam, laços afectivos que
foram rompidos, relações laborais demasiadamente competitivas e
stressantes, enfim, todo um cortejo de condições objectivas que mais
promovem a tristeza e tornam a alegria uma árdua tarefa de todos os
dias.
Uma tarefa, aliás,
primordial como atitude de combate contra os sistemas que tão
magistralmente encontram arautos que sabem manipular a tristeza dos
mais desprevenidos, para justificarem o injustificável ou fazer
aceitar, como inevitáveis e até estruturalmente inovadoras, as suas
práticas de dominação.
Quem se habituou a
esperar uma felicidade adquirida fora de si, e a confiar no poder do
dinheiro e do possuir como meios para a alcançar está, certamente,
mal preparado para enfrentar as perplexidades, contrariedades e
tristezas que, inexoravelmente, marcam toda a existência humana e,
portanto, também a nossa. Quem naqueles fundamentos foi construindo
a sua vida pessoal terá dificuldade em experimentar a pura alegria
de viver o que só conseguirá escolhendo novas coordenadas de
referência para o seu modo de viver.
Ao invés, quem aprendeu
a acolher a sua existência e tudo o que a rodeia como dádiva,
promessa, projecto em construção, poderá saborear, em todas as
circunstâncias, cada momento como uma realização da sua
individualidade, um gosto, um avanço em direcção a uma plenitude
desejada, confiando em que nisso reside a fonte de uma verdadeira e
segura alegria. Uma alegria que, para ser duradoura e autêntica,
há-de mergulhar as suas raízes no desejo profundo que habita todo o
ser humano e o dirige para a superação das suas frustrações, dos
seus medos e limites.
A esta luz, São Paulo
pôde, com verdade e audácia, convidar as comunidades cristãs do seu
tempo a viver na alegria, mesmo no meio das tribulações e
perseguições próprias do seu tempo. Vivei sempre alegres, dizia aos
Tessalonicenses (I Ts 5,16); ou, dirigindo-se aos romanos, escrevia
Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na
oração (Ro 12,12), exortações a que subjaz uma ideia mestra do
pensamento Paulino: a capacidade de sermos pessoas livres. Estas
palavras de São Paulo revestem-se no nosso tempo de grande
actualidade.
Para enfrentar com
êxito a presente crise, precisamos de fortalecer a nossa liberdade
individual e colectiva para discernir o que convém à alegria,
sabendo bem que, como lembra José Augusto Mourão, Ser alegre não é
necessariamente ver a vida cor-de-rosa… A alegria é o outro nome da
liberdade enquanto afirmação da nossa individualidade.